Com o 5 Turbo 3E, pode-se dizer que a Renault “colocou a carne toda no assador” ao conceber um desportivo capaz de fazer a alegria dos amantes desta classe de veículos, sendo simultaneamente leve, potente, necessariamente ágil — graças às dimensões reduzidas — e muito rápido de recarregar. Partindo do novo R5 eléctrico, a marca francesa manteve o comprimento nos 4 metros, mas esticou a largura até aos 2 metros, sobretudo atrás, recuperando a denominação R5 Turbo do modelo que lançou em 1980 e que viria a tornar-se numa máquina de ralis difícil de bater em asfalto, como provam as vitórias no Rali de Monte Carlo de 1981 e Tour de Corse de 82 e 85, a que juntou o Rali de Portugal de 86, por outros motivos.
Depois de ter exposto um protótipo similar em 2022, a Renault decidiu avançar para este projecto com o objectivo de propor um desportivo marcante, mas também para testar novas tecnologias, o que é mais fácil num modelo de pequena produção, como é o caso, uma vez que irão ser fabricadas apenas 1980 unidades do R5 Turbo 3E.
O chassi não é o original que serve o Renault 5 E-Tech, o qual assenta na plataforma AmpR Small em aço, para ser mais barato. Já o desportivo recorre exclusivamente a alumínio, reforçado em alguns pontos por fibra de carbono, para reduzir o peso. Daí que anuncie hoje 1450 kg, apesar de montar dois motores e uma bateria com 70 kWh. Mas os técnicos da marca não querem ficar por aqui, pois pretendem continuar a emagrecer o R5 Turbo 3E até aos 1400 kg.
Se o regresso da Renault aos chassis em alumínio não é uma novidade — basta recordar o Sport Spider de 1996 —, já o mesmo não acontece com as baterias, cuja química é a conhecida NMC 811. Os acumuladores irão ser produzidos pela marca em França e surgem associados a uma arquitectura a 800V, em vez dos habituais 400V dos restantes eléctricos, o que é uma estreia nos modelos a bateria da Renault e permite realizar carregamentos mais rápidos. Daí que este R5 Turbo 3E preveja recarregar com potências de até 350 kW, enquanto eléctricos como o Scenic E-Tech estão limitados a 150 kW.
Também os motores são uma estreia para a Renault, pois o desportivo monta duas unidades, mas nenhuma no eixo dianteiro. Ambos estão instalados atrás, no eixo posterior, o que permite à marca ligar cada motor à sua roda traseira e depois aplicar a potência, em aceleração ou desaceleração, como se tratasse de um autoblocante, com a vantagem de reagir mais rapidamente do que um sistema de autoblocante convencional, sendo ainda mais versátil e modulável. Daí que a marca defina o 5 Turbo 3E como uma máquina de drift, de ralis e de circuito, perfeitamente capaz de ser utilizada em estrada e na cidade.
A colocação dos dois motores no eixo traseiro, cada um ligado à sua roda, não é em si uma novidade, sendo por exemplo utilizada pelo Tesla Model S Plaid. Onde a Renault decidiu inovar — e de uma forma preocupante — é ao colocar cada motor dentro da sua roda. Esta solução liberta a zona entre as rodas posteriores, provavelmente para acomodar um pack de baterias mais generoso — o 5 Turbo 3E monta um acumulador com 70 kWh, em vez dos 55 kWh do R5 E-Tech normal —, mas os motores eléctricos instalados nos cubos de roda aumentam a massa não suspensa, o que complica drasticamente o trabalho da suspensão e daí que se recorra a jantes em liga-leve para diminuir todo o peso associado à roda.
O novo Renault 5 Turbo 3E continua na fase de desenvolvimento, mas vai permitir à marca francesa o domínio de tecnologias que irão melhorar outros modelos de série, mais acessíveis e menos possantes. A partir do primeiro semestre de 2027, as 1980 unidades a fabricar irão começar a ser entregues aos clientes que colocaram as primeiras encomendas. O preço ainda não está definido, mas deverá oscilar entre 150.000€ e 200.000€, dependendo do nível de personalização, especialmente no interior.
Com 540 cv a puxar 1450 kg (será que conseguem chegar aos 1400 kg?), a Renault aponta a 0-100 km/h em menos de 3,5 segundos e 270 km/h de velocidade máxima. De acordo com os técnicos gauleses, o objectivo é assegurar que o condutor, sempre que desejar sentir emoções fortes num track day, possa rodar 20 minutos a fundo em pista (os pneus não deverão aguentar muito mais, devido aos 4800 Nm que anuncia às rodas, apesar de montar 275/35 R20 atrás), para depois o Renault 5 Turbo 3E recarregar de 15% a 80% em apenas 15 minutos, a 350 kW.
Caso opte por se deslocar a velocidades civilizadas e legais neste Renault 5 musculado, que possui uma distância entre eixos com mais 3 cm do que o R5 eléctrico normal, o condutor pode contar com uma autonomia de 400 km em WLTP. Assim, talvez tenha oportunidade para apreciar o interior revestido a Alcantara, tal como os bancos que parecem de competição e que até podem ser de cores diferentes, entre outros pormenores ao gosto do cliente. Das 1980 unidades numeradas que vão estar à venda, cerca de 10 vão ter Portugal como destino.