A frase marcou um dos primeiros debates parlamentares da atual legislatura em que o novo aeroporto foi um tema central. O ministro das Infraestruturas apontava para o prazo de 10 anos até ficar operacional a infraestrutura aprovada e o líder do Chega questionou a necessidade de um prazo tão longo, dando como exemplo a construção em cinco anos do novo aeroporto de Istambul e acrescentando a frase que incendiou o hemiciclo: “Os turcos não são conhecidos por serem os mais trabalhadores do mundo”, para concluir que os portugueses são “muito melhores que os turcos, chineses, albaneses”.

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Em fevereiro uma delegação da comissão parlamentar de economia e obras públicas foi a Istambul ver in loco a obra pública. A iniciativa partiu da parte portuguesa que contactou o embaixador da Turquia em Portugal para agendar a viagem e marcar reuniões. Mas o presidente da comissão parlamentar garante que a deslocação “não está relacionada com a pantomina que o deputado André Ventura fez no Parlamento de desconsideração face a um povo amigo com quem temos relações históricas”.

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Em declarações ao Observador, Miguel Santos, do PSD, justifica a visita de estudo dos deputados com a semelhança entre a questão aeroportuária turca e a nacional, já que Istambul também tinha um aeroporto dentro da cidade no limite da capacidade, por causa do forte crescimento da Turkish Airlines, e decidiu fazer um novo (de raiz) e transferir toda a operação para lá, desativando o antigo — o Atatürk. O aeroporto internacional de Istambul é considerado um exemplo de capacidade de execução e rapidez na execução. O prazo de cinco anos — o projeto foi adjudicado através de uma parceria público privada (PPP) em 2013 e a primeira fase ficou concluída em 2018 — é considerado um recorde para uma infraestrutura desta dimensão.

A viagem de dois dias foi paga pela dotação orçamental da própria comissão que foi, segundo o deputado social-democrata, mais do que suficiente. Foram nessa missão cinco elementos: Miguel Santos (PSD), Pedro Coimbra (PS), vice-presidente de comissão, e os deputados Gonçalo Lage (PSD), Hugo Costa (PS) e Filipe Melo (Chega).

De acordo com o relatório da visita, elaborado pelo deputado do PS, Hugo Costa, a viagem teve como “intuito de melhor capacitar os membros da comissão, no que concerne aos distintos processos de decisão subjacentes à construção do futuro novo aeroporto de Lisboa”, incluindo avaliar o escrutínio feito pela Grande Assembleia Nacional da Turquia ao projeto. A agenda de trabalho envolveu reuniões com o ministro dos Transportes e Infraestruturas, com a administração do aeroporto, responsáveis da Turkish Airlines que tem o seu hub no aeroporto e com a comissão parlamentar homóloga turca.

O representante do Governo turco sinalizou o interesse dos promotores turcos nos projetos a concretizar em Portugal através de parcerias público privadas, mas também no setor da aviação, referindo as iniciativas da Turkish Airlines e da Pegasus Airlines em reforçar a oferta para Portugal. E apontou a capacidade turca na construção naval e o interesse na economia do mar. O grupo turco Ylport é o maior concessionário de terminais portuários em Portugal.

O relatório com o resultado dos contactos e a informação recolhida vai ser entregue ao Governo e ao presidente do Parlamento.

Ministro turco mostrou “preocupação” com concessão de todos os aeroportos a uma só empresa (a ANA)

Foi na conversa da delegação portuguesa que o ministro da Infraestruturas e Transportes, Abdulkadir Uraloğlu, fez um comentário inesperado, segundo o relato da viagem. Apresentado ao modelo de gestão aeroportuária português, demonstrou “preocupação no que concerne à atribuição da gestão da concessão aeroportuária a uma única entidade” — a francesa Vinci. O que suscitou uma explicação por parte do presidente da comissão, Miguel Santos, a enquadrar a escolha através de concurso internacional lançado em 2012 — durante o período de assistência da troika.

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O que estava em causa era a privatização total da ANA, a empresa que tinha a concessão de todos os aeroportos. A construção do novo aeroporto não foi contemplada no contrato como uma obrigação, mas como uma opção a negociar entre concedente e Estado com regras e calendários definidos.

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Estes passos fixados no contrato de concessão da ANA são uma das razões que contribui para o longo processo de decisão final e construção da infraestrutura em Portugal — sem contar com os mais de 50 anos de discussão e avanços e recuos da decisão política. Isto porque confere à concessionária um prazo de até 36 meses para obter a aprovação da candidatura, durante o qual são elaborados os estudos e projetos e a avaliação ambiental.

Grimshaw Architects

Entre a atribuição do contrato em 2013 e a abertura na primeira fase passaram cinco anos

As autoridades turcas lançaram em 2013 — o mesmo ano em foi fechado o contrato final de venda da ANA à Vinci — um concurso público internacional para a construção e exploração do novo aeroporto de Istambul. Ganhou um consórcio composto por dois dos maiores grupos de construção e infraestruturas turcos — a Kalyon Holding e a Cengiz Holding que venceu a fase final com uma proposta de 22 mil milhões de euros. Um dos concorrentes vencidos foi a alemã Fraport que também esteve na corrida pela compra da ANA.

O contrato de concessão para construção e exploração tem a duração de 25 anos que começou a contar em 2017, um ano antes da abertura do aeroporto. O investimento foi realizado tendo por base um empréstimo com garantia do Estado turco. Na proposta inicial para fazer o aeroporto no Campo de Tiro de Alcochete, sem recurso a fundos públicos, a ANA propôs uma extensão da concessão de 30 anos — o atual contrato tem 50 anos —, o que lhe permitiria explorar a nova infraestrutura durante 55 anos. Nesta proposta é apontado um investimento de 8,5 mil milhões de euros que o Governo confia poder ser reduzido durante a fase de negociação.

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Segundo os responsáveis turcos o investimento no aeroporto internacional de Istambul foi de 10 mil milhões de euros.

“Não é apenas um aeroporto, é um monumento à vitória”. Esta frase constava dos cartazes de promoção do novo Aeroporto Internacional de Istambul, o IGA, quando a sua principal cliente, a Turkish Airlines, aí se instalou de armas e bagagens do velho Atatürk, ainda que menos velho — não chegou aos 70 anos —  que o aeroporto da Portela, que fez 82 anos. A mudança foi feita numa janela de 45 horas.

Apesar da rapidez com que o aeroporto foi feito, houve também, no entanto, atrasos no calendário inicial e a pressão para concluir a obra foi apontada por representantes sindicais como potenciadora de acidentes de trabalho, que causaram 27 mortos.

A nova infraestrutura foi instalada numa zona de floresta e lagos a 50 quilómetros do centro de Istambul e 80% da área ocupada estava arborizada, o que obrigou ao corte de mais de 600 mil árvores e à remoção de outras 1,8 milhões para replantação.

O aeroporto opera atualmente com três pistas, o que permite 1.500 movimentos por dia e 110 movimentos por hora (o máximo que se admite em Lisboa são 45 movimentos por hora com um projeto de expansão que ainda não está aprovado). O empreendimento só estará concluído em 2027, altura em que poderá receber 200 milhões de passageiros por ano, mais do dobro do atual e tem sido considerado o melhor aeroporto do mundo por várias publicações da especialidade.

Corrigida a foto de ilustração principal com imagem do novo aeroporto.