Acusado de atos de agressão sexual, assédio e abuso alegadamente cometidos a duas mulheres durante a rodagem do filme Persianas Verdes, de Jean Becker, em 2021, Gérard Depardieu deslocou-se novamente ao Tribunal Penal de Paris para o terceiro dia do julgamento.

Iniciado em 2024, o caso centra-se nas acusações de Amélie, uma cenógrafa de 54 anos, e “Sarah” (pseudónimo), uma assistente de direção de 34 anos, contra o ator de 76 anos, sendo que o julgamento se reveste de particular interesse por Depardieu se tratar de uma das mais reverenciadas figuras do cinema francês. Se for considerado culpado, arrisca-se a uma pena de cinco anos de prisão e uma multa de 75 mil euros.

Esta quarta-feira foi marcada pela presença da atriz Fanny Ardant, amiga pessoal de longa data de Depardieu, chamada a depor por ter contracenado também em Persianas Verdes. “Eu, Fanny Ardant, nunca presenciei um gesto que considerasse escandaloso” por parte de Depardieu, declarou em tribunal, citada pelo Le Monde.

“Eu também sou mulher, já passei por coisas assim. Já levei bofetadas e fui insultada. Sei que se pode dizer não a Gérard”, acrescentou, antes de ensaiar uma defesa de Depardieu, dizendo que o ator “tem uma boca grande, diz palavrões, gosta de se fazer de parvo”. “Sei que a sociedade mudou. E que os pontos de referência já não são os mesmos. Há coisas que costumavam ser toleradas e que já não o são”, afirmou ainda, segundo a rádio RTL.

Ardant apontou ainda para o que considera ser um clima de intimidação no mundo pós-MeToo, dizendo saber de “muitas pessoas não se atreveram a defender Gérard porque tinham medo, medo de perder o emprego, medo de deixar de poder contracenar ou trabalhar como realizador”.“Se eu não viesse em defesa do meu amigo, culpar-me-ia para o resto da vida pela minha cobardia”, concluiu.

Ardant e Depardieu conheceram-se nas filmagens de Les Chiens, de 1979, e fizeram sucesso ao ambos protagonizarem A Mulher do Lado, filme de François Truffaut de 1981. Desde então participaram os dois em muitos mais projetos. De resto, o Observador noticiou a 11 de março que os dois foram vistos em Portugal a preparar um filme vindouro de Ardant, Ela Olhava Sem Nada Ver, que contará com financiamento e produção portugueses.

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Este terceiro dia de julgamento também foi marcado pelo depoimento da segunda das denunciantes, Sarah, depois de Amélie ter sido chamada a depor esta terça-feira.

A assistente de direção corroborou as alegações que já tinha feito ao site de investigação Mediapart, acusando Depardieu de colocar “a mão nas [suas] nádegas” a 1 de setembro de 2021, durante as gravações de Persianas Verdes e num local onde ninguém estava a ver quando ambos caminhavam para o cenário do filme.

“Nessa noite, a sua equipa não estava lá. Saímos do camarim, estava escuro e, no final do caminho, ele colocou calmamente a mão nas minhas nádegas”, descreveu Sarah aos juízes. “Aconteceu de surpresa; fiquei chocada. Não sabia como reagir… Continuei como se nada tivesse acontecido, continuei a caminhar para o cenário. Fiquei com um nó no estômago”, admitiu. Depardieu terá repetido os gestos noutra ocasião, num apartamento de Paris, tocando nas suas nádegas e seios enquanto bloqueava os seus movimentos. Nas duas vezes, “disse não!”, exclamou.

Chamado a responder, Depardieu começou primeiramente por afirmar que nunca fica sozinho durante as gravações das produções em que participa, sendo sempre acompanhado por uma entourage composta por um camareiro, uma maquilhadora e um guarda-costas. Em causa está a sua fraca saúde, sendo incapaz de andar 150 metros na rua sozinho devido ao seu peso e problemas nas articulações. Por essa razão, diz que nunca está desacompanhado.

Sarah, no entanto, nega que estivesse mais alguém no momento dos atos, entretanto descritos pelo ator como potencialmente acidentais. “Talvez eu tenha esbarrado contra ela de costas no corredor, mas não lhe toquei!”, disse o réu, negando uma vez mais qualquer espécie de agressão sexual durante as filmagens. “Não lhe toquei nas nádegas, não lhe toquei nos seios, não fiz nada disso”, afirmou, citado pelo The Guardian.

“Eu não sou assim. Não posso ser assim … Nunca, por vontade própria, toquei numa nádega assim, nem mesmo furtivamente. Nem me passaria pela cabeça”, declarou, quando questionado por Claude Vincent, advogado da queixosa, quanto a essas alegações. “Eu não agredi sexualmente. Uma agressão sexual é mais grave do que isso, penso eu”, atirou. Instado a esclarecer o sentido dessa frase, não o fez, dizendo antes “mais grave do que uma mão nas nádegas. Bem, mas eu não toquei nas nádegas”.

A assistente de direção acusou igualmente Depardieu de criar “um ambiente pouco saudável” nas gravações. “Ele falava de sexo durante todo o dia, mencionando constantemente ‘c***s’ a toda a gente. Ele observa toda a gente, ouve tudo e usa isso mais tarde para humilhar as pessoas. Na altura, eu estava a ter uma separação difícil. Tinha falado com alguém sobre o assunto e ele gozou comigo por causa disso”, lamentou.

Nesse contexto, Sarah diz que nada falou sobre o ocorrido até desabafar com o seu superior, que exigiu da produção um pedido de desculpas do ator. Depardieu ter-se-á então desculpado “muito contrariado”, lembrou. Depois disso, a assistente de direção diz que o ator transformou a sua vida em um inferno, acusando-a abertamente de ser “chiba” e “louca”, além de se recusar a trabalhar com ela, diz.

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A este respeito, o ator admitiu que pediu à produção para se certificar que era um homem que o ia buscar ao camarim em vez de uma mulher devido à variedade de comentários obscenos que proferia no seu camarim, não querendo assim que outras mulheres ficassem chocadas se os ouvissem. “Sou rude e vulgar. Digo coisas que podem chocar as jovens”, confessou.

Depardieu voltou a autocaracterizar-se dessa forma para explicar que, apesar dos seus defeitos, não cometeu os atos de que está a ser acusado. “Sou vulgar, sou rude, sou desbocado”, mas “não toco nem sou violador”, defendeu o réu.

Um julgamento já adiado segue em curso

Iniciado esta segunda-feira, o julgamento ao ator francês foi longo marcado no primeiro dia por ataques da defesa à acusação. Perante o tribunal, numa longa argumentação, o advogado de Depardieu, Jérémie Assous, defendeu a anulação do processo, que considerou ter sido “atropelado desde o início pelo Ministério Público”, com uma “investigação policial mal feita” e “métodos estalinistas” por parte da acusação, segundo a agência France Presse (AFP).

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Assous desenhou ainda uma suposta conspiração entre queixosas, denunciantes, comunicação social e polícia, com a intenção de “derrubar um monstro sagrado” do cinema francês. “Este julgamento permitirá confrontar as acusações com a realidade, com as testemunhas e com a configuração do local. Desta forma, poderemos demonstrar de maneira indiscutível que todas as acusações são falsas”, afirmou.

Para a acusação, os argumentos da defesa visaram apenas ganhar tempo para evitar que se chegasse “à substância do caso”, segundo a advogada de uma das queixosas, Carine Durrieu-Diebolt, citada pela AFP. “Tenta a todo o custo, a todo o momento, atrasar, retardar o processo judicial”, lamentou à imprensa.

Já na terça-feira, os trabalhos foram marcados pelo depoimento de Amélie. A cenógrafa de 54 anos repetiu ao tribunal as acusações que já tinha feito, de que Depardieu, entre gritos, se queixou de não conseguir ter uma ereção, por causa do calor, gabou-se de “fazer as mulheres terem orgasmos sem lhes tocar” e, mais tarde, agarrou-a “com brutalidade”, ao mesmo tempo que fazia “comentários obscenos”.

Amelié lembrou-se perante os juízes de ter discutido a cenografia do filme junto a Depardieu e a procura por guarda-sóis dos anos 70 para o restante das filmagens no sul da França. “Então, ele fechou as pernas e agarrou a minha cintura”, descreveu Amélie, recordando a “força” do ator, “o seu rosto grande”, “os seus olhos vermelhos, muito excitados” e as palavras “vem e toca no meu grande guarda-sol. Vou enfiá-lo na tua c**a!”

Tal como esta quarta-feira, Depardieu ofereceu uma versão distinta do acontecimento. Descrevendo o episódio como uma forte discussão sobre o cenário do filme, o ator reconheceu que apenas agarrou a sua cintura “para não escorregar”, porque estava muito irritado com o seu trabalho.

O julgamento iniciado esta semana esteve agendado para o outono, mas foi adiado por razões médicas. O ator foi declarado apto para ser julgado, mas o juiz presidente explicou que as audiências não deveriam exceder as seis horas, com um lanche para Depardieu após três horas, acesso privado a uma casa de banho e oportunidade de verificar o seu nível de açúcar no sangue.

Gérard Depardieu já foi acusado de agressão sexual e abuso por cerca de vinte mulheres, mas vários processos prescreveram.

Presente nestas sessões no tribunal, a atriz Charlotte Arnould foi a primeira a apresentar queixa do ator, em 2018. Entretanto, em agosto passado, o Ministério Público de Paris requereu o julgamento do ator por violação, mas o juiz de instrução encarregado do caso ainda não decidiu o desfecho.

“Nunca, nunca abusei de uma mulher”, garantiu o ator numa carta aberta publicada no jornal Le Figaro em outubro de 2023. Dois meses depois, o Presidente francês, Emmanuel Macron, causou polémica ao elogiar o “grande ator” que “deixa França orgulhosa”, denunciando “uma caça ao homem”.

Premiado com um César de Melhor Ator em 1981 pelo desempenho em “O Último Metro”, de François Truffaut, e em 1991 por “Cyrano de Bergerac”, de Jean-Paul Rappeneau, Gérard Depardieu foi durante várias décadas o ator de referência do cinema francês.