Todos sabiam que a relação entre Fernando Gomes e Pedro Proença não era a melhor. Nenhum admitia em termos públicos, surgia como dado adquirido nos bastidores para ambos. No entanto, cada um ia fazendo o seu caminho. O antigo líder da Liga Portugal consumou um caminho trilhado ao longo de dois anos, chegou às eleições frente a Nuno Lobo e ganhou com claros 75% o sufrágio pela presidência da Federação. O antigo líder da Federação confirmou uma ideia que ganhou forma nos últimos meses, foi a eleições com Laurentino Dias e venceu com 57% a sucessão a José Manuel Constantino (e a Artur Lopes, que ficara no cargo de forma interina) no Comité Olímpico de Portugal. Cada um seguia o seu caminho mas os caminhos cruzaram-se.

Se a semana passada ficou marcada pela imagem de Luís Neves, diretor nacional da PJ, a falar aos jornalistas antes da cerimónia de tomada de posse dos novos órgãos sociais do COP, deixando Fernando Gomes de parte de todas as investigações feitas no âmbito da Operação Mais Valia, esta semana prometia ser pautada por uma outra imagem que começou a circular através do WhatsApp ainda na tarde de sábado. Uma imagem com a indicação de “Reencaminhada muitas vezes”, com uma carta de seis parágrafos, que tinha o quinto e penúltimo sublinhado a amarelo. “Sem comentários”, começou-se por dizer, quase colocando em causa a veracidade da mesma. Era mesmo real. E foi assim que o futebol português ganhou outro “caso”.

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“Caro presidente,

Foi com uma grande surpresa que tomei conhecimento de uma carta enviada pelo presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, no qual o meu nome é mencionado sem qualquer consentimento prévio ou sequer informação.

Você conhece há muitos anos a minha maneira de ser e também os valores pelos quais fui agindo em todas as instituições que fui representando.

Sempre me esforcei para ser uma fonte de consensos e para tornar mais fortes as relações entre as federações em geral e especialmente as federações europeias.

Sempre defendi a importância de ter pessoas das nossas federações em posições que permitissem um desenvolvimento global do desporto, incluindo o futebol. Por essa razão, e considerando também a realidade eleitoral que a Federação Portuguesa de Futebol estava a viver, Pedro Proença, então presidente da Liga Portugal (uma pessoa que, apesar dos resultados eleitorais, teria sempre uma posição executiva na FPF), foi nomeado. Contudo, tenho de dizer que hoje percebi que não partilhamos uma visão comum do futebol e do desporto.

Pedro Proença escolheu um caminho de destruição do legado que a minha equipa e eu construímos ao longo de 13 anos, com decisões e insinuações públicas com o objetivo de atacar o nosso bom nome e que, como será mostrado, não têm qualquer fundamento.

Quero aproveitar esta oportunidade para informá-lo que na última terça-feira tomei posse como presidente do Comité Olímpico de Portugal e que estarei em Belgrado no Congresso da UEFA da próxima semana, onde terei por certo a oportunidade para falar contigo pessoalmente

Com os meus melhores votos,

Fernando Gomes”

A imagem da carta de Fernando Gomes para todos os presidentes de federações que começou a circular ao final da tarde de sábado (D.R.)

A tal imagem que inicialmente ninguém queria assumir como verdadeira por todo o impacto que teria no seio do futebol nacional não tinha data nem destinatário mas percebia-se que era para todos os líderes das federações com voto e que fora enviada entre quarta e sexta-feira. Caiu como uma “bomba” na FPF.

Já começava a haver uma espécie de “elefante na sala” nos primeiros dias de Pedro Proença como líder da Federação, com suspensão preventiva de funções de quatro diretores na sequência da alegada falta de respostas dada na reunião de urgência marcada depois de rebentar o caso da Operação Mais Valia: Nuno Moura do marketing, Paulo Ferreira da parte dos financeiros, Rita Galvão dos recursos humanos e Rute Soares da integridade e compliance. Houve a reunião, foram instaurados processos de averiguações, seguiu-se a suspensão preventiva. Ainda assim, Proença deixou uma mensagem de tranquilidade aos funcionários.

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“Quero transmitir-vos, antes de mais, uma palavra de serenidade e dizer-vos que estou certo de que esta situação não representará motivo de qualquer perturbação das tarefas que cada um de nós tem pela frente, nem dos desafios que, juntos, enfrentaremos e venceremos. Ao fim de 30 dias de exercício desta nova Direção, período que nos permitiu adquirir um conhecimento mais próximo e profundo dos procedimentos vigentes na Federação Portuguesa de Futebol, promovemos o início de um processo de auditoria para que a avaliação fosse precisa e refletisse, de forma exata, a realidade com que partimos para um novo caminho. Não ignoro, contudo, que as matérias que estão na origem das referidas buscas colocam em causa o bom nome desta instituição”, apontou num email enviado a todos os funcionários, onde ainda detalhava uma série de medidas que iriam ser colocadas em prática por “uma FPF cada vez mais forte”.

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1. Extensão ao mandato 2016-2020 da Auditoria que já decorre, desde 17 de março, referente aos anos entre 2020-2024, que permita uma análise minuciosa e aprofundada, sobretudo nas áreas críticas que envolvem pagamento de comissões, prestações de serviços e procedimentos na área de recursos humanos, por forma a apurar eventuais responsabilidades civis ou criminais.

2. Implementação imediata de processo de averiguação interna aos procedimentos administrativos de todos os departamentos da Federação Portuguesa de Futebol;

3. Aceitação, com efeito imediato, do pedido de revogação de contrato do prestador de serviços Paulo Lourenço.

4. Reforço das políticas de compliance e dos mecanismos de escrutínio da idoneidade de todos membros dos Órgãos Sociais, funcionários e colaboradores da Federação Portuguesa de Futebol;

5. Implementação de certificação nas normas internacionais: ISO 9001 (qualidade), ISO 27001 (segurança da informação) e ISO 37001 (anticorrupção);

6. Promoção da criação de um Comité de Ética (proposta de alteração dos estatutos);

7. Constituição da FPF como assistente em todos os processos de natureza criminal em curso em que estejam em causa prejuízos para a FPF;

8. Interposição de ações judiciais contra quaisquer pessoas e entidades que venham a ser responsabilizadas por danos causados à Federação Portuguesa de Futebol.

A carta de Fernando Gomes aos líderes federativos chegou neste contexto, com Pedro Proença a tomar conhecimento da mesma, a analisar o seu conteúdo e a enviar depois uma mensagem por WhatsApp a dezenas e dezenas de clubes, delegados e sócios onde anexava essa imagem com o tal penúltimo parágrafo sublinhado. Foi marcada uma reunião de urgência para a manhã desta segunda-feira, dia em que se vai assinalar o 111.º aniversário da Federação Portuguesa de Futebol, mas já aí ficavam “pistas” sobre o que ia estar em causa, nomeadamente as eleições para o Comité Executivo da UEFA na próxima quinta-feira, bem como projetos de maior envergadura como a organização do Mundial de 2030 (e outras corridas em vigor).

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Ainda este domingo, começaram a surgir as primeiras reações de clubes e classes, todas com o ponto comum de criticarem a postura de Fernando Gomes neste processo tendo em conta um “bem maior”.

“O Sporting considera fundamental que Portugal mantenha uma voz ativa e influente nos órgãos de decisão do futebol europeu. Uma eventual perda de representação portuguesa no Comité Executivo da UEFA poderá comprometer a defesa dos interesses do futebol, fragilizando a posição de Portugal nas grandes decisões estratégicas do futebol europeu e mundial. É necessária estabilidade, bom senso e responsabilidade na gestão do futebol nacional, para que o país continue a ser um interlocutor respeitado e relevante no panorama internacional”, referiram os leões em comunicado conhecido na tarde deste domingo.

“O FC Porto vem manifestar a sua séria preocupação com os elementos tornados públicos no contexto da candidatura ao Comité Executivo da UEFA do atual presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença. É absolutamente fundamental que Portugal se mantenha representado nas mais altas instâncias reguladoras do futebol internacional (incluindo na UEFA), por forma a assegurar a proteção dos interesses do futebol português a nível europeu e mundial. É por isso imperioso que se esclareçam os factos relativos a este grave incidente para que episódios semelhantes não se repitam no futuro e para que se restabeleça, de forma prioritária, a cordialidade e a normalidade no relacionamento institucional entre as entidades que regem o desporto em Portugal”, apontou o FC Porto também em comunicado, numa reação que foi acompanhada por mais posições públicas de Sp. Braga, Famalicão, Arouca, Liga Portugal ou APAF.

Houve pequenos capítulos nos últimos dias que não passaram ao lado. Por exemplo, e enquanto Gomes ia tomando posse como presidente do Comité Olímpico numa cerimónia no CCB, Proença estava na Cidade do Futebol a acompanhar todas as diligências da Operação Mais Valia. Uns dias depois, e na homenagem feita ao antigo líder da Federação pela cidade de Oeiras com a inauguração da Alameda Dr. Fernando Gomes, foi Toni, atual vice-presidente do órgão, que representou a FPF. No entanto, e como explicam ao Observador, a relação entre ambos é há muito pior do que se pensava, sendo que tudo isso eram “meras evidências de algo óbvio”. Agora, a bola passava para Pedro Proença e respetivo elenco, que começou a chegar cedo às instalações da Cidade do Futebol para um dia longo que vai terminar com a celebração do 111.º aniversário.

“O futebol português vive momentos absolutamente vitais para o seu futuro, com as eleições para o Comité Executivo da UEFA, marcadas para o dia 3 de abril. A importância de ter um representante português neste órgão, por todos reconhecida, tendo em conta os diversos projetos que se avizinham, nomeadamente a candidatura à organização do Campeonato da Europa Feminino em 2029 e a organização conjunta com Espanha e Marrocos do Campeonato do Mundo, não pode ser colocada em causa. Deve, antes, ser promovida e defendida por todos os agentes e entidades do Desporto Português”, frisou em comunicado.

“A FPF empenhou-se de forma ativa e comprometida nesta eleição, depositando neste processo todas as energias dos recursos envolvidos e com real perspetiva de sucesso, após a formalização do nome de Pedro Proença como candidato a este cargo, ainda na vigência do mandato da anterior Direção. O país viu-se confrontado, contudo, com uma tomada de posição por parte do Presidente do Comité Olímpico de Portugal, informando as 55 federações que constituem o caderno eleitoral da UEFA de que não apoiará a candidatura nacional que, repita-se, o próprio propôs e formalizou em fevereiro”, apontou.

[Já saiu o terceiro episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]

“Neste contexto, o interesse nacional e a própria eleição do candidato nacional neste processo eleitoral fica seriamente comprometida pelo impacto que a posição assumida pelo senhor presidente do Comité Olímpico de Portugal infligiu na credibilidade das mais relevantes instituições desportivas nacionais, que dificilmente será reversível em tempo útil”, prosseguiu o mesmo comunicado, antes de destacar as três medidas tomadas perante todo o enredo que foi ganhando forma nos últimos dias.

– Registar com apreço as manifestações públicas de apoio dos diversos agentes do Futebol Português, num sinal da agregação em torno do projeto apresentado e sufragado por esta Direção, unindo o Futebol Português.
– Pedir audiência com caráter de urgência ao Governo para avaliação dos impactos face aos compromissos assumidos, nomeadamente, a candidatura à organização do Europeu Feminino 2029 e a organização do Campeonato do Mundo 2030;
– Enviar uma exposição ao Conselho de Ética do COP para avaliação da atuação do Presidente do Comité Olímpico de Portugal.

“É o típico militar, o típico comandante, focado em cumprir a missão.” Pedro Proença, o “Gritos” chegou à cadeira de sonho

“Não obstante ser claro para o país desportivo que a representação nacional no Comité Executivo da UEFA pode estar claramente em causa, a Federação Portuguesa de Futebol mantém ativos os esforços para conseguir atingir o objetivo inicial. Neste momento, confrontados com desafios absolutamente determinantes para o futuro do futebol português, a FPF reafirma o seu compromisso com a estabilidade, lutando sempre de forma transparente pelos interesses de Portugal no contexto internacional e pugnando pelas boas relações com todas as instituições relevantes no universo desportivo, estando esta Direção ciente de que tudo aquilo que tem feito deste que tomou posse é cumprir o Plano Programático que apresentou, focada apenas no futuro e nunca colocando em causa o legado da Federação”, concluiu o comunicado.

Do “Gomes do basquetebol” a ser o único a liderar Liga, FPF e COP: como Fernando Gomes fez bingo no desporto nacional

Próximos capítulos? Por um lado, a possibilidade ou não de Fernando Gomes tomar uma posição pública em relação à carta enviada às 55 federações nacionais e às considerações emitidas esta segunda-feira pela FPF. Por outro, a própria votação do Comité Executivo da UEFA, que poderá (ou não) ver Pedro Proença em risco de ser eleito depois da novela. Tudo no dia em que a Federação Portuguesa de Futebol assinala o seu 111.º aniversário, numa cerimónia que terá pela primeira vez Pedro Proença como líder do órgão.