As autoridades do Paraguai extraditaram dois homens, acusados de tráfico de droga e participação em crime organizado, para o Brasil, apesar das tensões existentes entre os dois países em virtude de um alegado caso de espionagem.
O Ministério Público (MP) paraguaio disse no sábado que os dois homens, um brasileiro e um paraguaio, “foram investigados por alegado tráfico de substâncias ilícitas e participação ativa numa rede criminosa que opera na região”.
O brasileiro estava detido permaneceu na Penitenciária Regional de Coronel Oviedo, no departamento de Caaguazú (centro-leste) e o paraguaio estava na cadeia de Concepción (norte), disse o MP, em comunicado. O comunicado detalha que o paraguaio “era procurado pela 17.ª Subsecção Judiciária de São Paulo, pela Justiça Federal e pelo Juizado Especial Federal Adjunto de Jaú” para cumprir uma pena de 17 anos e 3 meses de prisão por tráfico de droga.
A extradição aconteceu numa altura de tensões entre os dois países, depois de uma investigação do portal de notícias brasileiro UOL ter revelado um alegado caso de espionagem a sistemas do Governo paraguaio. Na segunda-feira, o UOL disse que um ataque informático permitiu o acesso aos computadores de “cinco ou seis” altos funcionários paraguaios, todos eles diretamente envolvidos nas negociações com o Brasil sobre a hidroelétrica de Itaipu.
Dessa forma, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) obteve os valores que o Paraguai pretendia propor nas negociações tarifárias, bem como informações sobre a sua posição em relação ao Anexo C do tratado de Itaipu. O Anexo C do tratado da hidroelétrica, assinado em 1973, obriga o Paraguai a vender ao Brasil o excedente da sua quota de energia produzida em Itaipu a preços preferenciais.
Em 2024, os dois países concordaram em elevar as tarifas pagas pelo Brasil para os próximos três anos. E, ao mesmo tempo, assinaram um instrumento de entendimento para modificar o Anexo C. A revisão permitiria ao Paraguai vender livremente a sua energia excedente ao mercado brasileiro, regulado ou não regulado. O acordo deveria ser assinado em 30 de maio, anunciou a presidência paraguaia em março.
Na segunda-feira, o Governo brasileiro desmentiu “categoricamente qualquer envolvimento em ação de inteligência” e frisou que a “citada operação foi autorizada pelo governo anterior, em junho de 2022, e tornada sem efeito pelo diretor interino da Abin em 27 de março de 2023, tão logo a atual gestão tomou conhecimento do fato”.
Em resposta, na terça-feira o Paraguai suspendeu indefinidamente “todas as negociações” sobre o Anexo C “até que o Brasil preste os esclarecimentos correspondentes à sua satisfação”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros de Assunção, Rubén Ramírez.