Após o debate caótico de há um ano, Rui Tavares procurou não cometer os mesmos erros e deixar André Ventura a falar quase sempre sozinho, para desespero do adversário. O líder do Chega estava preparado para atacar o Livre com temas que vão diretamente ao diretamente ao bolso das pessoas, das portagens aos combustíveis, e para colar Rui Tavares aos partidos que diz que contribuíram para o “caos completo” na imigração.
O debate tinha começado há uns segundos e já Ventura desviava a pergunta, sobre a saúde, para o tema da imigração, à boleia dos números da AIMA conhecidos esta terça-feira e que dão conta de que os imigrantes em Portugal já ultrapassam 1,5 milhões. Numa espécie de “eu avisei”, o líder do Chega alertou que Portugal está “a caminho dos 20% de população imigrante” — sendo que atualmente estará nos 14,5%. Com Rui Tavares à sua frente, não esperou para tentar capitalizar com o tema: “Isto deve-se a partidos como o Livre”, acusou, frisando que o Livre “patrocinou políticas” que levaram ao “caos completo” na imigração, nomeadamente no chamado turismo de saúde.
“Não podemos continuar a ter indianos, paquistaneses e marroquinos a virem para cá tratar-se ou ter filhos”, atirou André Ventura, defendendo que são os portugueses que têm de ter “acesso privilegiado” à saúde. Em reação, Rui Tavares considera que seria uma “enorme injustiça” vedar o acesso ao SNS dos imigrantes. No que toca ao SNS, o porta-voz do Livre argumentou que os privados “não são complementares” e concorrem ao nível dos pacientes e dos profissionais de saúde, frisando que o “SNS está a lutar com uma venda nos olhos e a mão atada atrás das costas”. Ventura ainda voltou a atacar Rui Tavares, ao dizer que “quer um SNS que tenha um bar aberto” e reforçando a proposta do Chega que só deve beneficiar quem tem cinco anos de descontos.
Questionado sobre o IVA zero no cabaz de bens alimentares (proposta do PS), Ventura recordou que foi uma proposta do Chega, aproveitando para acusar o partido liderado por Pedro Nuno Santos de ser “irresponsável e eleitoralista“, justificando que copiou a proposta que havia chumbado no passado. Pelo caminho, acusou Tavares de ser contra o fim das portagens e a descida dos impostos nos combustíveis.
Rui Tavares foi recusando entrar no bate-boca com André Ventura e justificou que “para desmontar cada mentira de André Ventura, não fazia outra coisa neste debate”. Entretanto, apelou aos portugueses que denunciem as mentiras de todos os líderes partidários, admitindo que será muito mais fácil encontrar falsidades de Ventura do que suas, e recordou que o líder do Chega anda a pedir uma “oportunidade“, mas teve “50”, referindo-se à bancada conquistada nas últimas legislativas e sugerindo que uma subida do Livre e uma descida do Chega será uma “boa notícia para a democracia”.
O presidente do Chega acabou a justificar-se sobre o trabalho feito no último ano pelo partido, dando como exemplo ter conseguido “acabar com portagens em várias zonas do país”, “pôr o IRS Jovem diferente do que a AD queria” e “para obrigar o Governo para mudar uma série de políticas em matérias de imigração”, e apontando contra o Livre para dizer que “votar no Livre é votar no PCP e BE“.
No que toca à política internacional, Ventura acrescentou ainda que a decisão de Donald Trump sobre as tarifas “protegeu o seu mercado“, realçando que a Europa deve fazer o mesmo: “O que Donald Trump está a fazer nos EUA é o que temos de fazer na Europa, proteger os nossos trabalhadores e empresa.”
Rui Tavares considera que “a grande questão da NATO hoje é saída dos EUA”, Ventura questionou-o se tem a “verticalidade” para dizer se quer ou não sair da NATO, o porta-voz do Livre acredita que a questão é mesmo “se Trump sai ou não”.
No final do debate, a fazer lembrar o debate passado, uma troca de acusações entre os dois. Rui Tavares cola André Ventura a Viktor Orbán, Donald Trump, Jair Bolsoanaro Elon Musk e Marine Le Pen; Ventura responde com os amigos do Irão, do Hamas ou o George Soros. “Vocês já entraram no delírio”, atirou o porta-voz do Livre.
O diálogo revelador
André Ventura: Nós temos aqui um candidato que é de uma irresponsabilidade absoluta. Que nos diz que se tivermos um problema de defesa podemos prescindir dos Estados Unidos da América. Então eu gostava de perguntar ao Rui Tavares quem nos vai defender.
Rui Tavares: É na verdade uma resposta muito simples, se se eu a puder dar.
André Ventura: Ficou [aqui patente] a irresponsabilidade do Rui Tavares a dizer que vamos sair da NATO, se prescindir dos EUA e eu gostava de perguntar quem é que nos defende. Se é a China, se é a Índia, se são os seus amigos do Irão, da Venezuela, os que o financiam do George Soros.
Rui Tavares: A Dinamarca faz parte da NATO e Donald Trump quer ficar com um pedaço da Dinamarca, que é a Gronelândia. É nesta situação que os amigos de Ventura nos puseram.
André Ventura: Eu não lhe perguntei isso…
Rui Tavares: Um dia que Trump se lembre que os Açores existem e se lembre que quer os Açores, aí, o que é André Ventura vai fazer? Vai correr outra vez para Washington para entrar na festa de inauguração de Trump? Ou vai contar com a Europa que tem duas potências nucleares que são a França e o Reino Unido?
André Ventura: [Digo-lhe] olhos nos olhos, Rui Tavares. Isso é uma irresponsabilidade e está a pôr o país nas mãos da China e da extrema-esquerda.