“Hoje para mim é um dia de enorme satisfação.” Emanuel Carvalho Dias, urologista da Unidade Local de Saúde de Braga, está prestes a ser o primeiro cirurgião do hospital a realizar uma cirurgia robótica. A manhã, que já vai agitada pelos corredores, traz, ainda assim, alguns nervos à mistura. “Claro que há algum nervosismo, mas isso é habitual sempre que se vai iniciar procedimentos novos, embora a gente esteja bem formada e bem preparada para fazer isto”, confessa Emanuel Carvalho Dias ao Observador.

As formações, conta, começaram em janeiro com um “programa com simuladores fora dos doentes onde treinamos toda a parte técnica da máquina e treinamos as habilidades que temos de ter para a manusear. Depois de várias horas de simulador, passamos para modelos animais e, por fim, fizemos a certificação”. Mas o caminho até aqui chegar começa ainda antes dessa fase. “Desde há quatro anos que o serviço de Urologia, eu e o hospital, lutamos para adquirir um robô. Foram quatro anos muito longos, mas finalmente conseguimos”, admite o cirurgião.

GONÇALO DELGADO/OBSERVADOR

Os cirurgiões da ULS Braga não escondiam a curiosidade em relação à primeira cirurgia robótica da unidade de saúde

Chegou o dia e o burburinho pelos corredores comprova que há muita expectativa e curiosidade. Por entre alguns cumprimentos ao cirurgião e a toda a equipa que se prepara para entrar, há quem fique pelas pequenas janelas do bloco operatório a “guardar lugar” para ver um passo histórico no hospital. Lá dentro, está já a estrela do procedimento: o robô. De grandes dimensões e com vários “braços”, também ele tem de se “vestir” para a operação. Para isso, alguns técnicos vão colocando uma espécie de mangas transparentes, meticulosamente. Mas este robô, que está no centro da sala, não é a única máquina que chama à atenção. Mais ao canto, a alguns metros da maca onde o doente estará deitado durante a operação, está o local onde Emanuel Carvalho Dias se vai instalar. O aparelho, também aparatoso, faz lembrar uma consola. Tem dois comandos para ir coordenando com as mãos, juntamente com uns binóculos que permitem observar ao milímetro e em tempo real o que se vai fazendo com auxílio do robô.

A tecnologia que os cirurgiões querem usar para “operar doentes fora do planeta Terra”

De fora, pode até parecer que o robô está a operar sozinho, mas esse não é o caso. “O robô não opera de forma automática. Apenas obedece a comandos que um cirurgião faz numa consola onde está sentado e longe do doente”, clarifica Emanuel Carvalho Dias. A ideia é que, mesmo à distância, o cirurgião consiga operar o doente — ali são poucos metros, mas, por hipótese, um cirurgião em Braga pode estar a operar um doente que está numa sala de cirurgia a milhares de quilómetros. “Na realidade, este é um conceito telecirurgia — que é no fundo fazer uma cirurgia à distância. Aqui, aquilo que acontece é que há um robô que está acoplado ao doente e que vai mimetizar os gestos que o cirurgião faz fora do doente. Este género de cirurgia nasceu com o objetivo de se poder operar doentes à distância. Poder-se operar doentes fora do planeta Terra, poder-se operar doentes em campos de batalha onde o cirurgião estivesse longe”, explica. Assim, e desde que haja “boa ligação à internet”, é possível realizar o procedimento quer a “dois metros de distância, 100 km ou até mil”, ilustra o urologista.

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O cirurgião manuseia os comandos de uma consola instalada ao canto da sala de cirurgias, a alguns metros de distância do doente que está a ser operado

Para esta estreia, quer o robô quer o cirurgião estão no mesmo espaço. A sala está mais cheia que o habitual para uma prostatectomia radical — extração total da próstata para doentes que têm cancro da próstata. A técnica usada é semelhante às laparoscopias (técnica cirúrgica mini-invasiva que permite fazer procedimentos cirúrgicos na cavidade abdominal e pélvica) habitualmente realizadas nesta área, contudo há duas diferenças evidentes. “Nós temos muita experiência em laparoscopia, mas em termos e precisão e capacidade de visualização das estruturas é muito diferente. Isso vai permitir essencialmente dois aspetos: primeiro que se preserve melhor a continência urinária dos doentes e em segundo lugar que a possibilidade de preservar a ereção nesta cirurgia, que era um dos principais problemas da prostectomia radical, seja otimizada”, explica Emanuel Carvalho Dias.

Durante o procedimento, e enquanto o cirurgião vai tomando as rédeas do robô, os vários olhos no bloco vão olhando atentamente para os dois ecrãs que mostram tudo o que está a acontecer. Duas horas e meia depois terminou com sucesso a primeira cirurgia robótica da Unidade Local de Saúde de Braga. No final, Emanuel Carvalho Dias explica que “correu tudo bem, conforme planeado”. “A principal diferença que noto é na imagem. A imagem é fantástica e depois a facilidade em chegar à próstata e de dissecar as estruturas que estão à volta, porque como os instrumentos são articulados e como a imagem é muito ampliada permite ter uma qualidade de visão e uma qualidade de trabalho em termos cirúrgicos que não se conseguia com laparoscopia”, reitera o urologista. Agora, resta continuar a usar o novo robô para que se possam “habituar e evoluir”.

Unidade Local de Saúde de Braga já tem robô que vai ajudar nas cirurgias

Dois milhões para o robô. E 100 mil todos os anos em manutenção

Este robô resulta de um investimento de mais de dois milhões de euros. Todavia, não é um valor isolado. Anualmente, o aparelho precisa de uma manutenção que ronda mais de 100 mil euros, aliado ainda a um investimento de alguns milhares de euros em materiais consumíveis a cada procedimento cirúrgico. Emanuel Carvalho Dias reconhece que é uma “cirurgia cara”, mas que vai trazer melhores resultados aos doentes. “Isto representa um investimento muito grande e um investimento feito pelo Estado português e pela população portuguesa e estamos ávidos por poder retribuir às pessoas o investimento que fizeram e poder proporcionar em termos cirúrgicos cuidados ótimos”, sublinha.

A escolha da área clínica da urologia aconteceu, explica o urologista, porque “historicamente é a especialidade que mais contribuiu para a cirurgia robótica, porque tem esta cirurgia — prostectomia radical — em que a próstata é um órgão que está anatomicamente muito escondido. É de difícil acesso para cirurgia aberta, para laparoscopia nem tanto e para cirurgia robótica facilita muito mais”, remata o urologista.

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“Como os instrumentos são articulados e como a imagem é muito ampliada permite ter uma qualidade de visão e uma qualidade de trabalho em termos cirúrgicos que não se conseguia com laparoscopia”, explica o cirurgião Emanuel Carvalho Dias

Mesmo com a estreia do novo procedimento, o hospital está já de olhos postos no futuro. A diretora clínica hospitalar da ULS de Braga, Paula Felgueiras, adianta que existem intenções de expandir a “inovação tecnológica” a outras áreas clínicas. “No fundo, todas as cirurgias, todas as especialidades cirúrgicas vão caminhar nesse sentido e os médicos estão a receber formação para poderem estar preparados para esta inovação tecnológica. Mesmo em termos de urologia vai ser alargado a outras patologias”, adianta. Neste momento, há pelo menos seis médicos aptos para operar com o robô, na ULS de Braga. Ainda assim, o objetivo, salienta Paula Felgueiras, é mesmo que as formações “se estendam a toda a equipa e todos os cirurgiões”, para que todos possam estar “capacitados a executar esta nova técnica cirúrgica”.

A cirurgia robótica tem vindo a aumentar em Portugal. De acordo com a ABEX e a Excelência Robótica, empresas distribuidoras do sistema robótico de cirurgia da Vinci em Espanha e Portugal, no ano passado estas cirurgias aumentaram em 25%, face ao período homólogo, o que se traduziu numa faturação de mais de 150 milhões de euros. Ainda de acordo com estes valores, só em Portugal já terão sido efetuadas cerca de 3 mil cirurgias.