Nicolas Puech, trineto do fundador da Hermès, está a ser processado pelo Emir do Qatar por não cumprir a promessa de vender as suas ações na marca de luxo. A queixa, à qual o New York Times teve acesso, diz que Puech terá cerca de 5% de participação na gigante francesa de moda e concordou em vender mais de seis milhões de ações, negociadas a cerca de 240 euros cada. Entretanto, o herdeiro da Hermès de 83 anos terá atrasado a conclusão do negócio por duas vezes e agora alega estar “impossibilitado” de aceder aos ativos.
O caso foi apresentado num tribunal federal de Columbia, nos Estados Unidos da América, e estava inicialmente público mas agora segue em sigilo, a pedido da família real do Qatar. No processo, a empresa Honor America Capital, formada em fevereiro em Washington pelo Emir, pede que o tribunal ordene que Puech cumpra a sua promessa, além de reclamar uma indemnização de pouco mais de mil milhões de euros por “lucros perdidos, custos de oportunidade e danos à reputação”.
O processo, de acordo com o NYT, mostra que o acordo foi discutido ao longo de vários meses e assinado a 10 de fevereiro. Num dos documentos anexos ao caso, o representante da família real do Qatar manda uma mensagem ao advogado de Puech na Suíça: “Confirmamos que está assegurado o compromisso do financiamento total da Sua Alteza Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani, Emir do Estado do Qatar”, para fechar o negócio. Entretanto, Puech terá atrasado duas vezes a transferência das ações. Numa das cartas enviadas pelo advogado de Puech lê-se que “apesar dos esforços repetidos, o cliente está impossibilitado” de ter acesso às suas ações e que seria “fútil” acertar outra data para a conclusão do negócio.
O mistério da fortuna de Puech
Este caso vem a público algumas semanas depois de a imprensa francesa voltar a levantar dúvidas sobre a posse e o paradeiro da fortuna de Puech. Em 2023 o herdeiro da Hermès tentou adotar o seu jardineiro, na altura com 51 anos, alegadamente para que este pudesse receber parte da sua herança, que se acreditava ser de mais de 10 mil milhões de euros. Já em julho de 2024 soube-se de um processo judicial na Suíça no qual Puech alegava que o seu antigo administrador financeiro tinha feito a sua fortuna desaparecer. Os advogados do herdeiro da Hermès disseram que Puech não detinha mais as 6 milhões de ações na empresa, que na época representavam 12 mil milhões de euros. Um tribunal de Genebra decidiu, afinal, que não havia evidências de que o conselheiro Eric Freymond havia gerido mal os ativos de Puech ou que o trineto do fundador da Hermès havia sido enganado. Freymond administrou as ações de Puech ao longo de duas décadas. De acordo com os documentos analisados pela Bloomberg, a partir de 1998 Puech deu a Freymond uma série de mandatos assinados para que administrasse as suas contas. Em 2001 as ações começaram a ser vendidas, compradas e transferidas para bancos na Suíça.
No final de março o jornal L’Express publicou que a advogada de Puech apresentou uma queixa por “abuso de confiança” no tribunal de Nanterre, na França. O processo foi adicionado a outra denúncia, de 2015, apresentada pela Hermès contra uma pessoa desconhecida por “falsificação”. Neste caso, Freymond foi colocado na condição de testemunha assistida.
Puech, de 83 anos, é solteiro, não tem filhos e sempre se recusou a ingressar na holding familiar H51, que bloqueou o capital da empresa de moda desde a guerra com a gigante de luxo LVMH em 2014.Detendo 5,7% da empresa, Puech seria o maior acionista inividual da Hermès, empresa que valorizou 200% nos últimos cinco anos e que atualmente pode valer cerca de 260 mil milhões de euros. De acordo com os advogados, a união de Puech e da Hermès neste novo processo judicial mostra que a empresa está convencida de que Puech “foi vítima de um golpe organizado”. Entretanto, a ação também revela que nem a gigante de luxo nem o herdeiro sabem o que realmente aconteceu às 6 milhões de ações.