O reencontro com sabor a vingança. Foi há 133 dias que Sporting e Santa Clara se encontraram em Alvalade, na primeira volta do Campeonato Nacional. Na teoria, parecia mais uma partida normal, das mais de três centenas que compõem a Primeira Liga. Na prática, se olharmos para o que aconteceu nos últimos quatro meses e meio, percebemos rapidamente que foi ali que tudo começou a mudar… e, de certa forma, a descambar. Aquele encontro da 12.ª jornada teve o condão de ser o primeiro de João Pereira, que assumiu o comando técnico depois da saída de Ruben Amorim, e acabou por traduzir-se no primeiro desaire da época em solo nacional, bem como na primeira vitória de sempre dos açorianos em Alvalade (0-1). Desde então, os leões perderam a liderança isolada da Primeira Liga, foram alcançados pelo rival Benfica e, volvida uma volta, entraram este sábado em campo a dois pontos das águias e com margem de erro nula.

Uma volta depois, jogam tudo menos à Patrão e nem ter uma locomotiva chega (a crónica do Sporting-Sp. Braga)

A equipa agora comandada por Rui Borges chegou ao arquipélago dos Açores depois de ter empatado com o Sp. Braga, em casa, num jogo em que esteve a ganhar até bem perto do minuto 90 (1-1). Antes deste encontro era certo que o conjunto verde e branco até já tinha alcançado a tão procurada vingança na partida da Taça de Portugal, em que o Santa Clara voltou a criar dificuldades na casa do leão (2-1), mas também era um dado adquirido que se perspetivava mais um jogo complicado, frente a uma equipa que está a lutar para regressar à Europa. Ainda assim, a equipa de Vasco Matos vinha de uma derrota em casa do V. Guimarães (1-0), que acabou por relançar a luta pelo quinto lugar. Do outro lado, a grande notícia dos últimos dias foi o regresso de Pedro Gonçalves à convocatória, depois de cinco meses de fora.

Ficha de jogo

↓ Mostrar ↑ Esconder

Santa Clara-Sporting, 0-1

29.ª jornada da Primeira Liga

Estádio de São Miguel, em Ponta Delgada

Árbitro: Cláudio Pereira (AF Aveiro)

Santa Clara: Gabriel Batista; Luís Rocha, Sidney Lima, MT; Diogo Calila (Matheusinho, 81’), Daniel Borges (Serginho, 63’), Pedro Ferreira (Ricardinho, 81’), Matheus Pereira (João Costa, 63’); Lucas Soares, Vinícius Lopes (Wendel Silva, 75’) e Gabriel Silva

Suplentes não utilizados: Neneca; Frederico Venâncio, Edney Silva e Gui Ramos

Treinador: Vasco Matos

Sporting: Rui Silva; Eduardo Quaresma (Jeremiah St. Juste, 66’), Ousmane Diomande, Gonçalo Inácio; Iván Fresneda (Geovany Quenda, 66’), Zeno Debast, Morten Hjulmand, Maxi Araújo (Matheus Reis, 87’); Francisco Trincão (Pote, 87’), Viktor Gyökeres e Geny Catamo (Conrad Harder, 77’)

Suplentes não utilizados: Franco Israel; Biel Teixeira, Ricardo Esgaio e Eduardo Felicíssimo

Treinador: Rui Borges

Golos: Geny (50’)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Matheus Pereira (10’), Sidney (25’), Daniel Borges (40’), Quaresma (56’), Hjulmand (82’) e Luís Rocha (83’), vermelho para Harder e Luís Rocha (90+6’)

“Sou um treinador muito confiante. Em três meses e meio é a primeira vez que perdemos a liderança, por isso jamais pensaria de outra forma. Estou otimista, confiante sobre o futuro e a equipa igual. Estou na luta pelo título e só dependemos de nós. Todos os jogadores do Sporting dão conforto. São todos fantásticos no comportamento e compromisso da equipa. As tropas estão reunidas desde os primeiros dias. Os jogadores têm dado uma resposta fantástica. Estão comprometidos com o objetivo, que é sermos campeões. Santa Clara? É um campo difícil. É uma equipa que está a fazer um grande Campeonato, bem organizada, das que menos remates permite e muito agressiva. Tem jogadores muito fortes no último terço. Temos ser muito competitivos e continuarmos a ser aquilo que termos sido para sermos melhores do que o Santa Clara”, assumiu Borges.

“Sabemos da pressão que o Sporting tem em vencer o jogo. Sabemos que esta pressão é grande para o Sporting vencer em Ponta Delgada. Temos de saber lidar com a pressão que está do outro lado. Isso tem muito a ver com aquilo que é o nosso trabalho e em perceber os momentos do jogo. Gyökeres? Sem dúvida que é um jogador chave no Sporting. Obviamente que trabalhámos essa e outras situações. Temos o nosso plano. Temos de nos preparar muito bem e temos de antecipar muita coisa. É o campeão nacional. É uma equipa com muita qualidade. Obviamente, esperamos um jogo difícil. Mudaram algumas coisas em relação àquilo que era o Sporting. Entretanto, já se está a aproximar mais daquela primeira versão”, perspetivou Matos, que não se sentou no banco de suplentes por ter visto o quinto amarelo em Guimarães.

Com os dados lançados, Rui Borges voltou a mexer no onze inicial, com Maxi Araújo e Iván Fresneda a saltarem para os corredores laterais, o que levou Geny Catamo a passar para o lado esquerdo do ataque. Por outro lado, essas modificações resultaram na perda da titularidade para Matheus Reis e Geovany Quenda, que se juntaram ao regressado Pote no banco de suplentes. Nos bravos açorianos, Vasco Matos colocou Sidney Lima, Diogo Calila e Daniel Borges, mantendo o tradicional 3-4-3 ou 5-3-2 no momento defensivo. Frederico Venância e João Saíram do onze para o banco, ao passo que Adriano Firmino saltou diretamente para a bancada, para cumprir suspensão por acumulação de amarelos.

Os leões entraram muito intranquilos na partida, com o Santa Clara a mostrar-se atrevido e a criar muitas dificuldades ao conjunto lisboeta, com o momento de pressão bem definido e trabalhado. As duas primeiras ocasiões de perigo pertenceram mesmo aos açorianos, com Borges a assumir o protagonismo. Numa primeira instância, o médio brasileiro um alivio incompleto de Ousmane Diomande para tentar surpreender Rui Silva de longe, mas a bola saiu ao lado (7′). Quatro minutos depois, Daniel Borges voltou a aparecer com perigo à entrada da área do Sporting, desferindo novo remate para fora (11′).

Os açorianos continuaram por cima na partida e a fechar os espaços a um leão pouco produtivo no ataque, que só apareceu no fim da primeira parte, quando Zeno Debast testou Gabriel Batista de livre (38′). Pouco depois, também de livre, Luís Rocha teve na cabeça a oportunidade de inaugurar o marcador, mas tentou colocar a bola em demasia e o lance perdeu-se nas mãos de Rui Silva (42′). O internacional português lançou de imediato o contra-ataque e a bola acabou nos pés de Francisco Trincão que, depois de ter estado mal na defesa, quase foi feliz, desferindo um remate forte, de longe, que saiu perto do poste esquerdo (43′). Já no tempo de compensação da primeira etapa, Catamo apareceu pela primeira vez no encontro, ao desferir mais um remate de longe que quase surpreendeu Gabriel, mas o guarda-redes venceu a inércia do seu movimento e fez uma grande defesa (45+2′). Assim, os jogadores recolheram aos balneário com o nulo no marcador (0-0).

Na etapa complementar, registou-se uma réplica do primeiro tempo, com o Santa Clara a criar perigo nos primeiros instantes. MT apareceu completamente sozinho nas costas da defesa leonina, mas pecou na finalização, cabeceando ao lado (48′). Com Geny Catamo a pisar terrenos mais centrais e Trincão descaído para o flanco, foi essa mudança de Borges que deu frutos, no lance seguinte. Fresneda subiu no terreno e deixou em Trincão na direita, o internacional português teve espaço para galgar devido a um movimento de Viktor Gyökeres e acabou por isolar Catamo que, perante a saída de Batista, não desperdiçou (50′). Os encarnados reagiram de imediato, com duas aproximações perigosas à baliza de Rui Silva, mas perderam estofo ofensivo.

Já com Serginho e Daniel Borges no ataque, os leões ficar muito perto de dilatarem a vantagem, com Fresneda a servir Gyökeres que, dentro da área, desferiu um remate fortíssimo que embateu em cheio no poste (66′). Rui Borges respondeu com as entradas de Jeremiah St. Juste e Geovany Quenda e, no lance seguinte, Debast voltou a criar perigo de livre, descobrindo Diomande completamente sozinho ao segundo poste para o segundo golo, mas o central estava fora de jogo — de 13 centímetros — aquando do passe e o lance foi anulado (70′). Já com Wendel Silva, em estreia, e Conrad Harder nos respetivos ataques, o jogo continuou dividido, o que levou Vasco Matos a voltar a mexer, para lançar a carne toda no assador: Matheusinho e Ricardinho. Pouco depois, Debast voltou a assumir um livre e atirou para a baliza, obrigando Gabriel Batista a voar (85′).

Nos últimos minutos, o jogo voltou a ficar partido e Matheus Reis e Pote foram as últimas opções a sair do banco, com este último a regressar à competição. No lance seguinte, o Santa Clara voltou a chegar rapidamente à área adversária, mas o cabeceamento de João Costa saiu por cima (89′). Gabriel Silva também tentou, já no tempo de compensação, de muito longe, só que o desfecho do lance foi o mesmo (90+1′). Já depois do apito final e com a vitória leonina sentenciada, Harder e Luís Rocha foram expulsos, por se envolverem numa confusão.