A premissa do novo romance de Hugo Gonçalves é simples e vencedora. Depois de em 2019 ter escrito Filho da Mãe sobre como a morte precoce da mãe afetara a sua vida, Hugo Gonçalves vem agora construir um romance acerca do seu pai, José Capote Gonçalves, que morreu de cancro em 2021 e cujo funeral decorreu duas horas após a ecografia morfológica para aferir se haveria algum problema congénito no primeiro filho do escritor.

Há, portanto, um círculo que se parte no preciso momento em que estava prestes a fechar-se. Se o círculo constituía para os Antigos uma ideia de perfeição, o entrave que, em cima da meta, impede a perfeição parecerá, decerto, uma excelente descrição de literatura. Aliás, no caso concreto deste romance, como o escritor a páginas tantas sublinha, o fenómeno responsável por gerar a vida do seu futuro filho é o mesmo que conduzirá à morte do seu pretérito pai (“As células multiplicam-se para criar uma vida. As células multiplicam-se para acabar com outra” (p.23)).

Ora, se desde cedo Hugo Gonçalves esclarece que há algum tempo cortara comunicações com o pai moribundo, desde cedo a bisbilhotice do leitor é lançada em busca dos motivos para uma rutura tão acentuada que nem a morte iminente de José é capaz de atenuar. Contudo, numa demonstração de domínio do seu ofício, Hugo Gonçalves criará várias vezes a ilusão (sem que, no entanto, o truque se torne repetitivo) de que em breve explicará os motivos para tão tremenda zanga, oferecendo migalhas dessa grande razão, ao mesmo tempo que sugere que os motivos reais nunca serão desvendados, remetendo assim o leitor para um lugar voyeurístico. Aliás, Hugo Gonçalves a certa altura falará explicitamente da decisão de omitir os emails ofensivos que o pai lhe enviara, apresentando para isso não razões, mas perguntas (“Por vergonha? Porque ele não se pode defender? Porque isto não é um ajuste de contas?”), o que se revela mais uma vez condicente com a ideia de imperfeição e de hesitação em que a atividade literária assenta.

No entanto, as razões que o escritor apresenta para esta rutura, não sendo suficientes para compreender por inteiro a amargura de pai e filho, bastam para que tenhamos uma noção clara da dimensão do muro que se erguera entre Hugo e José.


Título: “Filho do Pai”
Autor: Hugo Gonçalves
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 248

Aliás, em certo sentido, é possível encontrar semelhanças entre a relação de Hugo Gonçalves e o seu pai e a relação de Jean-Jacques Rousseau e o seu pai, após a morte da mãe de ambos os autores. Nas suas Confissões, Rousseau conta que o luto do pai fez com que este o acarinhasse como já não podia acarinhar a mulher. Se o pai de Rousseau parece ver o filho como a mulher perdida, o luto de José Capote Gonçalves parece em muitos momentos remetê-lo para o lugar de filho da mãe perdida, transformando, portanto, Hugo ora num irmão ora num pai de José, que cobrava excessivamente os sacrifícios feitos em nome dos filhos. Noutras alturas, contudo, José também protesta com os filhos sempre que estes se procuram autonomizar, por imaginar que, ao fazerem-no, se preparam para o deixar, tal como a mulher o deixara ao entrar nessa noite escura. Com efeito, à semelhança de muitos pais da sua geração, José faz enormes esforços para oferecer aos filhos uma vida melhor do que aquela que lhe calhara em sorte, mas sempre que isso acontece manifesta um certo ressentimento, por, na sua cabeça, os filhos ascenderem agora a uma condição percebida por José como superior à sua.

Ora, se encontramos ligeiras semelhanças entre a posição ocupada por Hugo neste romance e a posição descrita por Rousseau nas suas Confissões, é ainda mais interessante comparar este filho do pai à menina Vinteuil, personagem secundária do primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido. No romance de Proust, a menina Vinteuil, filha do organista de Combray, procura de todas as formas superar a dor do luto afastando-se o mais possível do pai morto. No entanto, tal como acontece com o protagonista de Filho do Pai, “no momento em que ela se queria tão diferente do pai, o que ela me recordava eram as maneiras de pensar, de dizer, do velho professor de piano”. Tal como esta jovem órfã, por mais que Hugo se queira afastar de José, não acontece outra coisa no romance que não a sistemática reprodução dos padrões de José na vida de Hugo, seja através da maneira violenta de lidar com a frustração (veja-se a propósito disto a semelhança entre o episódio da final do Euro 2016 e a cena entre José e o padre Miguel), seja na dicotomia que define ambos entre força e sensibilidade, seja na fuga constante — do pai primeiro para França, depois para Lisboa e depois para casa da terceira mulher, e do filho para Nova York, Rio de Janeiro e Madrid. E não deixa de ser curioso que esse movimento aconteça em ambas as direções, já que, no fim da vida, também José pretende transformar-se no filho, escrevendo um manuscrito que entrega a Hugo e que mais tarde seria depois reciclado neste romance.

No entanto, o romance revela um problema estrutural, que brota precisamente das convulsões acima descritas. Em muitos momentos, Hugo Gonçalves parece hesitar entre escrever um romance, um ensaio literário ou um artigo sociológico sobre violência e masculinidade, sendo que a sociologia e a crítica literária tão depressa são convocadas como abandonadas, levando a que sejam pouco mais do que citações caídas de pára-quedas, pouco acrescentando ao que já fora dito através da voz do escritor. Ora, se, na arquitetura formal do romance isso não resulta, por outro lado, vem acrescentar e dar razão à descrição que Hugo faz de si mesmo e da relação com o seu pai, uma vez que, por conta de todas estas turbulências familiares, Hugo apresenta-se como alguém com um acentuadíssimo instinto de fuga e que anseia por uma figura paternal que ora substitua ora reproduza o pai perdido. Quando teima em chamar para logo depois afastar os autores que mais admira, Hugo não faz mais do que reproduzir esse padrão que o leva a aproximar-se e afastar-se do pai e a partir para novas cidades à procura do que aí jamais poderia encontrar.