O Banco Português de Fomento (BPF) aponta para fechar o segundo trimestre com três mil milhões de euros em empréstimos com garantia aprovados nas linhas Invest EU e mais de dez mil empresas servidas. A 31 de março tinham sido recebidas perto de sete mil candidaturas, das quais foram aprovadas cerca de 3.500, no valor de 970 milhões de euros. A indicação foi dada esta quinta-feira pelo presidente do BPF, Gonçalo Regalado, numa apresentação sobre os primeiros 100 dias de mandato da atual administração.

Esta linha, uma garantia da UE que em Portugal é operacionalizada pelo BPF, tinha um valor total de 3.555 milhões de euros quando foi lançada. Acabou por ser reforçada, em 5.185 milhões de euros, através da reprogramação do Invest EU, para responder à possível imposição de tarifas por parte dos EUA.

Ainda antes da crise das tarifas, a linha Invest EU foi a grande aposta do BPF, que criou uma estratégia para atrair as empresas para esta linha, que passou por fazer 125 mil pré aprovações, no valor de 24 mil milhões de euros, em garantias emitidas. O objetivo foi colocá-la no mercado “com menos burocracia e o mesmo risco”. Por exemplo, em vez de serem exigidos 14 documentos às empresas, passaram a ser exigidos cinco. Os resultados foram imediatamente visíveis, anunciou Luís Guimarães, administrador da área de investimentos.

Na linha Invest EU, quase quatro mil candidaturas são de novos clientes. Os montantes médios rondam os 300 mil euros por candidatura e os setores mais representados são o comércio, a indústria, outros serviços e construção. Lisboa, Porto, Braga, Aveiro e Leiria reúnem 70% das candidaturas.

O responsável destacou ainda outra iniciativa comercial que teve um impacto “imediato” nas empresas, que foi a criação de uma task force para que fossem finalizados os pagamentos que faltavam às empresas que recorreram às linhas Covid que davam acesso a uma conversão em valor não reembolsável. Em fevereiro deste ano, havia ainda 1313 empresas com conversões não pagas, no montante de 46 milhões de euros. Em dois meses, 909 empresas receberam a subvenção, no valor de 33 milhões de euros.

“Deixámos de estar sentados à espera”, afirmou Gonçalo Regalado. “Simplificámos a vida aos empresários e aos bancos comerciais. Esta foi, talvez, a principal conquista dos primeiros 100 dias. Passámos a confiar nos bancos comerciais”. Na apresentação distribuída, com os valores das duas primeiras semanas, o BCP surge destacado como o banco com mais candidaturas (mais de 1200), seguido pela CGD (com 211) e pelo Santander (com 140).

Gonçalo Regalado, que antes de assumir a liderança do BPF era diretor de marketing para empresas e PME do BCP, justifica a diferença. “O que mudou não foi a performance do BCP, foi a performance do BPF. O BPF é que passou a ter garantias pré-aprovadas. O BCP, que sempre teve crédito pré-aprovado, adaptou-se melhor e mais rapidamente. Mas temos a certeza que todos os bancos que estão no mercado vão fazê-lo e vão ser competitivos. A informação que me tem chegado dos bancos é que começou assim mas não vai acabar assim”.

“Foi possível fazer em três meses mais do que em dois anos”, afirmou o presidente do BPF no balanço dos primeiros 100 dias. Os desafios dos próximos 100 dias passam por operacionalizar o reforço anunciado das linhas incluídas no pacote das tarifas. “Não equacionávamos que teríamos de ser chamados para um projeto desta dimensão, não estávamos à espera de uma guerra comercial”, admitiu Gonçalo Regalado.

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O peso dos EUA nas exportações portuguesas, de 6,7%, ou cerca de 5,24 mil milhões de euros, e o facto de as empresas portuguesas que exportam para os EUA representarem 39% das exportações do tecido empresarial ativo, “deixou claro que era preciso uma intervenção imediata”. Assim, o BPF pegou nas linhas que tinha, reprogramou-as e reforçou-as “para responder a esta urgência”.

Em cima disso, criou uma linha só para exportadores, com mil milhões de euros para fundo de maneio e 2.500 milhões para investimento, dos quais 400 milhões podem ser a fundo perdido. O processo ainda está a ser “calibrado”, mas em princípio as empresas terão de respeitar quatro critérios: manter os ativos, manter os postos de trabalho, manter as exportações em valor e manter a percentagem de exportações sobre o volume de negócios.

O pacote é “similar ao do covid”, explicou Gonçalo Regalado. “Esperamos que não seja utilizado numa lógica de necessidade mas numa lógica de investimento, de fundo de maneio e de reforço de capacidades, mas estamos prontos para responder a todos os empresários”.

Gonçalo Regalado sublinhou também o papel do BPF na escolha da Autoeuropa pela Volskwagen para a produção do carro elétrico da gigante alemã. A intervenção da instituição “fez parte do pacote de enquadramento da candidatura de Portugal à conquista do carro elétrico”. Na prática, o BPF vai disponibilizar dois instrumentos financeiros. Um de garantia pública para todos os fornecedores da cadeia de valor, “que são na grande maioria deles, felizmente, portugueses”. O outro é financiamento direto da expansão da fábrica, que será uma linha mista, entre o BPF com fundos do BEI e a banca comercial, em que será montado um projeto de financiamento com um sindicato bancário. “Ainda é muito cedo, temos tido reuniões semana sim semana não”, detalhou o presidente do BPF. “É para nós um orgulho não só ter a Volkswagen em Portugal a fazer o primeiro carro elétrico mas sobretudo ter bancos portugueses a financiar um projeto que faz mexer desta forma o nosso país. Os projetos estão “na fase de afinação da ficha técnica”.

O BPF apresentou ainda os seus resultados relativos a 2024. O banco fechou o ano com um resultado líquido de 18,3 milhões de euros, menos 4,2 milhões do que no ano anterior. Bruno Rodrigues, administrador financeiro da instituição, justificou a quebra com o atraso no lançamento das linhas Invest EU. Os lucros ficaram, ainda assim, acima do que estava orçamentado, que apontava para um resultado de 14 milhões de euros. “O nosso objetivo último não é sermos um banco multimilionário nos resultados, é sermos um banco de impacto no crédito, no financiamento, na economia. Não nos medimos por milhões, medimos por valor no PIB”, sublinhou Gonçalo Regalado.

O presidente do BPF afirma que o facto de o Governo estar em gestão “não mudou nada” no funcionamento da instituição. “Não quer dizer que, fruto do processo eleitoral e do que for a decisão dos portugueses, possa ou não vir a mudar o processo. Acreditamos que não vá haver nenhuma disrupção”.

Questionado sobre o facto de a atual gestão do BPF ter obtido resultados de forma mais rápida que as anteriores, Gonçalo Regalado deixou elogios ao trabalho dos antecessores e destacou que “é difícil decidir no enquadramento incerto com a regulação que existe em Portugal”, sublinhando que a atual gestão trouxe “sentido de urgência”.