O pontificado de Francisco está longe de ser unanimemente apreciado entre os cardeais. Alguns sinais dos últimos dias noticiados por vaticanistas conhecedores dos bastidores do Vaticano revelam possível campanha para agregar votos em torno de Parolin.

Ainda antes do fecho das portas da Capela Sistina, alguns sinais dados nas últimas horas antes do arranque do Conclave parecem apontar no sentido de alguma tensão entre os cardeais que vão escolher o sucessor do Papa Francisco como chefe da Igreja Católica, concretamente dando conta de uma possível campanha de bastidores destinada a fazer eleger como novo Papa o atual secretário de Estado do Vaticano, o cardeal italiano Pietro Parolin, com uma agenda de algum recuo tanto no estilo como no conteúdo em relação ao pontificado do Papa Francisco.

Um dos sinais mais claros foi o facto de o nome do Papa Francisco ter ficado de fora da homilia proferida esta manhã pelo cardeal italiano Giovanni Batista Re, decano do Colégio Cardinalício, durante a missa Pro Eligendo Romano Pontifice, a celebração solene que inaugurou os trabalhos do conclave. Como escreve o correspondente do El País em Roma, tanto em 2005 como em 2013 o anterior Papa foi mencionado na homilia da missa inaugural do conclave, com um simples agradecimento ou uma referência mais carinhosa. Desta vez, o nome de Francisco esteve totalmente ausente – o que, como escreve ainda o jornalista do El País em Roma, causou grande estranheza no setor mais adepto da continuidade com a linha de Francisco. “Não se pode ter esquecido, foi deliberado”, afirmou um prelado citado pelo El País, sob anonimato.

Em segundo lugar, no decorrer da missa, o cardeal Batista Re cumprimentou de forma bastante efusiva o cardeal Parolin, que se encontrava na zona do altar principal devido ao seu lugar na precedência dos cardeais. Nesse cumprimento, Battista Re – que pelos seus 91 anos não poderá votar no conclave, mas é visto como uma das vozes mais influentes junto dos seus colegas – terá dito “boa sorte” a Parolin, o que tem sido lido como um sinal de que está em curso uma campanha para eleger Parolin na qual Battista Re é uma das vozes mais influentes.

Tudo isto estará a ser lido entre os mais progressistas como um sinal de alarme para a possibilidade de estar a formar-se uma frente capaz de desbloquear o conclave – e que possa juntar em torno de um único candidato (Parolin) os mais conservadores e a bolha romana, composta pelos cardeais italianos e por muitas das altas figuras da Cúria Romana. Simultaneamente, o facto de Giovanni Battista Re ter pintado o perfil desejável do futuro Papa com traços que correspondem em larga medida à experiência diplomática de Parolin leva a crer que essa campanha estará mesmo em ação.

Isso foi especialmente evidente quando Battista Re referiu a necessidade de, no mundo de hoje, que atravessa um “momento difícil e complexo”, a Igreja assumir-se como bastião de “valores fundamentais, humanos e espirituais”. Várias referências à “unidade” da Igreja foram também lidos como apontando para um perfil mais conservador do que Francisco, que muitos na ala mais tradicionalista acusam de ter provocado desunião ao defender ideias que rompem com a ortodoxia.

Tudo isto pode ainda ser lido à luz de uma outra notícia, conhecida há dias através da revista America, dos jesuítas. Segundo aquela publicação, o cardeal italiano Beniamino Stella, de 83 anos (também não pode votar, mas é visto como uma voz de peso entre os cardeais), usou o seu tempo de intervenção nas congregações gerais para deixar duras críticas ao Papa Francisco, acusando-o de ter “contornado a longa tradição da Igreja” de associar o poder e a autoridade às ordens sacras – por exemplo, através da abertura do Sínodo dos Bispos ao voto dos leigos ou através da reforma da Cúria Romana que permite que leigos (homens e mulheres) liderem dicastérios em Roma.

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“Ouvimos várias queixas contra o pontificado de Francisco nestes dias, mas o discurso do cardeal Stella foi, de longe, o pior”, afirmou um cardeal, sob anonimato, à revista America. Uma outra fonte disse aquela publicação que, no entender de Stella, é necessário que ao pontificado do Papa Francisco suceda um Papa mais “diplomático e moderado, como o secretário de Estado, para pôr as coisas novamente na ordem”.

Ora, Beniamino Stella é também amplamente considerado um dos principais apoiantes de uma candidatura de Pietro Parolin, sendo visto como um importante artífice da campanha em torno do secretário de Estado.

Se é verdade que todos estes sinais são passíveis de ser lidos de múltiplas formas, a verdade é que evidenciam, pelo menos, que mesmo entre os cardeais escolhidos pelo Papa Francisco há fortes dúvidas sobre o grau de continuidade a dar ao pontificado de Francisco num futuro pontificado.

Os cardeais entraram na tarde desta quarta-feira na Capela Sistina para o primeiro dia do conclave que deverá eleger o sucessor do Papa Francisco, que morreu aos 88 anos no final de abril após um pontificado de doze anos.