Um comprimido diário contra a obesidade e a diabetes tipo 2 gerou uma perda de peso média de cerca de 8% num ensaio clínico recente. A molécula — batizada como orforglipron e que está a ser desenvolvida pela farmacêutica Lilly— pode vir a assumir-se como uma inovação importante para pessoas com excesso de peso ou obesidade, que até agora só têm disponíveis opções injetáveis, como o Wegovy ou o Ozempic (embora este último seja utilizado off-label).
O orforglipron pertence a uma classe de medicamentos denominada agonistas dos receptores do GLP-1 (tal como o Ozempic, o Mounjaro ou o Wegovy), que permite imitar os efeitos da proteína GLP-1 e, assim, controlar os níveis da glicose no organismo. Além de estimular a produção de insulina, esta classe de fármacos também funciona como regulador do apetite — um fator decisivo no combate à obesidade.
No entanto, os três fármacos referidos anteriormente — e que estão a ser comercializados — são injetáveis, o que coloca desafios ao nível da administração, do custo (mais elevado) e da própria conservação (que tem de ser assegurada a baixas temperaturas). Por isso, a indústria farmacêutica tem procurado desenvolver um fármaco com a mesma eficácia, mas em formato de comprimidos. Tal como a Novo Nordisk (que já tem um fármaco em aprovação pelo regulador norte-americano), também laboratório norte-americano Lilly o conseguiu fazer, tendo anunciado, em meados de abril, os resultados da fase 3 do estudo ACHIEVE, que envolveu 559 pessoas obesas com diabetes tipo 2 dos EUA, China, Índia, Japão e México.
A amostra foi dividida em dois grupos: um tomou orforglipron e o outro um placebo. No primeiro grupo, registou-se uma diminuição média de 7,8% do peso ao fim de 40 semanas com a dose mais elevada (36mg). No grupo que tomou placebo, houve também uma redução do peso mas muito menor, de 1,6%. Também os níveis de glicose diminuíram entre 1,2% a 1,5% dependendo da dose (o resultado com placebo foi de uma quebra de 0,4%).
Note-se que este estudo foi feito em doentes com diabetes e obesidade, sendo o endpoint primário (ou seja, o primeiro objetivo) a redução da hemoglobina A1C (isto é, os níveis de glicose registados nos últimos três meses). A farmacêutica Lilly tem ainda a decorrer um outro ensaio clínico, denominado ATTAIN, que está a avaliar a eficácia do orforglipron em doentes com obesidade e comorbilidades associadas à obesidade (e sem diabetes) — e cujos resultados serão conhecidos até final de 2025.
A Lilly sublinha que o estudo demonstrou resultados de eficácia estatisticamente significativos e um perfil de segurança consistente com os medicamentos injetáveis.
“Quanto mais opções terapêuticas tivermos, melhor”, diz presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia
No entanto, e como explica ao Observador a médica endocrinologista Paula Freitas, só com os dados do estudo ATTAIN, que serão conhecidos dentro de alguns meses, será possível comparar a eficácia do orforglipron com os fármacos da mesma classe injetáveis como o Wegovy, ou o Ozempic (embora este último, apesar de estar a ser usado para perder peso, só tenha indicação oficial para o combate à diabetes).
Porém, refere a médica, a redução de peso alcançada neste estudo já é “significativa”, sobretudo tendo em conta que está em causa uma população diabética obesa, em que a perda de peso é sempre menor em comparação com uma população não-diabética obesa por causa da insulinodependência. Por isso, a expectativa é que a proporção de redução de peso alcançada no estudo ATTAIN seja ainda maior, aproximando-se dos resultados das formulações injetáveis (cerca de 15% no caso de Wegovy ou 10% com Ozempic).
“Quanto mais opções terapêuticas tivermos, melhor“, congratula-se a também professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo. Paula Freitas sublinha que a formulação em comprimidos pode ser útil para as pessoas que têm resistência em administrar em si próprias formulações injetáveis, tendo por isso potencial para chegar a mais pessoas obesas.
Os efeitos adversos apurados no estudo ACHIEVE foram os mesmos dos medicamentos injetáveis para obesidade — diarreia, indigestão, constipação, náusea e vómitos. Existem receios de que, consumidos de forma massiva, estes fármacos possam causar mais efeitos adversos. A Pfizer — que também estava na corrida pelo desenvolvimento de um comprimido desta classe terapêutica — decidiu, dias antes do anúncio da Lilly, travar o desenvolvimento da sua molécula, chamada danuglipron, depois de um dos participantes do ensaio clínico ter sofrido um efeito adverso grave, uma “potencial lesão hepática” medicamentosa, anunciou a empresa em comunicado.
Os resultados do estudo ACHIEVE vão ser apresentados numa reunião da Sociedade Americana de Diabetes em junho, antes da publicação numa revista científica (já com a revisão por pares feita). A Lilly anunciou também que que vai solicitar autorização dos reguladores para comercializar o medicamento para controlo de peso ainda este ano e para o tratamento da diabetes tipo 2 em 2026.
Um estudo publicado em março deste ano na revista científica The Lancet aponta que o excesso de peso e a obesidade podem vir a afetar mais de metade população mundial em 2050 (ou seja 3,8 mil milhões de pessoas.
Nota: notícia alterada às 13h de dia de 12 de maio, com a indicação de que a farmacêutica Lilly não foi a primeira a desenvolver um fármaco em forma de comprimidos indicado para combater a obesidade. A Novo Nordisk também já o fez