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UCG/Universal Images Group via G

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Wegovy. O novo tratamento contra a obesidade (que chega a 7 de abril) vai custar 244 euros e também previne enfartes e AVC

Injeção semanal vai chegar a Portugal, mas, sem comparticipação, o custo pode ser um obstáculo. O endocrinologista Silva Nunes destaca os benefícios na redução de peso e na vertente cardiovascular.

Nos próximos dias, estará à venda nas farmácias um novo tratamento contra a obesidade. O medicamento injetável chama-se Wegovy e é composto pela mesma substância ativa do conhecido Ozempic, mas em dose reforçada. A nova fórmula poderá ser prescrita em Portugal a partir de dia 1 de abril, mas só estará disponível nas farmácias a 7 de abril, adiantou ao Observador a farmacêutica Novo Nordisk, que produz o fármaco. Uma vez que não tem comparticipação, o Wegovy custará 244,80 euros/mês, um custo que o endocrinologista José Silva Nunes reconhece que poderá limitar o acesso. O especialista sublinha, ainda assim, as potencialidades do Wegovy, tanto na perda de peso como na prevenção de eventos cardiovasculares, como o AVC e o enfarte.

O Wegovy é composto pelo semaglutido, uma substância (que pertence a uma nova classe de medicamentos, os agonistas dos receptores do GLP-1) que permite imitar os efeitos da proteína GLP-1 e, assim, controlar os níveis da glicose no organismo. Além de estimular a produção de insulina, o semaglutido funciona também como regulador do apetite — um fator decisivo no combate à obesidade.

O semaglutido é também a substância ativa do Ozempic, o nome comercial do fármaco indicado para o tratamento da diabetes tipo 2 e que está comparticipado em Portugal desde 2021. Este fármaco tem sido utilizado off label no tratamento da obesidade, o que tem provocado frequentes problemas no abastecimento ao mercado, devido à grande procura por parte de não-diabéticos. O aumento significativo das vendas fez também disparar a despesa do SNS com este medicamento, que já ultrapassa os 300 milhões de euros.

Perda de peso média ronda os 15%. “É muito significativo”, diz endocrinologista Silva Nunes

Quanto ao Wegovy, este sim indicado para o tratamento da obesidade, estará agora disponível em Portgual numa dose de 2,4 miligramas, mais do dobro do que a dose mais elevada de Ozempic comercializada em Portugal (que é de 1 miligrama). Trata-se de um fármaco injetável, com administração semanal. Ao Observador, o presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO) destaca os resultados alcançados pelo Wegovy num estudo publicado, em 2021, no The New England Journal of Medicine: uma redução média de 15% no peso.

“Consideramos significativa uma perda de peso acima dos 5%. O estudo demonstrou uma perda de peso ponderal média de 15%, é que é muito significativo. Em relação à perda de peso conseguida com este fármaco, só a conseguíamos até agora com a cirurgia da obesidade”, diz o endocrinologista José Silva Nunes. O estudo em causa, duplo-cego, envolveu a participação de quase mil pessoas, durante 68 semanas, que foram divididas em dois grupos: um que tomou Wegovy, seguindo uma dieta com redução de calorias e adotando um estilo de vida mais ativo; e um outro que tomou placebo, com as mesmas obrigações quanto ao estilo de vida. Enquanto, no primeiro grupo, se observou uma redução de peso média de 15%, no segundo a redução ficou-se pelos 2,4%.

Medicamento para diabetes também previne enfartes e AVC (e ajuda a perder peso). Mas corrida ao Ozempic compromete tratamento de diabéticos

Um segundo estudo, que também analisou a perda de peso, e que envolveu outras 600 pessoas, concluiu que mais de 85% dos participantes perderam mais de 5% do peso com a administração semanal de Wegovy. Cerca de metade (48%) perdeu mais de 15% do peso e, em 30% das pessoas, a redução de peso superou mesmo os 20%.

Obesidade

▲ A obesidade afeta quase 29% da população portuguesa e tem associada várias comorbilidades

dpa/picture alliance via Getty I

Wegovy reduz risco de morte cardiovascular ou de enfartes e AVC em 17%

Além da perda comprovada de peso, o Wegovy tem ainda uma outra característica: permite reduzir o risco de eventos cardiovasculares e eventual internamento, e de morte. “É o único fármaco para tratamento da obesidade que, até agora, demonstrou benefício na proteção cardiovascular”, destaca José Silva Nunes, acrescentando que, no estudo SELECT, “demonstrou uma redução de 17% no risco de morte por eventos cardiovasculares e também de enfarte e AVC”.

O estudo SELECT, apresentado na última reunião da American Heart Association, acompanhou 17 mil doentes com obesidade durante cinco anos, pessoas que já tinham sofrido eventos cardiovasculares no passado, sendo, por isso, considerados doentes de alto risco. O trabalho concluiu que, nos doentes tratados com Wegovy, se verificou uma redução em 17% do risco para o chamado endpoint primário: composto por mortes por causa cardiovascular, enfarte do miocárdio não fatal ou AVC não fatal.

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“É um fármaco com múltiplos benefícios. E sabemos que a doença cardiovascular, a par com a diabetes tipo 2, é uma das principais comorbilidades das pessoas com obesidade“, sublinha o presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade. O estudo SELECT mostrou também que os doentes aos quais foi administrado Wegovy tinham menos 15% a 24% de risco de serem internados, por doença cardiovascular ou por outras causas.

Dados que levam José Silva Nunes a defender a comparticipação do Wegovy, à semelhança do que já acontece com o Ozempic (cujo custo é suportado em 90% pelo SNS). Sem financiamento, o endocrinologista teme que o acesso ao tratamento (com um custo mensal que ronda os 245 euros) fique prejudicado, principalmente para as classes sociais mais desfavorecidas e sem capacidade económica para suportar os encargos.

Falta de comparticipação pode criar um problema de “iniquidade social”, diz presidente da SPEO

“É um problema de iniquidade social. Sabemos que a obesidade tem uma prevalência mais elevada nas classes socioeconómicas mais desfavorecidas. Essas pessoas vão estar limitadas no tratamento da sua doença e vão estar impossibilitadas, devido ao custo, de fazer uso da terapêutica”, critica o especialista. Ao Observador, a Novo Nordisk diz-se “empenhada em dialogar com autoridades de saúde e decisores políticos para alcançar soluções que garantam o acesso daqueles que mais precisam ao melhor tratamento” e garante que vai voltar a propor o financiamento do Wegovy, recusado pelo Infarmed há menos de meio ano.

"A obesidade tem uma prevalência mais elevada nas classes socioeconómicas mais desfavorecidas. Essas pessoas vão estar limitadas no tratamento da sua doença"
José Silva Nunes, endocrinologista e presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade

“A Novo Nordisk já havia submetido o pedido de comparticipação deste medicamento para o tratamento da Obesidade. Em novembro de 2024, o Infarmed notificou a Novo Nordisk da extinção do referido processo por ausência de uma estratégia integrada para o tratamento da obesidade no SNS, com orientação para a inclusão da terapêutica farmacológica nesse âmbito, o que impossibilita a avaliação dos pedidos submetidos”, sublinha a farmacêutica, acrescentando que voltará a presentar o pedido quando for publicado o “Percurso de Cuidados Integrados para a Prevenção e Tratamento da Obesidade”.

O endocrinologista José Silva Nunes adianta que o documento (cuja elaboração e publicação está a cargo da Direção Geral da Saúde) deverá ser publicado até final do ano. A própria farmacêutica sublinha que, por si só, o Wegovy não garante a perda de peso em doentes obesos, e que o “tratamento é também indicado como complemento de uma dieta reduzida em calorias e de um aumento da atividade física para o controlo do peso” em adultos com IMC superior a 30 ou a 27, caso tenham uma comorbilidade associada (pré-diabetes, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono ou doença cardiovascular).

No entanto, e mesmo com uma estratégia aprovada para o SNS, ainda ficaria a faltar a criação de um grupo farmaco-terapêutico próprio no Infarmed, destinado aos fármacos para combate à obesidade. “Há fármacos para tratar a obesidade mas ainda não estão integrados num grupo próprio“, critica José Silva Nunes, destacando os casos do Saxenda e do Mounjaro (tendo este último começado a ser comercializado em Portugal em novembro do ano passado).

▲ A farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk garante que vai apresentar novo pedido de financiamento do Wegovy (depois de o Infarmed ter recusado a primeira tentativa)

Custos com obesidade ultrapassam mil milhões de euros/ano

Ultrapassados as dificuldades técnicas, o endocrinologista defende a comparticipação imediata destes fármacos — o que, sublinha, iria permitir ao SNS evitar gastos posteriores com as comorbilidades associadas à obesidade. “A SPEO promoveu um estudo que demonstrou que anualmente se gasta 1,14 mil milhões de euros/ano em custos diretos com a obesidade e as suas comorbilidades. Tem um impacto brutal em termos financeiros”, diz o presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade. “É verdade que os fármacos são caros e implicam gastos iniciais altos. Mas os benefícios são elevados“, garante.

A SPEO tem trabalhado nos últimos anos para tentar eliminar o que considera ser o “tratamento desigual da obesidade” face a outras doenças crónicas. “Este ano, a Secretária de Estado da Saúde [Ana Povo] comunicou que até ao final de 2025 teríamos comparticipação dos fármacos contra a obesidade. Entretanto teremos eleições, esperemos que o próximo governo não inverta a decisão”, sublinha José Silva Nunes.

Especialistas querem medicamentos para obesidade comparticipados

O preço de venda em Portugal do Wegovy será similar ao dos restantes 15 países onde o tratamento já é comercializado, sublinha fonte oficial da Novo Nordisk. Os países em causa são Alemanha, Canadá, Dinamarca, Emirados Árabes Unidos, Espanha, Estados Unidos da América, França, Irlanda, Itália, Japão, Noruega, Polónia, Reino Unido, Suécia e Suíça.

José Silva Nunes destaca a importância de uma abordagem holística à pessoa com obesidade, uma condição que afeta quase 29% da população portuguesa. “Há uma diferença entre perder peso e tratar a pessoa com obesidade. Tratar a pessoa com obesidade não é só promover a perda ponderal, é também melhorar o risco cardio-reno-metabólico e melhorar a qualidade de vida”, lembra o presidente da SPEO.

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