Chegámos no momento em que decorre um workshop de dança como medicina. À volta do palco circular, as pessoas dispõem-se em pares, uma a olhar de frente para a outra, e movem-se de acordo com o que dizem as duas instrutoras. São orientadas a respirar, a fechar os olhos e a expressarem-se apenas através do corpo, sem usar palavras. A música é calma, as luzes quentes — e, tons de amarelo e laranja. Em determinado momento sobem todos ao palco. O que começou tímido de repente caminha para um transe: por esta altura, já há quem esteja totalmente deitado no chão a dançar ao seu próprio ritmo. “Percebi que a energia da sala cresceu. As pessoas conseguiram desligar a mente e sentir o corpo”, diz ao Observador Márcia D’Orey, uma das poucas portuguesas no cartaz do Conscious Health Summit, que decorreu entre os dias 2 e 3 de maio no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa. “O facto de serem muitas pessoas de fora de Portugal fez com que houvesse mais homens, o que é algo incomum na cultura portuguesa. Muito poucos homens vêm às minhas aulas, são mais fechados. E aqui senti que estavam totalmente abertos à experiência, não estão com o pé atrás. E não é fácil as pessoas sentirem desconforto, e eu pedir certas coisas desconfortáveis, que não são habituais. Aqui senti que havia espírito e mente mais abertos”. O workshop de Márcia com a Dj Joanna Lewins termina com os participantes a abraçarem-se e a agradecerem uns aos outros, num espírito de amizade e familiaridade.
▲ Márcia d'Orey ministrou um workshop de dança como medicina com a Dj Joanna Lewins
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
Ainda são 10h30 e esta é a primeira sessão do dia. A sair do “Wisdom Circle”, encontramos o primeiro atleta português a conquistar uma medalha de ouro olímpica por Portugal, e que dá nome ao pavilhão. Carlos Lopes fez questão de ver pessoalmente o arranque do evento. “Quando as pessoas têm problemas, não só psicológicos, como deficiências alimentares, acho que é importante que tenham conhecimento disponível para terem uma melhor vida.”, destaca. Ao seu lado está o único orador português a discursar no Science Stage. “Não é um evento sobre tratamentos alternativos, mas sim complementar. Isto não é dizer que a medicina mais tradicional e mais clássica não presta — não, ela é fundamental e salva vidas. Isto é uma forma que nós temos de dizer que há mais para além da medicina tradicional. Há também uma forma complementar de olhar para outras questões”, diz-nos Manuel Pinto Coelho, médico que tem uma clínica de medicina funcional e holística em Lisboa e é autor de vários livros, como um dos preferidos de Rui Rio, Como Chegar Novo a Velho.
Biohacking é provavelmente um dos termos mais ouvidos ao longo dos dois dias de evento. O conceito aponta para a tentativa de “hackear” a biologia do corpo para otimizar o desempenho e a longevidade. Ou seja, através da mudança de hábitos, como o sono e a alimentação, entre outros — aliada a alguns tratamentos tecnológicos como os apresentados na cimeira — uma pessoa seria capaz de viver melhor e por mais tempo.
Pelo palco do Conscious Health Summit passaram especialistas como os gurus de biohacking Akira Iguchi e Tim Gray, o sucesso do TikTok em terapia fascial para reprogramar o corpo, os Human Garage, ou o astrólogo e tarólogo Chris Corsini, que falou sobre vocabulário vibracional, num discurso que incluiu manifestação, cocriação, luas e signos. Entre um palco e outro, um espaço de exposição com testes de epigenética ou para descobrir a sua verdadeira idade biológica, banheiras de imersão em água gelada e sauna infravermelha, suplementos alimentares, elixires de cogumelos, cafés adaptogénicos, rituais de cacau, entre muitos outros produtos e serviços. Todos com o objetivo de melhorar a qualidade e o tempo de vida.
▲ O evento expôs inovações em tratamentos para a longevidade
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
A primeira edição do evento reuniu mais de 30 oradores e teve cerca de mil bilhetes vendidos (com preços que começavam nos 222 euros). O público foi maioritariamente estrangeiro — britânicos, norte-americanos, franceses, italianos, espanhóis, noruegueses, austríacos, romenos, holandeses, alemães, ucranianos, mexicanos, canadianos, entre outras nacionalidades. “Acho que deixámos um impacto positivo em muitas pessoas que vão implementar novas rotinas nas suas vidas e ativámos conexões na comunidade. Para o primeiro evento, acho que foi o esperado. E definitivamente faremos um novo evento no ano que vem“, diz-nos Max Wolter, fundador da conferência.
Biohacking e free hugs
À porta do Wisdom Circle duas amigas assistem à sessão de dança como medicina com curiosidade. Gerda Rumvolt é da Estónia mas vive em Lisboa há 12 anos. Fisioterapeuta e osteopata, afirma que foi ao evento não só por questões profissionais. “É meu interesse pessoal há muitos anos”, garante, sobre os temas abordados na cimeira. Karita Pusta, empresária estónia que vive em Lisboa há 7 anos destaca o interesse em “anti-aging, biohacking e saúde consciente”. Já a dentista norte-americana Julia Sadove-Lopez, que vive em Portugal há pouco mais de três anos, assume que tem “muito interesse no meio da saúde e em formas de integrar a saúde a abordagens diferentes e componentes energéticos.”
Mas o público também era formado por portugueses. Susana e César Águas vieram a Lisboa do Algarve especialmente para o evento. Ela é naturopata e trabalha na área da medicina integrativa e o casal tem uma loja online de suplementos terapêuticos. “Fazia todo o sentido estarmos aqui neste evento, para ver o que há de novidades e também para fazer contactos”, destaca Susana, que diz que segue técnicas de biohacking, o que acredita ser importante para “ter uma saúde mais consciente em várias áreas: tanto física quanto espiritual.” O mesmo conta-nos a coach de nutrição e estilo de vida saudável Sara Torres: “Uso bastantes técnicas de biohacking no dia a dia ao longo dos anos. Por isso aqui quero aprender mais”.
▲ Mais de 30 oradores participaram na conferência que teve workshops com profissionais de todo o mundo
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
No fim da sessão com os Human Garage, Estee Lantos aborda Jason Van Blerk. O orador falara sobre como as suas manobras fasciais são capazes de curar dores, problemas digestivos e até traumas do passado. Depois de uma breve conversa, começam a realizar novas manobras de libertação ali mesmo. A assistência forma-se em redor da dupla. Ao fim de aproximadamente 5 minutos, Estee tem os olhos cheios de lágrimas. “Tenho uma relação difícil com a minha mãe, nunca é fácil, mas às vezes fica ainda mais complicado. Tenho tentado trabalhar nisso há anos”, conta-nos a húngara, que vive em Londres e veio a Lisboa especialmente para o evento. “Senti-me imediatamente energizada. Mas acho que ainda preciso processar o que se passou”.
É a segurar um cartaz de free hugs que conhecemos Matilda Gregersdotter, sueca que vive na Islândia e veio à cimeira para dar um workshop sobre sexualidade sagrada e orgasmo energético. Depois de um abraço rápido e descontraído, terminámos a nossa conversa e cruzámo-nos com um homem a segurar outro cartaz. Aqui vamos para o segundo abraço da manhã, e mesmo assim torna-se uma experiência inesperada. Ao longo de exatos (e longos) 30 segundos, abraça-nos de forma calma e firme, só abrindo os braços ao fim de algumas respirações profundas. O padrão repete-se ao longo das horas seguintes: as pessoas parecem abertas e disponíveis a ultrapassarem qualquer desconforto, seja dançar, permitir-se chorar ou ter um momento de conexão com um completo desconhecido.