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Foi a palavra do ano em 2024, de acordo com o dicionário Cambridge, tendo sido vista mais de 130 mil vezes. Manifestar ao universo é uma tendência crescente que foi impulsionada nos últimos dois anos com os depoimentos de personalidades internacionalmente mediáticas como Dua Lipa ou Selena Gomez, sobre como manifestaram e conquistaram o sucesso e o amor. Ao mesmo tempo ganharam destaque nas redes sociais as gurus da manifestação, como a britânica Roxy Marrone, que se autodenomina praticante de nutrição e mentalidade holística e mistura conteúdos de alimentação saudável, exercício físico, produtos da sua própria marca de skincare, frases afirmativas e o seu “ritual de manifestação da lua cheia”. Ou ainda Emma Lucy Knowles, vidente e terapeuta holística, autora de vários livros entre os quais um sobre os cristais certos para manifestar aquilo que se quer. E ainda a oradora motivacional de origem iraquiana Roxie Nafousi, autora de Manifesta, o livro de eleição das It Girls da manifestação. Uma filosofia que se repete cada vez mais entre os utilizadores do Instagram, do Youtube e do TikTok, desde depoimentos profundos sobre jornadas de desenvolvimento pessoal até às dicas sobre como manifestar ao universo o emprego dos sonhos e o namorado perfeito — partilhas de quem confia ter conquistado tudo graças ao poder da manifestação.
Da cura natural ao “love, life, sex & biz”
Inês Nunes pode ser das personalidades portuguesas mais populares deste universo. Tem mais de 40 mil seguidores nas redes sociais e hoje trabalha como mentora acompanhando anualmente grupos com cerca de 200 mulheres — às vezes com cursos de até 700 alunas, segundo conta ao Observador. “Biz Queen by Day, Lover by Night” é uma das frases preferidas da coach, que tem cursos focados em ensinar mulheres a “manifestar uma vida de possibilidades infinitas em todas as áreas: Love, Life, S€x & Biz“, conforme escreve na sua página no Instagram. Através deste perfil partilha também detalhes íntimos da sua vida, falando abertamente sobre os seus momentos mais difíceis — como o divórcio ou a perda gestacional recente — e celebrando as fases às quais chama “saltos quânticos”. Inês tem formações em coaching, assim como em meditação e yoga. Lançou em 2018 o livro Vive a Tua Luz e assegura-nos que, hoje, vive exclusivamente dos cursos e eventos, com rendimentos na casa das centenas de milhares de euros. O custo da mensalidade da mentoria “Femme Biz School“, por exemplo, é de 222 euros, enquanto o plano anual custa 2.222, com uma opção VIP que inclui sessões privadas com a mentora no valor de 4.444 euros. “O meu trabalho é mesmo focado para a mulher que deseja trabalhar o feminino e entrar na magnetização. É também um trabalho energético, e o que elas procuram, normalmente, está muito relacionado com amor e negócios“, diz a mentora de mulheres.
Quando teve o primeiro contacto com “lei da atração”, em 2014, conta-nos que tratava uma doença autoimune, tomava 10 comprimidos por dia e tinha uma indicação médica para operar a tiroide. Foi também nesta altura que começou a trabalhar na indústria da alimentação saudável, o que acredita que foi o primeiro passo para a sua primeira grande manifestação. “Comecei a cuidar-me. Não podia fazer exercício nenhum, não podia fazer nada a não ser caminhar. E eu ia caminhar ao ar livre, procurava outras alternativas. Acredito que é realmente esta parte mental de eu acreditar que era possível para mim, e depois, como é óbvio, a manifestação vem sempre com uma ação alinhada, a manifestação é uma cocriação, ou seja, é acreditar que eu faço a minha parte. Acabei por fazer uma jornada de cura natural e curar o meu corpo depois de anos de medicação“, diz. Atualmente Inês explica que continua a acompanhar a doença, mas já não toma medicação e não precisou operar. Foi o que a motivou a partilhar a sua “jornada de cura” online. “Criei uma página. Quando comecei tinha 50 pessoas a acompanhar-me, que eram as minhas amigas e a minha família. E a partir deste momento foi mesmo começar realmente a ser essa mulher que eu desejava ser.”
Desde então garante que conquistou o sucesso na vida pessoal e profissional graças à manifestação. “Comecei por esta questão de saúde, mas no final eu manifestei e lançaram o meu livro, que esgotou ainda antes de ir para o mundo, criei o meu negócio e foi logo a faturar. Cheguei a manifestar um milhão no meu negócio. Ou seja, eu passei por toda esta jornada de manifestação de coisas surreais, que as pessoas nem acreditavam que era possível criar em Portugal”.
▲ Inês Nunes começou a partilhar sobre manifestação nas redes sociais depois da sua "jornada de cura natural" de uma doença autoimune
Jornada da manifestação
No meio dos conteúdos voltados para a promoção dos cursos, Inês também partilha com as seguidoras algumas dicas de manifestação. Ao Observador, a mentora diz que o primeiro passo para ingressar na “jornada da manifestação” é questionar-se sobre a vida que tem e que gostaria de ter. “É importante saber quem é a mulher que é a meta para este sonho. E então viver sendo essa mulher. Por exemplo, na parte da carreira. Eu ainda não tinha a minha carreira de sonho, mas eu comecei a viver sendo essa mulher. Então essa mulher está a viver a carreira dos seus sonhos”, diz. Além disso, destaca a importância dos pensamentos positivos, que diz serem capazes de atrair os resultados: “Esta primeira corrente da manifestação, que vem deste lado mais mental, é muito de um lugar de ‘aquilo que eu penso, eu atraio’. Então, se pensamos: ‘Vou ficar doente’, se já estivermos nesta energia, nós vamos mesmo atrair aquilo para a nossa vida. Portanto, esta é a parte mais mental, de realmente vivermos uma vida em que sabemos: ‘Eu é que estou a criar a minha realidade, eu não sou uma vítima.”
Outra técnica que a coach recomenda é o journaling, que nada mais é do que escrever pensamentos, ideias e questionamentos. “Principalmente quando estou numa fase de grande manifestação, pergunto: ‘Qual é que é a minha visão?’ Gosto de escrever quem é a mulher que já tem essa manifestação e como é que ela agiria hoje.” Pelo lado mais espiritual, Inês recomenda que as pessoas peçam sinais. “Aqui vem a conexão do que é que eu posso pedir de suporte ao universo, para nos guiar nesta manifestação, mostrar-nos sinais, para percebermos que não estamos sozinhos.”
E se os pensamentos positivos, as perguntas e o viver de acordo com a realidade dos sonhos não trouxer os sinais nem os resultados esperados? “Normalmente quando nós até já estamos a fazer tudo e as coisas não acontecem, é porque de alguma forma nós temos medo da manifestação, e a maior parte das pessoas nem tem isto na sua consciência”, diz Inês. “Então, a pergunta que eu faço é: ‘Qual é a pior coisa que te pode acontecer, se realmente manifestares aquilo que tu desejas?’ Quando nós vemos esse outro lado da manifestação que nos traz medo, e se esse medo até for mais forte, nós não vamos manifestar”. É o ponto onde afirma aprofundar muitos dos seus cursos, trabalhando a “nível do sistema nervoso”, para desenvolver o sentimento de “segurança para receber o outro lado da manifestação.” E, em alguns casos, a mentora reconhece que é preciso mais. “Acredito mesmo num trabalho holístico, e acredito que é importante nós percebermos, em alguns momentos, que se nós estamos a fazer tudo e que ainda assim há alguma coisa que continua bloqueada, procurar realmente este trabalho espiritual, mental e de psicoterapia“.
Tirar a carta de condução, comprar um carro e encontrar um novo amor
Foram duas tentativas de tirar a carta de condução mal sucedidas. Na primeira vez, uma experiência de assédio psicológico fez Rita Serra perder o prazo para o teste. Na segunda vez a gestora de conteúdos desistiu de ir às aulas pelo trauma que um acidente lhe causou. “Sentia que estava muito dependente dos outros, estava muito presa. E o meu maior objetivo era conseguir tirar a carta e enfrentar esses medos sozinha”, diz a jovem de 27 anos ao Observador. Foi nessa altura que Rita passou a usar as técnicas de manifestação que aprendeu num livro. “Comecei a usar a ‘lei da assunção’, que é basicamente quando se assume que já se tem algo na nossa vida, e a visualização. Vivo do outro lado da ponte e eu estava muito dependente de transportes. E então, sempre que andava de transportes na ponte, imaginava-me e visualizava-me dentro do meu carro a passar a ponte. E fazia isso todas as vezes que passava na ponte. E escrevia bastante. Escrevi, por exemplo, com cerca de um mês da antecedência do meu exame de condução, exatamente como queria que o exame acontecesse.”
Rita diz que vários detalhes daquilo que escreveu acabaram por acontecer exatamente como pediu. “Escrevi que o percurso do exame ia ser bastante fácil. Pedi especificamente que o colega com quem eu fiz esse exame também fosse à frente e que ele passasse para eu ficar também um pouco mais calma. E também já conhecer o instrutor, o examinador. E pedi para ter um examinador calmo, tranquilo e simpático. E tive isso tudo e acabou por correr tudo muito bem. Manifestei ao universo e consegui”, diz Rita que garante também ter conseguido comprar o carro que sonhava graças à manifestação. “Queria um carro automático e não é assim tão fácil de encontrar. Manifestei bastante, escrevi e disse que ia encontrar muito facilmente o meu carro. E acabei por, dois dias depois de ter tirado a carta, encontrar. E, entretanto, o carro estava muito requisitado e o senhor que me vendeu disse-me que já tinha várias propostas, mas que tinha simpatizado muito comigo. E, portanto, acabei por ficar com o carro.” A gestora de conteúdos destaca ainda aquilo que considera uma “confirmação do universo”: “O carro tem a data em que eu passei no exame de condução. O número e a numerologia também está aqui muito associada à manifestação, são sinais do universo”.
▲ Rita Serra diz que tirou a carta de condução, comprou um carro e encontrou um novo amor através da manifestação
A gestora de conteúdos conheceu as técnicas há cerca de cinco anos, quando terminou uma relação longa de oito anos e afirma que estava “à procura de respostas”. Uma amiga apresentou-lhe a “lei da atração”. “Eu já acreditava muito nestas coisas, mas desconhecia como é que funcionava”, diz. O terceiro episódio que, para Rita, é a prova de que a manifestação funciona, foi quando encontrou um novo amor. “Conversei com o universo e pedi para me mandar um sinal. Se fosse a minha pessoa, para me trazer um sinal com a palavra ‘alma’. E no primeiro encontro que eu tive com ele, que é atualmente o meu namorado, referiu-se a ele próprio como ‘paz de alma’. E pronto, foi assim a minha primeira grande confirmação”. As coincidências não ficam por aqui. “Depois a segunda grande confirmação foi no segundo encontro, que teve a ver com a carta de condução também, que tinha sido uma coisa que tinha significado tanto para mim, e que foi a minha primeira grande manifestação. No segundo encontro que nós tivemos, descobrimos que fizemos o exame exatamente no mesmo dia, à mesma hora, no mesmo centro de exames.”
[Já saiu o quarto episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]
Agora, a gestora de conteúdos prepara vision boards a cada três meses, escreve cartas com tudo o que quer conquistar e ouve diariamente frases de afirmação que gravou com a própria voz. E destaca: “Temos de escrever sempre no presente. Lá está, a ‘lei da assunção’, tem que se assumir sempre que já se tem as coisas. Ou seja, escrevo: ‘Esses três meses para mim foram incríveis, aconteceu isso, aconteceu aquilo’. Frases como, por exemplo: ‘Sinto-me sempre feliz, sinto-me segura, estou rodeada de boas pessoas’. São algumas afirmações que eu fiz para mim própria”.
Aos mais de 5 mil seguidores no TikTok Rita passou a contar sobre as suas conquistas com a manifestação. Já há alguns meses que não produz mais conteúdos com este tema, mas garante que “até hoje ainda recebo todos os dias seguidores e comentários sobre todos esses vídeos. Porque as pessoas ficaram mesmo muito interessadas. Acho que as pessoas estão à procura de uma solução mágica que nos ajude hoje em dia a conseguir aquilo que nós queremos, e eu acho que a ‘lei da atração’ é incrível”. Os vídeos de Rita a dar dicas de manifestação somam mais de 100 mil visualizações, com os mais populares sendo os sobre como manifestar um novo relacionamento — e também aquele em que a jovem apresenta o livro com o qual aprendeu as principais técnicas.
@ritaserra222 O livro que mais me ensinou a manifestar!!! Aconselho muito muito ???????? #manifestacao #leidaatração #manifesta #atrairamor #manifestaramor #universo #manifestarrelacionamento #leidaatracaoamor #fyp #foryou #foryoupage ♬ som original - This is Ri
O guia trendy para aprender a manifestar
Em 2022 os feeds do Instagram foram tomados por um livro de capa laranja minimalista, que rapidamente chegou à lista de mais vendidos nos Estados Unidos. Manifesta: 7 passos para criares a vida que queres já vendeu mais de um milhão de cópias ao redor do mundo, graças também à popularidade que ganhou depois de ser visto debaixo do braço de figuras públicas como a modelo Bella Hadid. “É a minha ultimate girl crush. Amo a forma como é aberta sobre temas como a ansiedade e a saúde mental”, disse a autora, Roxie Nafousi, à British Vogue. Entretanto, a guru destaca: “Até o facto da Bella Hadid estar a segurar o meu livro é 100% fruto de eu ter manifestado aquele momento“.
Roxie explica que descobriu as técnicas de manifestação num momento em que estava “no fundo do poço”, e que escreveu o livro para “todas as pessoas”. “Permite com que possamos enfrentar os altos e baixos da vida com mais leveza. As coisas não serão sempre boas, mas quando aprendemos a manifestar estamos sempre capazes de encontrar um caminho para seguir em frente, não sair da rota, permanecer no poder”.
Com mais de 370 mil seguidores no Instagram, Roxie ensina técnicas para visualizar aquilo que se quer que aconteça. A coach e oradora motivacional diz frases como “finja até tornar-se”, e incentiva os seguidores a agir não de acordo com o que sentem mas conforme as suas “versões mais empoderadas” agiriam: “É como ter um alter ego”, explica. No final de 2024 Roxie lançou outro livro, ainda sem tradução em português: Confidence: 8 steps to knowing your worth. Além disso dá workshops e comanda um podcast sobre o tema, chamado “Rise”. No meio dos conteúdos sobre confiança e frases de afirmação, Roxie também promove produtos, como um diário baseado no seu bestseller, cartas com afirmações diárias, uma vela aromática para “empoderar e clarear as intenções” ou um shake proteico para “potenciar a confiança pós-treino”.
A febre d’O Segredo
Na altura do seu lançamento, Manifesta foi considerado uma resposta da geração millenial ao livro O Segredo, bestseller dos anos 2000 que vendeu mais de 35 milhões de cópias ao redor do mundo, e que potenciou o tema entre os mais influentes. Oprah Winfrey é uma das figuras públicas de maior prestígio internacional a defender o poder da manifestação. Numa entrevista para a divulgação do filme A Wrinkle in Time, em 2018, a apresentadora explicou como pratica. “É preciso alcançar a vibração certa, não se pode estar nem acima e nem abaixo, que é o que se fala sobre as energias positivas e negativas. Para atrair aquilo que se quer, não se pode querer tanto a um ponto de sentir que nunca o vai conseguir“, disse a apresentadora. “Tens de encontrar a vibração certa e aguardar, para estar pronto quando o momento chegar”.
Numa entrevista a Larry King em 2007, Oprah falou sobre como no início da carreira manifestou o desejo de estar no filme de Steven Spielberg A Cor Púrpura, o que se concretizou em 1984 e rendeu-lhe uma nomeação ao Óscar de Melhor Atriz Secundária. “Acho que é muito verdade que a forma como pensamos cria a nossa realidade”, disse a apresentadora, que começou a falar mais abertamente sobre o tema em 2006, quando o assunto se tornou numa febre com o lançamento do documentário seguido do livro da australiana Rhonda Byrnes.
O filme O Segredo junta 55 profissionais — entre os quais filósofos, especialistas em metafísica, consultores financeiros, escritores e empreendedores — que falam do potencial poder da “lei da atração”. Rhonda Byrne diz ter tido o primeiro contacto com a teoria através do livro A Ciência de Ficar Rico, publicado em 1910 pelo escritor norte-americano Wallace D. Wattles, um dos principais nomes do movimento do Novo Pensamento, uma corrente filosófica e espiritual que surgiu no final do século XIX. “Voltei atrás na história, ao ler cada um dos livros escritos pelos maiores, juntando cada peça do segredo. Queria levar este conhecimento ao mundo”, diz a autora. “Comecei a pesquisar as pessoas vivas que sabiam o segredo. Em poucas semanas descobri os praticantes modernos”, diz, para justificar o elenco escolhido para o filme.
O autor canadiano Bob Proctor, que morreu em 2022, é um dos especialistas mais conhecidos que participou no documentário. O guru do desenvolvimento pessoal afirma que em 1961 recebeu o livro Pense e Fique Rico, de Napoleon Hill, um dos pioneiros dos ideais do Novo Pensamento dentro do género da auto-ajuda, e desde então mudou a sua forma de pensar. “Meus rendimentos foram de 4 mil a 175 mil dólares por ano e depois passaram de um milhão”, diz, num dos vídeos do seu canal no Youtube, no qual explica, literalmente com um desenho, as bases da “lei da atração”.
Com caneta na mão e um papel em branco, Proctor afirma que tudo está em constante vibração. Depois, faz um grande círculo para representar a cabeça e um menor que será o corpo, divide a mente em consciência e subconsciente e explica que este último foi programado na infância, contém informações e hábitos e é chamado paradigma. Para Proctor, o nosso subconsciente atrai energias na mesma frequência vibracional que emana. Portanto, defende que é este paradigma que é preciso mudar para conquistar aquilo que se deseja. “Aquilo que pensamos, imprimimos no nosso subconsciente, que controla a vibração do nosso corpo. E é isto que dita como agimos e também o que atraímos. Vamos atrair energias e pessoas que harmonizam connosco“, diz, no vídeo. “O que queremos é programar as informações positivas e eliminar as negativas”, afirma Proctor.
Programar a mente
A ideia citada por Bob Proctor de programar aquilo que está no nosso subconsciente faz lembrar as técnicas de Programação Neurolinguística, ou PNL, apesar desta ter uma origem e um conceito bastante diferentes da “lei da atração”. Criada na década de 1970 na Universidade da Califórnia em Santa Cruz, a partir dos estudos do estudante de computação e psicologia Richard Bandler, do estudante de psicologia Frank Pucelik e do professor de linguística John Grinder, a PNL tem como objetivo promover e modificar padrões de pensamento e comportamento, melhorar a comunicação e assim alcançar metas. Entre aqueles que procuram os cursos e formações estão pessoas em busca de desenvolvimento pessoal, autoconhecimento, superação de traumas e melhoria na forma como lidam com o trabalho, assim como profissionais em cargos de liderança ou que já atuam nas áreas de coaching e psicologia. Além disso, a PNL é amplamente utilizada em workshops empresariais.
“É um estudo da experiência subjetiva e da forma como esta experiência, de cada um de nós, acaba por influenciar o nosso pensamento e comportamento. Nascendo da modelagem da excelência humana, a PNL desenvolveu um conjunto de técnicas e ferramentas que nos permitem entender melhor os processos de pensamento, o uso que fazemos da linguagem e a forma como esta afeta o que pensamos, os padrões de comportamento e os resultados que obtemos. Aquilo que dizemos para nós influencia a forma como nos vamos sentir e a forma como vamos agir“, explica ao Observador Maria Manuel Mendes, coach e trainer de PNL. A especialista reconhece que algumas práticas da manifestação utilizam técnicas “aparentemente semelhantes às utilizadas em PNL”, nomeadamente as técnicas de visualização e as frases afirmativas, mas afirma que o objetivo é outro. “Quando fazemos um processo de ancoragem — entre um estímulo e um estado emocional — há um momento em que vamos ver, ouvir e sentir um determinado momento da nossa vida, acedendo ao respetivo estado emocional, como a confiança, como se fosse agora. No decorrer do processo de instalação de objetivos do futuro também visualizamos o momento após a concretização do objetivo com sucesso. Mas os objetivos são distintos. São de capacitar a pessoa para a sua ação, autonomia e autoconhecimento, aprendendo a ativar os seus recursos internos, desbloqueando crenças, conhecendo os seus valores. Permite ainda trabalhar a comunicação e a relação com os outros, entre muitas outras coisas”.
Maria Manuel Mendes apresenta, no entanto, uma explicação para os resultados que algumas pessoas dizem alcançar com a manifestação: “Os pensamentos influenciam o estado emocional e a fisiologia, que por sua vez impacta o comportamento, logo a qualidade dos pensamentos é importante. Vamos imaginar o caso de um atleta: ‘O adversário é melhor do que eu, eu nunca o venci’. Este pensamento vai condicionar a ação do atleta, impactando, por exemplo, a sua potência no jogo.” A especialista também faz a ressalva: “Há que ter cuidado pois, por vezes, criam-se ilusões e expectativas de que as coisas acontecem de forma fácil”. A especialista em PNL, que também é licenciada em Ciências Psicológicas e está a terminar o Mestrado em Psicologia Clínica, considera ainda “extremamente importante a capacitação da pessoa através de metodologias fundamentadas. Acredito que com um bom processo de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal cada pessoa pode ter mais controlo sobre a sua vida e alcançar o que deseja.”
Efeito placebo psicológico
A psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva, autora do livro Síndrome da Impostora, considera que “estratégias como afirmações realistas, visualização de objetivos e gratidão estão associadas a níveis mais elevados de bem-estar, menor ansiedade e maior resiliência“. A especialista explica que tais técnicas, usadas pelas praticantes da manifestação, “atuam, em parte, como gatilhos mentais que reforçam o foco, a motivação e a autorregulação. É como afinar uma bússola interna: ao repetirmos visualmente ou verbalmente os nossos objetivos, estamos a aumentar a probabilidade de ver oportunidades relacionadas com eles — um fenómeno conhecido na psicologia como ‘priming cognitivo'”. Além disso, a psicóloga destaca que “entra em jogo o efeito placebo psicológico: quando acreditamos profundamente numa ideia, o nosso cérebro começa a alinhar comportamentos com essa expectativa, criando mudanças reais”.
A especialista considera que “todos nós, em maior ou menor grau, somos vulneráveis à promessa de um caminho mais simples para alcançar o que desejamos”, mas destaca que há perfis mais suscetíveis: “Pessoas que estão a viver momentos de incerteza, transição ou fragilidade emocional tendem a procurar narrativas que devolvam uma sensação de controlo. A ‘lei da atração’ oferece precisamente isso: a ilusão reconfortante de que ‘se eu pensar de forma certa, tudo o que desejo vem até mim’”. Contudo, Filipa Jardim da Silva alerta que “é importante distinguir entre otimismo realista e positividade tóxica. Se estas práticas nos ajudam a agir com mais clareza, ótimo. Mas se servem para negar ou evitar emoções difíceis ou colocar a culpa do sofrimento em quem sofre, como a ideia de que ‘atraíste isso para ti’, tornam-se armadilhas emocionais.”
Outro risco, de acordo com a especialista, é o da “desresponsabilização de fatores estruturais — como a desigualdade, o trauma ou o acesso a cuidados de saúde — em nome de uma crença de que basta alinhar os pensamentos”. A psicóloga defende que “manifestar pode ser uma bússola, mas não substitui o mapa”. “Diria que o desafio está em transformar estas práticas em complementos de autoconhecimento, e não em substitutos ou escapes de alienação da realidade.”