“Todos o querem, ao novo Papa, e todos projetam nele desejos, esperanças e projetos. Robert Francis Prevost é bispo de Roma há apenas cinco dias e já chovem sugestões de viagens aos cinco cantos do mundo.” A frase do jornal italiano Le Repubblica sintetiza bem o que têm sido os primeiros dias de Leão XIV como chefe da Igreja Católica — e podia aplicar-se, na verdade, aos dias inaugurais de qualquer Papa, em que abundam os pedidos para que visite este ou aquele país.

Sobre o calendário dos primeiros meses do Papa Leão XIV ainda há pouca informação. As primeiras semanas, como habitualmente, serão marcadas pelos muitos ritos iniciais do pontificado, que incluem a missa inaugural (no próximo domingo) e a tomada de posse das várias basílicas papais em Roma (ao longo das próximas duas semanas). Tudo indica, por outro lado, que a primeira viagem internacional do primeiro Papa norte-americano seja à Turquia, dando seguimento a uma visita já prometida pelo Papa Francisco com o objetivo de assinalar, com o patriarca ortodoxo Bartolomeu I, os 1.700 anos do Concílio de Niceia. Além disso, o Vaticano limitou-se, para já, a confirmar o calendário das celebrações litúrgicas de Leão XIV para o mês de maio.

Porém, na imprensa internacional, multiplicam-se as especulações sobre os destinos das primeiros viagens internacionais de Leão XIV, que serão necessariamente lidas como sinais das prioridades do pontificado: países como a Ucrânia (com cujo Presidente o novo Papa já teve um telefonema) ou o Peru (onde Robert Francis Prevost passou uma grande parte da sua vida como bispo) parecem estar em cima da mesa, enquanto uma visita aos Estados Unidos, o seu país-natal, foi afastada pelo próprio Leão XIV como estando entre as primeiras prioridades.

Na cabeça de muitos portugueses, contudo, estará outra pergunta: e Fátima? De facto, Fátima — um dos mais importantes santuários marianos do mundo e com uma relação muito especial com a figura do Papa — tem sido um dos destinos preferidos dos Papas. Desde Paulo VI, que foi o primeiro pontífice a visitar Fátima (1967), todos os seus sucessores visitaram Fátima pelo menos uma vez, à exceção de João Paulo I, cujo pontificado de um mês não permitiu qualquer viagem. João Paulo II visitou Fátima três vezes (1982, 1991 e 2000), Bento XVI visitou uma vez (2010) e Francisco esteve duas vezes no santuário (2017 e 2023).

Cardeal António Marto reiterou convite logo após eleição de Leão XIV

Embora não haja ainda qualquer confirmação oficial nesse sentido, uma visita de Leão XIV ao Santuário de Fátima pode, realmente, estar para breve. Em alguma imprensa italiana, esta terça-feira, já se especulava que Fátima poderia vir a ser o destino da segunda viagem internacional do novo Papa.

O que é certo é que o convite já está feito, como revelou o cardeal António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima e um dos homens que elegeram Robert Francis Prevost como Papa no conclave da semana passada. Logo no dia seguinte ao conclave, três dos quatro cardeais portugueses que participaram conclave (António Marto, Manuel Clemente e Américo Aguiar) estiveram no Pontifício Colégio Português, em Roma, para partilhar com a imprensa portuguesa o que aconteceu dentro da Capela Sistina — ou, pelo menos, o que puderam partilhar sem quebrar o sigilo do conclave.

António Marto lembrou que, durante aqueles dias no Vaticano, conseguiu testemunhar como o cardeal Prevost deixava “transparecer a sua devoção a Maria”. O cardeal português de 78 anos recordou um episódio concreto: “Antes ainda da eleição, estávamos à mesa com um conjunto de bispos sul-americanos, que estavam a falar da devoção a Nossa Senhora na América Latina. Do primeiro santuário, que era de Guadalupe, depois a seguir Aparecida, e depois a seguir um no Peru. Ele falou dessa devoção do povo — e ele mesmo deixa transparecer essa devoção a Maria.”

O cardeal Marto — que lembrou também como no primeiro dia do conclave, após uma primeira votação em que “já se via mais ou menos o endereço das coisas”, deu um abraço de consolo ao cardeal Prevost — revelou aos jornalistas portugueses as primeiras palavras que dirigiu ao novo Papa, quando o foi cumprimentar minutos depois da eleição: “Com os meus votos de felicidade, trago também os votos de todos os peregrinos de Fátima, onde se reza pelo Papa. Portanto, também vamos rezar por si e esperamos, no momento oportuno, uma visita sua.”

Antes deste convite espontâneo de António Marto, o cardeal Robert Francis Prevost, na sua qualidade de prefeito do Dicastério para os Bispos, já tinha sido convidado para estar presente em Fátima. Habitualmente, para as principais peregrinações do ano — 12 e 13 de maio e de outubro —, o Santuário de Fátima convida bispos e cardeais de todo o mundo para presidir às conhecidas celebrações, que incluem a procissão das velas na noite de dia 12 e a missa da manhã de dia 13.

Esta semana, o cardeal brasileiro Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, viajou diretamente de Roma para Fátima para presidir às celebrações de 12 e 13 de maio. Contudo, como revelou o bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, aos jornalistas em Fátima na segunda-feira, Spengler foi assumidamente um plano B. “Posso revelar que o atual Papa Leão XIV foi a primeira escolha para presidir a esta celebração”, afirmou Ornelas. “E ele disse que sim, com muito gosto, mas disse ‘tenho de ir ver a minha agenda.'” Entretanto, a agenda mudou radicalmente.

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Na conferência de imprensa em Fátima, Ornelas revelou que já tinha convidado duas vezes o cardeal Prevost para presidir a uma das peregrinações internacionais de maio ou de outubro, mas nunca foi possível compatibilizar as agendas. “Ele manifestou, das duas vezes, um grande gosto de estar cá. Esperemos que venha a ser possível a sua vinda, numa outra ocasião, e nós também vamos alegrar-nos muito com a alegria dele de vir cá”, disse o bispo de Leiria-Fátima. “Ele é um homem muito próximo e muito acessível. Portanto, vamos encontrar uma maneira de lá chegar.”

José Ornelas agradeceu ainda o facto de António Marto ter feito “espontaneamente” um convite a Leão XIV para visitar Fátima. “Concordo e agradeço-lhe que tenha posto isso na agenda do Papa, pelo menos na agenda do pensamento”, disse o bispo, confirmando que pretende oficializar esse convite em breve.

Por seu turno, o reitor do Santuário de Fátima, o padre Carlos Cabecinhas, também já manifestou publicamente o seu desejo de receber Leão XIV em Fátima. “Um dos aspetos fundamentais de Fátima é esta comunhão com o Papa. Por isso, Leão XIV agora é o nosso Papa, aquele a quem estamos unidos. É minha convicção que este homem, que tinha sido escolhido pelo Papa Francisco para tarefas dentro da Igreja, continuará aquilo que foi o pontificado que o antecedeu, o pontificado do Papa Francisco. Um homem atento às dores e às feridas da Igreja e do mundo em que vivemos”, disse o responsável. “Por outro lado, este momento é também o momento para desejarmos que ele possa visitar Fátima. Alguns dos cardeais de quem se falava já estiveram em Fátima. O cardeal Prevost, agora Leão XIV, não esteve. Por isso, o meu grande desejo é que ele possa visitar este santuário, fazer a experiência de oração neste santuário e experimentar aqui a força da oração dos peregrinos pelo Santo Padre.”

O próprio Papa Leão XIV já se pronunciou pessoalmente sobre esta possibilidade. Na segunda-feira, numa audiência aos jornalistas de todo o mundo que estiveram em Roma a cobrir o conclave, o novo Papa cumprimentou um conjunto de jornalistas sentados nas primeiras filas da Aula Paulo VI, incluindo a vaticanista portuguesa Aura Miguel, da Rádio Renascença. Numa interação de alguns segundos, a jornalista recordou a Leão XIV que no dia seguinte, 13 de maio, se assinalava o dia de Nossa Senhora de Fátima, ao que o Papa respondeu: “Sim, o cardeal Prevost tinha previsto ir [a Fátima], mas os planos mudaram.”

A julgar pela história das últimas décadas e pelas declarações dos últimos dias, uma visita do Papa Leão XIV a Fátima será praticamente uma inevitabilidade. Resta saber quando acontecerá. Nas últimas décadas, praticamente todas as viagens papais a Fátima aconteceram por ocasião de algum acontecimento especial: Paulo VI esteve em Fátima pelos 50 anos das aparições; João Paulo II visitou Fátima para agradecer ter sobrevivido a um atentado em Roma a 13 de maio, pelo décimo aniversário desse atentado e, em 2000, para presidir à beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta; Bento XVI passou por Fátima no décimo aniversário dessa beatificação; já Francisco esteve no santuário em 2017, no culminar das celebrações do centenário das aparições e para canonizar os pastorinhos.

A única visita papal a Fátima da história que não aconteceu num 13 de maio foi a de Francisco em 2023, que estava em Portugal em agosto a propósito da Jornada Mundial da Juventude.

Olhando para o futuro próximo, há pelo menos uma data que pode afigurar-se como propícia a uma visita papal: maio de 2027, pelos 110 anos das aparições. Por outro lado, continua em andamento o processo de beatificação da irmã Lúcia. Depois de, no verão de 2023, ter sido promulgado pelo Papa Francisco o decreto que reconheceu as virtudes heroicas de Lúcia de Jesus, a Igreja Católica está atualmente no processo de investigar e reconhecer um eventual milagre que seja atribuído à intercessão da irmã Lúcia. Se for aprovado, a beatificação da irmã Lúcia poderá ser o momento para uma visita do Papa Leão XIV a Portugal.