A primeira viagem internacional do Papa Leão XIV poderá ter como destino a Turquia, dando seguimento a uma viagem que já estava planeada pelo seu antecessor, o Papa Francisco, com o objetivo de assinalar os 1.700 anos do Concílio de Niceia, que se comemoram este ano.

Foi o próprio Leão XIV que, na manhã desta segunda-feira, depois de uma audiência com os jornalistas que estiveram em Roma para cobrir o conclave, confirmou a informação em resposta a uma pergunta sobre o assunto que lhe foi feita durante o momento dos cumprimentos. “Eu sei, estamos a prepará-la”, limitou-se a dizer o Papa, citado pelo Corriere della Sera.

Já desde o ano passado que era aguardada uma viagem do Papa à Turquia no verão de 2025 com o objetivo de assinalar os 1.700 anos do Concílio de Niceia, ocorrido no ano 325 na antiga cidade de Niceia, no Império Romano — correspondente à atual cidade turca de İznik.

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Em setembro de 2024, o patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu I, tinha confirmado que pretendia receber o Papa Francisco na Turquia em maio de 2025, para que os dois líderes assinalassem em conjunto a data. Dois meses depois, em novembro, o próprio Papa Francisco confirmou que pretendia realizar a viagem.

Depois disso, porém, a saúde do Papa Francisco agravou-se de tal modo — sobretudo com a longa hospitalização do pontífice entre fevereiro e março — que os planos para a viagem ficaram em suspenso. Com a morte de Francisco no final de abril, aos 88 anos de idade, e com a eleição de Leão XIV como seu sucessor, a viagem papal deverá agora avançar com um novo protagonista, embora ainda não tenha havido qualquer confirmação oficial por parte do Vaticano em relação à data, além da curta declaração do próprio Papa dando conta de que a viagem está a ser preparada.

O Concílio de Niceia, o primeiro concílio ecuménico da história do Cristianismo, é um dos mais importantes marcos históricos da religião cristã e uma etapa fundamental da consolidação do Cristianismo primitivo numa instituição organizada. Convocado pelo imperiador romano Constantino (o primeiro imperador a converter-se ao Cristianismo e a legalizar aquela religião, que até então era ainda clandestina), foi a primeira reunião magna dos líderes cristãos das várias comunidades dispersas pelos diferentes territórios — e procurou harmonizar as divisões que começavam a surgir no mundo cristão, ainda numa fase inicial de desenvolvimento e afirmação.

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Em Niceia, os líderes cristãos condenaram a heresia do arianismo, uma perspetiva promovida por Ário de Alexandria, que afirmava que o Filho tinha sido criado pelo Pai — em vez de, como acredita a Igreja, que o Filho era eterno como o Pai. (O Credo resultante daquele concílio e ainda hoje recitado pelos cristãos diz justamente, sobre Jesus Cristo, que foi “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”.)

Ocorrido ainda antes dos vários cismas e ruturas que haveriam de pontuar a história do Cristianismo (especialmente o Grande Cisma, do século XI, que dividiu o mundo cristão entre católicos e ortodoxos, e a Reforma Protestante, no século XVI), o Concílio de Niceia é hoje aceite pela generalidade dos ramos cristãos — razão pela qual a sua evocação é um importante aspeto do diálogo ecuménico e dos esforços das várias igrejas em relação à unidade dos cristãos.

Por essa razão, o plano inicial para as comemorações era justamente uma visita conjunta à antiga Niceia por parte do Papa e do patriarca ortodoxo de Constantinopla, o primus inter pares dos patriarcas da Igreja Ortodoxa.

Em novembro, o Papa Francisco manifestara, numa reunião com membros da Comissão Teológica Internacional (CTI), a sua intenção de visitar a antiga Niceia na companhia de Bartolomeu I para lembrar o concílio. Na ocasião, a CTI estava a preparar um documento sobre “o significado contemporâneo da fé professada em Niceia”.

“O Concílio de Niceia, ao afirmar que o Filho é da mesma substância que o Pai, sublinha algo essencial: em Jesus podemos conhecer o rosto de Deus e, ao mesmo tempo, também o rosto do homem, descobrindo-nos próprios filhos no Filho e irmãos entre nós”, disse Francisco na ocasião. “Hoje, de facto, num mundo complexo e frequentemente polarizado, tragicamente marcado pelo conflito e pela violência, o amor de Deus que é revelado em Cristo e nos é dado no Espírito torna-se um apelo para que todos aprendam a caminhar na fraternidade e sejam construtores de justiça e paz.”

Se, de acordo com a imprensa italiana, a agenda do Papa Francisco já apontava para uma data concreta (24 de maio) para esta viagem, a transição papal ocorrida no Vaticano nos últimos dias obrigou a fortes mudanças no calendário. Agora, a confirmar-se a viagem à Turquia (nesta ou noutra data), ela poderá ser a primeira viagem apostólica internacional de Leão XIV — e ajudar a definir também o tom do pontificado do novo Papa, que nas suas primeiras intervenções fez questão de frisar a importância da unidade.

O destino escolhido pelo Papa para a sua primeira viagem pode ser uma importante chave de leitura de um pontificado. Por exemplo, em 2013, o Papa Francisco escolheu a ilha de Lampedusa, então um símbolo do drama dos refugiados que procuravam cruzar o Mediterrâneo, para a sua primeira deslocação para fora de Roma. Na ocasião, Francisco deitou uma coroa de flores ao mar, dizendo estar a chorar os mortos que mais ninguém chorava. Ao longo do seu pontificado, a questão das migrações tornar-se-ia um dos temas mais presentes no seu discurso.