Mais um jogo da Serie A, mais uma partida em que o AC Milan começou em desvantagem, mais um encontro com vitória rossoneri na Serie A após reviravolta. Depois de muita instabilidade de resultados, a formação de Sérgio Conceição conseguiu finalmente estabilizar e somou pela primeira vez quatro vitórias seguidas que, a depender de terceiros, ainda abriam a possibilidade de entrada nas provas europeias da próxima temporada ainda que apenas por milagre na Liga dos Campeões. No entanto, e no final, o treinador português voltou a serenar ânimos, não só pela proximidade da final da Taça mas também pelo percurso ao longo da época.

Sérgio chegou, viu e escreveu uma história épica: AC Milan conquista Supertaça frente ao Inter com reviravolta de três golos

“Não fizemos um grande jogo. Ganhámos, é verdade, contra uma equipa difícil de defrontar. No início da segunda parte tentámos pressionar um pouco mais alto, levando golos, depois mudámos a nossa estrutura, fechando com um 4x4x2. Recebi uma boa resposta de quem entrou. Futuro? O Conceição não é importante aqui, o que conta é a equipa e ganhar o próximo jogo que vale um título. Um clube histórico como o AC Milan não se pode contentar com um nono lugar. Há frustração e desilusão da parte de todos. Estou habituado a algumas coisas, no momento certo falarei, esta não é a altura certa para falar de mim”, atirou depois do triunfo frente ao Bolonha em San Siro para a Serie A, num primeiro teste ao que podia ser a final da Taça.

Sérgio e o banco que vê na crise uma oportunidade: AC Milan vence Bolonha e consegue quarta vitória consecutiva (segunda com reviravolta)

Estava em jogo uma troféu, que no caso de Conceição poderia ser apenas o segundo em seis meses depois de se ter estreado com a conquista da Supertaça com triunfos frente à Juventus e ao Inter, estava em jogo uma qualificação europeia direta para a Liga Europa, estava em jogo um sem número de recordes negativos do AC Milan num passado recente, tendo em contra que não conquistava a prova desde 2002/03 sendo a equipa com mais finais perdidas (agora dez). “A época é feita de episódios e momentos. Será certamente um grande prazer se conseguirmos ganhar este troféu e dar alegria aos adeptos neste ano difícil. Como sabem, temos este troféu na cabeça. Lá fora parecemos zangados, mas não é esse o caso: temos o imenso prazer de jogar uma final e enfrentar esta bela equipa que é o Bolonha. Não há medo, há a adrenalina normal. O grupo está calmo mas sem tranquilidade porque estamos à espera de um jogo importante”, frisou na antecâmara.

A certa altura houve um puxar dos galões do técnico que regressava a um Olímpico de Roma onde foi muito feliz quando representou a Lazio e conquistou a Serie A nos tempos de jogador. “Tenho três Taças de Portugal… quatro, na verdade, mais três Campeonatos e uma Taça da Liga [mais três Supertaças, tudo no comando do FC Porto]. São situações em que queremos dar uma resposta positiva, não tem nada a ver com a competição e com o que ganhei: isso é passado, o jogo de amanhã é que é importante”, referiu. “Já tenho alguns jogos como treinador, já são 13 anos. Cada jogo tem a sua própria pressão e carga. Claro que as finais, os títulos, há sempre essa adrenalina. Não é que esteja mais ou menos calmo ou que tenha de pensar no que fazer à vossa frente. Sou o que sou. Parece que estamos zangados ou tensos mas não há medo, nem na vida, nem no desporto. Há um desejo de competir e de ir enfrentar o adversário. Há concentração, há este estado de espírito que todos os que querem ganhar têm”, reforçou, ainda a propósito da decisão com o Bolonha.

Foi muito difícil trabalhar nestes meses, vivemos de resultados. Este peso, esta pressão faz parte da história do AC Milan, é normal nos grandes clubes. Cada jogo tem a sua carga, a vontade de ganhar. Há sempre adrenalina mas é assim que me apresento, no desporto não há medo, há vontade de competir. Estamos num momento positivo e isso é normal porque o conhecimento da equipa e dos jogadores permite uma melhoria coletiva. Temos de dar o nosso melhor diante de uma equipa muito intensa, que será diferente da que defrontámos na Serie A”, apontara.

Por ser uma semana onde se comemorou em Itália o Dia da Mãe, num momento que é de tal forma relevado em território transalpino que esteve nas palavras iniciais do Papa Leão XIV este domingo, Sérgio Conceição mostrou também um lado mais pessoal à TV do clube, não escondendo a emoção ao falar dos pais: “Sou um dos oito filhos que ela teve e todos nós tínhamos um amor inexplicável. Não se pode pôr em palavras o que eu e os meus irmãos sentimos. Crescemos com muitas dificuldades. O pai era o único que trabalhava, a mãe tomava conta das crianças. Ela também trabalhava muito, com muito amor e carinho. Era o meu ponto de referência. Há momentos em que algumas pessoas são mais felizes do que outras mas mesmo nesses momentos há sempre um lado ligeiramente negro. Não estou totalmente feliz, sinto muito a falta dela”.

“Esta viagem que tive a nível familiar deu-me esta força… Quando tinha quatro anos perdi um irmão que tinha 12. Depois, o meu pai morreu quando eu tinha 15, quase 16 anos, e a minha mãe já tinha tido um AVC e ficou paralisada do lado esquerdo, não era uma pessoa independente. E no fim, eu, pequenino, porque os meus irmãos são mais velhos do que eu, tinha de fazer tudo pela minha mãe: ajudá-la em tudo, a tomar banho, a comer. Foram anos em que experimentei um amor maior, uma ligação que não consigo explicar por palavras o que significa. Em termos de dinheiro, não tínhamos nenhum, mas mesmo assim tínhamos um amor tão grande. Lembro-me de uma frase: ‘Quem tem mãe é rico e não sabe’. E é verdade”, salientou.

A entrevista teve um forte impacto mediático, pela forma crua como Sérgio Conceição abordou a infância e adolescência antes de passar da Académica para o FC Porto e mais tarde, em 1996, saltar para Itália, onde jogou na Lazio, no Parma e no Inter antes de voltar ao Dragão. No entanto, a vida parece não estar fácil para o técnico que, ao perder frente ao Bolonha, falhou a oportunidade de ser o primeiro a ganhar dois troféus pelo AC Milan na mesma temporada, algo que não acontece desde 2007/08 com Carlo Ancelotti.

Ao contrário do que aconteceu no recente encontro da Serie A, que teve poucos motivos de interesse até ao intervalo, a final começou com três grandes oportunidades de golo não concretizadas: Rafael Leão fez o que quis de dois adversários para Jiménez falhar sozinho na área de forma inexplicável (4′), Santi Castro obrigou Maignan a uma intervenção de recurso no seguimento de um livre lateral na direita (8′) e Skorupski tirou por duas vezes o golo certo aos rossoneri após uma perda de bola no primeiro terço com cruzamento tenso para um primeiro desvio de um defesa e depois a recarga de Jovic travada em cima da linha (10′). O AC Milan era a melhor equipa em campo, o Bolonha conseguiu reagir da melhor forma e, mesmo sem conseguir furar a bem organizada defensiva contrária, estava confortável no encontro que chegou a zero ao intervalo.

Tal como aconteceu em San Siro, a segunda parte começou praticamente com o golo do Bolonha: Ndoye ganhou uma sobra na área após uma boa entrada pelo meio de Freuler, deixou Tomori pelo caminho e atirou sem hipóteses para Maignan (53′). O AC Milan estava obrigado a mais uma reviravolta para lutar ainda pelo troféu e Sérgio Conceição voltou a apostar nos mesmos três jogadores que tinham sido lançados na partida do Campeonato com Kyle Walker, João Félix e Santi Giménez para jogo. A aposta foi a mesma, os resultados foram diferentes e o Bolonha foi mostrando outra capacidade para travar a tentativa de resposta do conjunto rossoneri, que tentava mais com o coração do que com a cabeça mas sem grande perigo. Se antes houve um sem números de nomes para suceder a Sérgio Conceição, agora a tendência será para aumentar e a continuidade do português fica mais em risco depois de muito provavelmente falhar o acesso à Champions. Já Vincenzo Italiano conseguiu levar o Bolonha ao primeiro grande troféu… cinco décadas depois.