De um lado, a possibilidade de fazer história. Do outro, a vontade de tornar uma temporada péssima numa temporada menos má. Crystal Palace e Manchester City cruzavam-se na final da Taça de Inglaterra, na discussão do último troféu interno da temporada, e a motivação de uns estava muito longe da motivação dos outros.

De forma natural, o Crystal Palace entrava em euforia em Wembley. Depois de afastar Fulham e Aston Villa pelo caminho, essencialmente, a equipa de Londres procurava terminar um jejum de 31 anos sem conquistar qualquer troféu: a última vez foi em 1994, quando venceu o Championship, sendo que em 2015/16 perdeu a final da Taça de Inglaterra para o Manchester United. Para isso, inspirava-se no Newcastle, no Go Ahead Eagles ou até no Bolonha, clubes que recentemente encerraram longos períodos de décadas sem festejar em Inglaterra, Países Baixos ou Itália.

“Aquilo de que falamos sempre no balneário é a certeza de que não podemos mudar a nossa abordagem ao jogo, mesmo se o Manchester City for visto como Golias e nós formos David. Temos sempre hipóteses de ganhar um jogo e essa é a nossa abordagem. É isso que queremos fazer, desde o primeiro dia: entrar dentro de campo e tentar ganhar o jogo. Seja qual for o adversário, seja quem estiver do outro lado, temos de ser nós mesmos e mostrar as nossas forças. Acho que podemos ganhar se mostrarmos as nossas forças”, explicou Oliver Glasner, treinador austríaco que chegou aos londrinos em fevereiro do ano passado.

No Manchester City, a necessidade de conquistar a Taça de Inglaterra era óbvia depois de uma temporada onde ainda luta pelo apuramento para a Liga dos Campeões através da Premier League e não foi além dos playoffs de acesso aos oitavos de final da última edição da principal competição europeia. Pep Guardiola deixava bem claro que festejar em Wembley não salvava uma época que foi um falhanço — mas era uma espécie de penso rápido.

“Claro que a Taça não seria a nossa primeira escolha na hora de conquistar um troféu. Nada é suficiente. Mas claro que queremos ganhar. Agora que aqui estamos, queremos levantar o troféu. Estamos desiludidos com as nossas exibições esta temporada, mas tenho a certeza de que vamos estar bem e competir na final. Claro que é importante”, indicou o treinador espanhol, que disputava a terceira final consecutiva, sendo que venceu o Manchester United em 2023 e perdeu para os red devils na época passada.

Assim, neste contexto, Oliver Glasner lançava Ismaila Sarr e Eberechi Eze no apoio a Mateta, com Adam Wharton e Kamada a surgirem no meio-campo, e deixava Ben Chilwell e Eddie Nketiah no banco. Já Pep Guardiola apostava em Kevin De Bruyne, que cumpria um dos últimos jogos pelos citizens, e tinha Jérémy Doku, Marmoush e Savinho nas costas de Haaland, sendo que Bernardo Silva e Rúben Dias eram titulares e Matheus Nunes era suplente.

Apesar de o Manchester City ter dominado de forma clara durante o quarto de hora inicial, acabou por ser o Crystal Palace a abrir o marcador e a colocar-se em vantagem em Wembley. Numa transição muito rápida da equipa de Londres, Daniel Muñoz apareceu a desequilibrar na direita e cruzou para a área, onde Eze surgiu a rematar de primeira para bater Stefan Ortega (16′). 

Pouco depois da meia-hora, Bernardo foi carregado em falta por Tyrick Mitchell no interior da grande área do Crystal Palace e Marmoush, na conversão da grande penalidade, permitiu a defesa de Dean Henderson e desperdiçou uma enorme oportunidade para empatar (36′). Ao intervalo, de forma teoricamente surpreendente, o Manchester City estava a perder a final da Taça de Inglaterra em Wembley.

Nenhum dos treinadores fez alterações no início da segunda parte e os citizens assumiram o controlo das ocorrências, de forma natural, com o Crystal Palace a preocupar-se mais com a proteção da vantagem do que propriamente em aumentá-la. Ainda assim, a equipa de Pep Guardiola não conseguia criar oportunidades com frequência e não estava a asfixiar o adversário, com o relógio a avançar sem que o resultado se alterasse.

O cenário ia ficando ainda mais negro para o City à passagem da hora de jogo, quando Daniel Muñoz bateu Stefan Ortega na sequência de um canto na direita, mas o lance foi anulado por fora de jogo de Sarr (58′). Oliver Glasner foi forçado a mexer logo a seguir, com o capitão Marc Guéhi a sair em dificuldades físicas para dar lugar a Jefferson Lerma, e Pep Guardiola fez as primeiras substituições já dentro do último quarto de hora para lançar Phil Foden e Claudio Echeverri, que se estreou na equipa principal.

Até ao fim e mesmo com dez minutos de descontos, porém, já nada mudou. O Crystal Palace venceu o Manchester City em Wembley e conquistou a Taça de Inglaterra pela primeira vez e à terceira tentativa, encerrando um jejum de mais de 30 anos sem troféus e garantindo presença na Liga Europa da próxima época. Já os citizens terminaram a temporada sem qualquer alegria e depois de 90 minutos que pareceram uma espécie de metáfora para o fim assumido e confirmado de uma era.