Foi um ponto poucas vezes falado, é um ponto que hoje faz sentido invocar. Sendo verdade que o Sporting tinha de fazer algo perante a experiência falhada com João Pereira no comando da equipa depois da saída de Ruben Amorim, e que entre os técnicos portugueses Rui Borges estava a fazer uma campanha interessante pelo V. Guimarães sobretudo na Liga Conferência, o treinador assumiu um enorme risco com a vinda para Alvalade. O contexto não era fácil, o currículo também não era propriamente o maior, o calendário que tinha pela frente não fazia adivinhar facilidades. No entanto, e naqueles dias antes do Natal, o antigo líder dos minhotos não hesitou. Sentiu-se honrado pelo convite, sentiu-se valorizado quando soube que os leões iriam pagar mais de quatro milhões de passar pela rescisão de contrato. Quase seis meses depois, valeu a pena.

O campeão é como ele, pode não ser mas basta estar (a crónica do Sporting-V. Guimarães)

Tendo ainda uma herança pesada que ficou de Ruben Amorim, não só de resultados mas também da própria forma de comunicar para dentro e para fora, Rui Borges não é um treinador que tenha uma boa imprensa (até pelo contrário) mas foi resistindo aos vários contratempos que enfrentou para vingar naquele que era o seu grande objetivo. Superou a perda da Taça da Liga, fintou uma campanha europeia que ficou curta, passou uma onda de lesões anormal em qualquer plantel profissional de futebol, deixou a equipa sempre a depender apenas de si no Campeonato mesmo quando não estava em primeiro. No final, isso fez toda a diferença.

Nas primeiras palavras como campeão, o treinador que passou por Mirandela, Moreirense e V. Guimarães até chegar ao Sporting mostrou-se bem mais emotivo do que é habitual, valorizando a campanha feita em termos de Campeonato onde não consentiu qualquer derrota desde que chegou a Alvalade entre 13 vitórias e seis empates que no final foram suficientes para fazer a festa do bicampeonato 71 anos depois.

“É indescritível. Disse, desde o dia em que cheguei aqui, e quando perdi a Taça da Liga, que é muita crença. Tem sido esse o caminho da equipa técnica, acreditar sempre. É o culminar de um grande trabalho, grupo e staff. Toda a gente da estrutura, da Academia, desde a malta que liga a rega, à malta da cantina, toda a gente. Os seguranças são fantásticos. Este grupo merecia muito. Acreditou sempre, mesmo perante todas as dificuldades. O grupo manteve-se unido, coeso, a acreditar. E o acreditar deste grupo só podia acabar assim”, começou por dizer Rui Borges, ainda na zona de entrevistas rápidas da SportTV.

“Se era tudo o que tinha idealizado? Claramente que sim. Desde que falei com o presidente no primeiro momento, acreditei muito. Era o concretizar de um sonho, um caminho onde trabalhámos. Chegámos aqui pelo trabalho, pela resiliência, pela competência. Uma equipa técnica completamente desconhecida. Não fui um grande jogador, não estudei… Sou só o Rui Borges, deram-nos oportunidades pelo trabalho. É o culminar de um sonho e agora é levantar a cabeça e seguir. Há mais um troféu para disputar. É uma mistura de emoções mas não poderia estar mais feliz. E a felicidade deles, acima de tudo, é o que me deixa mais feliz”, prosseguiu o técnico, antes de recuar até às raízes em Mirandela até ao topo do Campeonato.

“Nunca olhámos para o que o futebol dá em termos de dinheiro. Somos uns sortudos. É mesmo a felicidade de fazer o que gostamos, a ambição de chegar aqui. Quero deixar um beijo aos meus pais, à minha mulher, ao meu filho e família. O meu maior desejo era que os meus pais se sentissem orgulhosos do filho. Infelizmente não estão cá. É um grupo inacreditável. Pessoas de outros clubes a querer torcer por alguém que é da terra. Para mim, é o maior troféu que posso ter. O reconhecimento dos que sofreram connosco, batalharam connosco. Sou apenas o Rui Borges de Mirandela, um rapaz que acreditou num sonho e foi trilhando o seu caminho com mérito, competência e trabalho”, destacou o treinador, que foi o terceiro da temporada.

“Difícil é sempre, seja em que aspeto e momento for. As pedras fazem parte do caminho e temos de saber lutar com elas. Quero deixar um abraço ao João e ao Ruben, fazem parte desta vitória e deste Campeonato. Fizeram por isso e são merecedores. Jamais olharia para esta oportunidade como uma forma de ter problemas. Olhei para ela com a maior felicidade do mundo. O culminar de um trabalho desde baixo. A maior felicidade que tenho é treinar o Sporting. Alguma vez os problemas que iam aparecendo iam travar o nosso desejo? Digo muito que é difícil travar quem nasceu para vencer. E eu venci, vou vencendo todos os dias. Dobradinha? Agora é desfrutar e aproveitar, depois vemos o jogo da Taça de Portugal…”.