A contagem dos votos de 20 círculos eleitorais terminou por volta das 23h30 deste domingo (22h30 nos Açores). Mas dois círculos permanecem por apurar: da Europa e fora da Europa. E este ano, os quatro deputados do círculo da emigração serão essenciais para determinar a segunda força política que se irá sentar na Assembleia da República durante a próxima legislatura — e a principal oposição à AD, que, tal como pediu, saiu desta noite com uma “maioria reforçada”.

PS e Chega terminaram a noite eleitoral empatados, com 58 deputados eleitos cada um. Os socialistas aproximaram-se do pior resultado de sempre — os 57 deputados conquistados nas legislativas de 1985, ano em que no Parlamento se sentavam 250 deputados e não 230. Já a extrema-direita alcançou o melhor resultado de sempre e bateu o recorde de 50 deputados estabelecido há pouco mais de um ano.

Nos próximos dias serão contabilizados os votos dos cidadãos que votam no estrangeiro e que podem votar de forma presencial nas embaixadas e consulados ou por correio. O círculo da Europa escolhe dois lugares no Parlamento, o círculo fora da Europa, outros dois. Em 2024, o Chega conquistou um lugar na Europa, o PS o outro. O Chega conseguiu também um lugar no círculo fora da Europa — o outro, ficou entregue à AD. Foi a primeira vez neste século que um partido que não o PS ou o PSD (ou uma coligação liderada pelo PSD) conseguiu eleger nos círculos da emigração.

Se o cenário de 2024 se repetir, o Chega ficará em segundo lugar, com 60 deputados e o PS em terceiro, com 59. A margem mínima seria suficiente para pôr fim à preponderância dos dois partidos do centro no sistema político português durante os 51 anos de democracia. André Ventura dá como certo o segundo lugar: “O Chega superou o partido de Mário Soares. O Chega superou o partido de António Guterres. Matou o partido de Álvaro Cunhal e varreu do mapa o Bloco de Esquerda.”

A chegada da extrema-direita a segunda força política não seria a única estreia do Chega nestas eleições. Depois de ter vencido pela primeira vez um círculo eleitoral, em 2024 — o de Faro –, este domingo repetiu o feito e juntou à lista Portalegre, Setúbal e Beja. O Alentejo, que outrora foi um bastião da esquerda — particularmente dos comunistas — é agora domínio do Chega. No centro da região, permanece o único distrito que o PS conseguiu vencer: Évora.

A norte do Tejo, o país inteiro pintou-se de laranja — a AD conseguiu virar todos os distritos em que o PS saía tradicionalmente vencedor. O reforço da votação da AD deu-lhe 86 mandatos, mais nove do que no ano passado. À direita, a IL também saiu a ganhar, ao passar de oito para nove deputados e com mais oito mil votos. No entanto, mesmo num cenário de acordo entre a direita moderada, a maioria não é suficiente para governar.

Já a esquerda permanece sem números para uma solução de governação — o PS caiu de 76 para 58 lugares e à sua esquerda só o Livre aumentou a bancada parlamentar, de quatro para seis deputados. A CDU perdeu um deputado e ficou com três lugares no Parlamento. O Bloco de Esquerda deu uma queda ainda maior e, de cinco mandatos, ficou reduzido a uma deputada única, a coordenadora Mariana Mortágua.

O Bloco tem agora o mesmo número de deputados que o PAN — que mantém a porta-voz, Inês Sousa Real — e o JPP — a estreia na Assembleia –, dois partidos que afirmaram durante a campanha que estariam disponíveis para apoiar soluções tanto à esquerda como à direita, dependendo dos resultados. Mas com o Chega a bloquear soluções tanto entre a direita moderada como à esquerda, o peso de dois deputados únicos para solução de governação é bastante reduzido.