As autarquias de Alcácer do Sal e de Grândola pronunciaram-se contra o projeto de exploração de cobre da Lagoa Salgada que abrange cerca de sete mil hectares, integrados na freguesia do Torrão e na união de freguesias de Grândola e Santa Margarida da Serra. O projeto colocado em consulta pública prevê a exploração subterrânea de depósitos polimetálicos, permitindo a produção de concentrados ricos em metais base e preciosos, com grande interesse económico como o cobre, o zinco e o chumbo, e numa fase secundária prata, ouro e estanho.

A ameaça sobre os recursos hídricos é a principal luz vermelha sinalizada nos pareceres emitidos pelas duas câmaras do litoral alentejano. O projeto é ainda alvo de duras críticas por parte da associação ambientalista Zero que considera incompreensível a atribuição do estatuto PIN a uma exploração mineira com uma vida útil expetável de apenas 11 anos, dada a existência de impactos ambientais, sociais gravosos. A Zero denuncia a utilização prevista de “cianeto de sódio (uma substância altamente tóxica) no processamento do ouro” que é justificada com o argumento de que as outras alternativas no mercado inviabilizam o projeto do ponto de vista técnico e económico.

Recursos hídricos em perigo com projeto de mina em Grândola e Alcácer do Sal

O promotor do projeto mineiro é a RedCorp, uma subsidiária da Ascendant Resources, empresa canadiana cotada na bolsa de Toronto que em 2021 assinou um contrato de concessão com Estado. O projeto Lagoa Salgada ganhou o estatuto de PIN (potencial interesse nacional) em 2022 e representa um investimento de quase 200 milhões de euros (196 milhões de euros).

A produção estimada é de 5.489 toneladas diárias de mínimo para uma vida útil de 11 anos, após uma fase de construção de dois anos, a iniciar-se em 2026. O projeto prevê a criação de 300 postos de trabalho diretos e mais 700 empregos indiretos e um valor de exportações anuais de 111 milhões de euros, além do pagamento de royalties ao Estado.

A área estudada está enquadrada na região hidrográfica do Sado e Mira e em matéria de recursos hídricos subterrâneos localiza-se na unidade hidrogeológica da Bacia do Tejo-Sado. Está prevista uma ligação por conduta à albufeira de Vale de Gaio, mas o abastecimento de água para fins industriais terá origem exclusivamente na água subterrânea, sem recurso a fontes externas que circulará num circuito fechado, sendo compensadas eventuais perdas através do encaminhamento de água tratada.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Os trabalhos para o desenvolvimento da mina incluem escavações e aterros necessários à abertura do portal da mina (com recurso a explosões controladas), lavaria, barragem de rejeitados e acessos rodoviários — um dos impactos estimados é a circulação de 30 camiões por dia — o projeto prevê ainda a instalação de um parque de painéis fotovoltaicos com uma potência de 34,8 megawatts (MW) para autoconsumo, com recurso a equipamento maioritariamente elétrico, e uso de biocombustíveis.

A área de intervenção estimada no estudo de impacte ambiental é maioritariamente ocupada por floresta, com destaque para o pinheiro manso distribuído por 118 hectares, seguido do sobreiro.

Para a associação Zero, este é mais um projeto que se junta a outros “que, de forma gradual, têm contribuído para a redução da área ocupada por sobreiros em Portugal”. O promotor propõe compensar os 32,54 hectares afetados com a plantação de 73 hectares na Herdade da Nogueirinha, além da beneficiação de mais 10 hectares, num compromisso de gestão por 20 anos, afirmando que o povoamento se manterá por cerca de 200 anos. Apesar de reconhecer os méritos desta compensação para a espécie, é uma medida
que só produzirá efeitos dentro de várias décadas, considera a Zero que questiona ainda a eficácia.

Outro dado sensível é a existência de charcas e zonas húmidas.

A qualidade e quantidade da água numa região fortemente afetada por secas é a grande preocupação manifestada pela Câmara de Alcácer que deu o parecer desfavorável no quadro do processo de avaliação de impacte ambiental. A autarquia destaca que as suas grandes preocupações “se prendem com os recursos hídricos, nomeadamente a manutenção da qualidade e quantidade da água atualmente disponível na área envolvente face aos impactes do futuro projeto e dos efeitos esperados das alterações climáticas” vincando que “o projeto não poderá colocar em causa o abastecimento de água para consumo humano”.

A autarquia de Grândola “considera que o projeto viola o plano diretor municipal, ao ignorar zonas protegidas pela estrutura ecológica municipal, ameaça recursos hídricos, coloca em causa a saúde pública, devido a poeiras, ruído e vibrações de explosões subterrâneas, destrói a biodiversidade e coloca em causa a qualidade de vida da população – principalmente a que reside nos aglomerados rurais de proximidade – cujo desenvolvimento fica, também, seriamente comprometido”.

Num comunicado emitido esta segunda-feira, a Zero alerta ainda para o fracionamento da avaliação de impacte ambiental que está em consulta pública e que exclui a linha de elétrica e a conduta de água.

Atualizado com comunicado da Zero.