E tudo a final da Taça de Portugal mudou. Até ao Jamor, ou até o Sporting conquistar a dobradinha com um triunfo por 3-1 no prolongamento num encontro em que o Benfica disparou para vários alvos por causa do desempenho da arbitragem, as relações entre os rivais lisboetas eram cordiais, com Frederico Varandas e Rui Costa a trocarem impressões de forma descontraída nos eventos públicos em que se cruzavam. Mais: apesar de não terem visto o dérbi do Campeonato na Luz lado a lado, com o líder dos leões a ficar num posto mais para cima da tribuna presidencial com outros dirigentes verde e brancos, mantinham essa ligação em prol do futebol português que apenas colocava os rivais em fações opostas no campo. Agora, a realidade mudou.
Olhando para 2025, que chegava com esse acordo tácito de “não agressão” nas modalidades que já vinha de trás (ou seja, não existem transferências diretas de um para o outro sem que ambos estejam de acordo com isso) por forma a que os ordenados e custos de desportos com receitas muito abaixo do futebol nunca possam disparar para valores incomportáveis, Sporting e Benfica estiveram juntos em todas as decisões que tiveram de tomar em termos nacionais: eleições da Federação, ao lado de Pedro Proença e contra Nuno Lobo; eleições da Liga, ao lado de Reinaldo Teixeira e contra José Gomes Mendes; eleições da Associação de Lisboa, ao lado de Rui Rodrigues e contra Vítor Filipe. No último sufrágio até foram derrotados mas em todas tiveram o mesmo sentido de voto. Foi por isso que as declarações de Rui Costa após a Taça caíram de surpresa.
Em paralelo com a reação ainda a quente junto de Pedro Proença na tribuna do Jamor, com as declarações na zona mista após a final da Taça de Portugal e com o explosivo comunicado com várias medidas e ameaças em sete pontos, foi o áudio do presidente dos encarnados que maior perplexidade causou não só junto do Sporting (e de Frederico Varandas) mas também de algumas franjas de adeptos benfiquistas, que viram nessas críticas uma espécie de “autorreflexão” a reconhecer que a estratégia fora de campo não resultou.
“Amarelos por tudo… Já no jogo com o Arouca [do Campeonato, 2-2] o outro [António Nobre] marca primeiro e dá penálti, ele [Luís Godinho, VAR] diz-lhe que não devia ter dado penálti e ele marcou o penálti na mesma, pá… Estás a ver, estás a ver como é que ele é? Duas vezes, e tivemos essa derrota com quem? Vai na volta o Pinto da Costa é que tinha razão, se calhar o Pinto da Costa tinha razão […] Temos de ver o que se passou pá… Um vídeoárbitro [Tiago Martins] em fim de carreira… Leva nas costas desde o jogo com o Arouca… O Sporting domina esta m****, isto está tudo minado por eles. Está tudo minado por eles. Fui à Federação [Portuguesa de Futebol] com o Rui Pedro Braz, até os delegados car****, até os delegados […] Dá dez minutos de descontos, dez minutos de descontos! Está apresentado com o que quer, pá! Era para o Sporting ganhar… Dez minutos de descontos, estás a perceber? […] Tudo depende daquilo que os árbitros decidiram, parece que estão a gozar connosco e com os árbitros também… Lá no Sporting, a Juve Leo…”
Esta quarta-feira, dia marcado por uma série de intervenções de possíveis e futuros candidatos à liderança do Benfica nas eleições de outubro, Rui Costa e Frederico Varandas voltariam a encontrar-se na Cimeira dos Presidentes, no Porto, numa Liga também ela diferente agora liderada por Reinaldo Teixeira. Chegaram com as respetivas equipas (neste caso com dois dos administradores da SAD, Nuno Catarino e André Bernardo, respetivamente), entraram na sala em momentos diferentes entre cumprimentos e conversas com outros presidentes presentes, acabaram por ficar em zonas muito próximas durante o encontro, com o CFO das águias, Nuno Catarino, a separar os dois líderes dos rivais lisboetas. Do lado contrário, André Villas-Boas e António Salvador, presidentes de FC Porto e Sp. Braga (que não votaram em Reinaldo Teixeira).
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Em cima da mesa estavam temas como a ligação entre a Liga Portugal e a Federação, o plano financeiro para a próxima temporada, a centralização dos direitos televisivos (assunto onde o Benfica, em comunicado, fez questão de referir que não irá participar “por não estarem reunidas as condições para avançar com este processo”), os seguros desportivos ou os quadros competitivos. No entanto, e numa reunião que decorreu à porta fechada, a principal nota acabou por ser a conversa em torno da Arbitragem e da Disciplina, com o Nacional a ir mais longe e a apresentar uma proposta que foi bem vista por outros clubes de voltar a tirar as áreas do âmbito da Federação para recolocar na Liga. A ideia não foi votada, vai ser analisada pela Direção da Liga em paralelo com conversas com o clube e poderá fazer com que se organize um grupo de trabalho.
Ao mesmo tempo, e neste caso numa proposta que dificilmente merecerá maioria ou consenso tendo em conta a tendência de voto nas últimas eleições da Federação, foi levantada a possibilidade de ser feita uma auditoria à gestão e às contas de Pedro Proença, antigo líder da Liga. No entanto, e como neste caso a ideia terá sempre de passar pela Direção do órgão, não havendo uma maioria dificilmente poderá avançar. Pelo meio, e naquilo que se tornou o happening do encontro depois de tudo o que se passou nos últimos dias, Rui Costa e Varandas mantiveram uma postura fria, não trocando qualquer palavra nem nos intervalos da Cimeira, nem no decorrer dos trabalhos. Segundo confirmou o Observador, cumprimentaram-se de forma cordial quando se cruzaram pela primeira vez na sala e nada mais. O líder leonino, tal como o do Tondela, recebeu das mãos de Reinaldo Teixeira uma recordação pela vitória na Primeira e Segunda Ligas.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]
Assim, era no final que se centravam todas as atenções, para se perceber se alguém poderia ou não falar à margem do que tinha acontecido. Villas-Boas foi dos primeiros a sair com Tiago Madureira, sem prestar declarações. Rui Costa ainda fez um compasso de espera mas acabou também por deixar a Arena Liga Portugal sem falar. Assim, Varandas acabou por ser o único a passar pela zona mista onde estavam os jornalistas, aproveitando a oportunidade para abordar vários assuntos do momento pela primeira vez.
“Foi um reencontro tranquilo, cumprimentei-o… Deixem que vos diga, tenho uma forma de analisar estas coisas muito fria. Não levo nada para o campo pessoal, é uma estratégia do nosso rival que obviamente tem os seus motivos. Sabemos bem que existe a intenção de um discurso interno, tendo em conta o calendário eleitoral que aí vem [para o Benfica]. Não ligo a essa parte, não fico ofendido, de maneira alguma”, começou por dizer. “Matheus Reis? Muito bem, ainda bem que faz essa pergunta. Um dos pontos altos de toda esta estratégia é o ruído completamente desproporcional que está a haver sobre este caso. Eu próprio vi o jogo, não me apercebi de nada, depois começo a ver o ruído à volta do lance, do pontapear e fui ver o lance. O que hoje se analisa é um frame de um pé a espezinhar a cabeça de um jogador. Tenho sempre o cuidado de ver o lance todo e para mim é impossível alguém dizer que houve intenção de pisar na cabeça, sem olhar para onde está põe o pé na cabeça. Não sei se houve intenção, ninguém consegue dizer. A seguir perguntei ao meu jogador e ele disse que não, posteriormente foi o que o meu jogador me disse”, continuou.
“Mas por falar em frames, o primeiro golo do Benfica nesse jogo tem um frame onde o Dahl parece que dá um murro no Geny e na verdade, quando se vê o lance corrido, não há falta rigorosamente nenhuma. Mas se eu mostrar aquele frame, garanto que se diz que houve uma agressão e que o golo devia ter sido anulado. E deixe-me dizer uma coisa sobre agressão: no ano passado, num jogo decisivo para o Campeonato entre o Sporting e o Benfica em casa, vi o Di María agredir um jogador meu, o Pote, com um murro na cara e não vi indignação de ninguém. Nem árbitros, nem VAR, ninguém viu e não vi nenhuma indignação de ninguém, como aconteceu noutras agressões, noutros clássicos. Parece que estamos a falar de um caso que é preciso o Estado Maior reunir-se para decidir sobre isto… É um ruído do desespero provavelmente, e esta é a minha interpretação, mas tem de haver bom senso”, comentou Frederico Varandas ainda sobre o caso.
Sei que houve um senhor que fez uma denúncia na PGR sobre o Matheus Reis, para mim é a cereja no topo do bolo dentro do ruído todo. Quem é o senhor César Boaventura? É um agente de futebol que acabou de ser condenado por corrupção desportiva, por tentar corromper jogadores para perderem jogos contra o Benfica. É uma maravilha, não podia ter escolhido melhor cereja no topo do bolo…”, apontou o presidente do Sporting.
“Gáudio na festa? São miúdos, estão a festejar, não vou dizer se gosto ou não gosto, infelizmente vemos muitos em vitórias de títulos a festejar, é o ânimo… Não valorizo isso, valorizo sim aquilo que o meu jogador me disse. O árbitro não viu assim, o VAR não viu assim, eu não vi assim. Podia ter sido uma agressão? Até admito que sim mas o meu jogador disse-me que não e sim, acredito nele. Sanção? Não sei, isso faz parte da justiça e já ouvi dizer que o Sporting domina isto tudo… Olhe, vou-lhe dizer: hoje a arbitragem e o Conselho de Arbitragem estão na Federação. A Federação foi a eleições, o Sporting apoiou uma candidatura de pessoas que considera íntegras, sérias e, para mim, incorruptíveis. Mas não foi só o Sporting, foi o Benfica, o FC Porto, Pedro Proença ganhou com 75%. O que está em causa é outra coisa”, destacou depois.
PGR instaura inquérito a Matheus Reis por pisão a Andrea Belotti na final da Taça de Portugal
“Faz tudo parte de uma cultura que temos nos últimos 40 anos onde o futebol português tem sempre de ter um dono, esta é a verdade. Tem sempre de ter um dono e foi isso que aconteceu nos últimos 40 anos, teve dois donos a alternar. FC Porto, Benfica, FC Porto, Benfica… Os casos do Apito Dourado e o caso dos emails são os exemplos disso. A grande surpresa agora, para mim, é que não há dono nenhum, não há. Há órgãos que não se deixam condicionar, não têm medo e não se deixam levar. O que é isso faz depois? O erro, que vai sempre existir, se for numa competição íntegra vai ter de ser distribuído de uma forma uniforme, porque o erro humano existe sempre. O que acontecia era que esse erro prejudicava o Sporting na proporção de um para cinco com os nossos rivais, agora não é assim. Há uma grande surpresa quando há um erro a favor do Sporting mas não atirem areia para os olhos, a imprensa, os ex-árbitros, as análises todas que se fazem dizem que o Sporting ainda foi o mais prejudicado entre os grandes. O problema é que hoje não há um dono e o Sporting luta para que não haja dono e para dominar dentro do campo, como hoje acontece”.
“Fico muito contente quando vejo que os nossos rivais dizem ou pensam essas coisas mas sabem porquê? Porque para mim é espectacular, ainda não perceberam porque é que o Sporting está a vencer, isso depois dá-me vantagem competitiva para poder tentar ganhar mais vezes. Parece que o lance do Matheus Reis mudou tudo, antes o presidente do Benfica tinha dito que o Sporting era um justo campeão, agora é que mudou tudo. Fala-se tanto do jogo da Taça, uma injustiça, um escândalo… O que vejo? Na primeira parte, o Benfica foi superior; na segunda parte, o Sporting foi superior; no prolongamento, o Sporting foi muito superior. São opiniões mas depois fui ver as estatísticas, o dobro das oportunidades flagrantes, mais remates, mais cantos… Tiago Martins? Foi VAR num jogo do Sporting com o FC Porto que o Sporting foi muito. prejudicado, por exemplo. Há dois anos lutámos para que as comunicações fossem livres e audíveis, quem votou contra? O Benfica e o FC Porto”, concluiu Frederico Varandas após a Cimeira de Presidentes.
“Benfica voltou a reiterar posição mas tem noção clara de que a lei é lei”
Também Reinaldo Teixeira, presidente da Liga Portugal, falou aos jornalistas no final da Cimeira, abordando a ameaça do Benfica em sair das discussões sobre a centralização dos direitos televisivos. “O Benfica, que fazia parte do grupo de trabalho de centralização, já neste meu mandato, participou de forma muito construtiva na centralização. O Benfica, hoje, nesta Cimeira, voltou a reiterar a sua posição de retirar-se do grupo de trabalho sobre a centralização mas tem a noção clara de que a lei é lei. No fundo, não ouvi nenhuma palavra negativa, nem de uma atitude de qualquer, enfim, não colaboração da parte do Benfica. Ontem, na 3.ª Conferência da Bola Branca, Nuno Catarino disse um conjunto de preocupações e diria que são preocupações que nos norteiam a todos nós”, comentou o líder do órgão.
Liga disponível para ouvir Benfica para “encontrar consenso” nas “discordâncias”
“Ou seja, o que é que nós todos podemos fazer para melhorar a qualidade do produto e conseguimos no final termos, digamos, um produto mais vendável e melhor comprado, etc.. Todos os passos no tema da centralização têm sido em frente. Todas as contribuições das sociedades desportivas são trabalho de casa para nós, para podermos ir afunilando e rapidamente podermos decidir. Como sabem, o dossier tem de ser entregue até junho de 2026 para implementação em 2028/29. Tudo vamos fazer para que seja antecipado”, assegurou ainda Reinaldo Teixeira sobre esse tema abordado na Cimeira de Presidentes.
O que foi tratado na Cimeira de Presidentes?
A Liga explicou no final da Cimeira de Presidentes, por comunicado, aquilo que tinha sido discutido durante a tarde, resumindo por pontos os temas abordados. “Os presidentes das Sociedades Desportivas debateram questões centrais para o desenvolvimento do Futebol Profissional, naquela que foi a primeira Cimeira conduzida pela nova Direção Executiva, liderada pelo presidente Reinaldo Teixeira, concentrando-se em temas cruciais como Liga Portugal – Federação Portuguesa de Futebol, Resumo do Plano Financeiro da Liga Portugal, Arena Liga Portugal, Centralização dos Direitos Audiovisuais, Seguros Desportivos e Quadros competitivos. Após discussão plenária sobre cada tema, foram apresentadas as conclusões”, balizou.
Temas Liga Portugal – Federação Portuguesa de Futebol
- A Direção Executiva da Liga Portugal ficou com o compromisso de tentar antecipar a reunião do Grupo de Trabalho, agendada para 19 de junho, devido à importância para a elaboração dos orçamentos, estando definida a representação da Liga Portugal;
- Uniformizar e facilitar procedimentos entre a Liga Portugal e a Federação Portuguesa de Futebol;
- Alteração da forma de distribuição das receitas das apostas desportivas provenientes de apostas sobre ligas estrangeiras e recuperar o programa de prevenção da combinação de resultados;
- Renegociação da comparticipação de encargos e a proposta de alteração dos Estatutos da FPF, proposta pela própria FPF.
Resumo do Plano Financeiro da Liga Portugal
- O impacto da perda de Recursos Humanos;
- Desvio significativo no investimento do Arena Liga Portugal (de 17,5 milhões de euros para 26,4 milhões de euros), com alteração significativa nos custos operacionais da Liga Portugal.
Arena Liga Portugal
- As Sociedades Desportivas deram poder ao Presidente da Liga Portugal para decidir sobre o arrendamento do 5.º piso do edifício, levando em consideração os melhores valores de mercado.
Centralização dos Direitos Audiovisuais
- Ponto de situação do processo, enfatizando a importância de celeridade e a sua ligação aos quadros competitivos;
- Identificação dos temas críticos a trabalhar a curto prazo;
- Os desafios da chave de repartição.
Seguros Desportivos
- Manutenção do valor do prémio para a nova época;
- Redução do período de franquia de 120 para 90 dias.
Quadros competitivos
- As Sociedades Desportivas decidiram refletir sobre o atual quadro competitivo, analisando propostas de alteração.