José Luís Carneiro não fala em negociação, mas também garante que não vai viabilizar o próximo Orçamento de cruz. Primeiro quer ver a proposta do Governo e perceber se a AD evitou “dimensões que colidem com a identidade e valores fundamentais do PS”. Quais são? O candidato a líder responde de forma muito genérica com o SNS, o sistema de pensões, a segurança social e a escola pública.

Em entrevista à RTP3, Carneiro até começa por escancarar as portas ao primeiro Orçamento da legislatura, ao dizer que “ao viabilizar o programa do Governo, em princípio deve viabilizar-se o instrumento para pôr em prática esse programa”. Mas logo de seguida trava-se a si mesmo para assegurar que vai “aguardar pela proposta”. “Vamos contribuir para a viabilização do Orçamento, mas não vamos fazer como Manuela Ferreira Leite e não querer ver. Vamos vê-lo“, diz Carneiro.

A “abertura para a viabilização” do PS tem condições, mas ainda são vagas, com as linhas vermelhas colocadas apenas às eventuais ameaças para “os alicerces fundamentais” para os socialistas. “O Governo conhece bem a forma como o PS olha para o SNS, o sistema de pensões, para a segurança social e a escola pública”, afirma Carneiro na entrevista quando questionado sobre os limites do PS. Atira a responsabilidade para os braços da AD: “Se pretender manter atitude de respeito com o PS deve evitar colocar no Orçamento dimensões que sabe que colidem com a identidade e valores fundamentais do PS”.

“Estaremos muito atentos ao Orçamento”, promete Carneiro numa frase com efeitos também para a campanha interna — sabe bem que o tema será alvo de discussão intensa no partido (como já foi no passado), onde já se pede que não seja dada “carta branca” à AD.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]

Garante que será especialmente atento à questão dos compromissos eleitorais da AD, avisando já que o Governo não vai poder falhar “justificando-se com as responsabilidades na defesa e na segurança” — outra questão que tem suscitado debate, sobretudo quando se fala no reforço do investimento na Defesa e no que isso pode significar para as medidas sociais.

Quanto à atitude do partido, Carneiro diz que deve ser “pragmático e responder com urgência a algumas circunstâncias”, exemplificando com a habitação (muito em linha com o que o anterior líder defendia no programa, sobre habitação pública a e necessidade de coordenar esforço público, privado e cooperativo) ou a educação.

Em relação à comissão parlamentar de inquérito ao caso Spinumviva, Carneiro mantém uma posição recuada e sem desagradar a quem, no partido, pede que se avance. Ao mesmo tempo que diz que é preciso esperar pela justiça, vai garantindo que o partido “não abdica dos instrumentos para fiscalização do Governo” — e aqui sublinha que o PS quando avançou com a proposta, na era Pedro Nuno, fê-lo de forma potestativa, o que permitia controlar, de alguma forma, os trabalhos e as audições.

É igualmente cauteloso noutras questões parlamentares, atirando para longe uma revisão constitucional, que diz “não ser prioritária”, defendendo que o Chega fique “à porta das responsabilidade fundamentais do que tem a ver com o Estado de Direito”. Aqui tenta colocar a responsabilidade, novamente, no lado da AD ao dizer-se “convicto de que respeitará o quadro de valores que vem da fundação do regime democrático”. Na eleição do novo presidente da Assembleia da República e confrontado com o nome de Aguiar-Branco diz que “não há necessidade de um psicodrama”, como o que aconteceu há um ano, desde que haja “capacidade de diálogo e de boa fé”.

Em “dias difíceis” para o PS, diante de “um resultado eleitoral muito amargo” e de um “caminho com muitos obstáculos”, Carneiro promete “dialogar com os camaradas e com as forças vivas” da sociedade. Não descarta ter uma liderança transitória, mas apenas e só porque “em democracia é natural que as lideranças sejam transitórias”, diz apontando para os dois anos de mandato do cargo de líder do PS: “Não é muito prolongado”.

Para as autárquicas a sua fasquia é baixa, tendo em conta que lidera o partido que mais autarquias tem conseguido conquistar nos últimos anos. José Luís Carneiro propõe-se “manter a maioria na Associação Nacional de Municípios e na de Freguesias”. Quanto ao mais, não faz promessas para lá da que passa por dar luta: “Queremos batermo-nos para ganhar o maior número de câmaras e particularmente capitais de distrito”. Isto num quadro que vai já avisando que é “de riscos acrescidos” para o PS que é o partido com mais autarcas em limitação de mandato. É ainda mais fechado nos objetivos para outra eleição, a das presidenciais: remete para decisão da Comissão Nacional sobre deixar primeiro os nomes da área socialista posicionarem-se, para depois o partido se pronunciar. Garante apenas que decisão final “será a que melhor preservar a unidade do partido”.

Destas legislativas levará um partido que, no Parlamento, passa a terceira força política, o que ficou confirmado esta noite depois de terminada a contagem dos votos da emigração. Sobre esse capítulo, encerra-o no passado: “Infelizmente não apostámos no deputado Paulo Pisco, que fez sempre um trabalho de grande proximidade, que foi o que fez que o PS já tivesse tido dois deputado em 2019” pelo círculo Fora da Europa. Nestas legislativas, Pedro Nuno Santos prescindiu de Paulo Pisco (que foi deputado 18 anos, sempre eleitor pela Europa) e apostou em Emília Ribeiro, como cabeça de lista pelo círculo Fora da Europa.