Um espetáculo do cantor basco Fermin Muguruza, que decorria na Cidade do México, foi abruptamente interrompido na passada sexta-feira, 30 de maio, — não tendo sido retomado — na sequência de uma operação conduzida por militares e polícias. Pelo menos 200 agentes e soldados evacuaram o Fórum Alicia, onde o concerto decorria, alegando que não tinha as autorizações necessárias e que a capacidade do local tinha sido excedida. O governo e autoridades mexicanas negam, no entanto, ter ordenado a ação.

Muguruza é conhecido por associar a sua música, que se baseia principalmente no reggae e no dub, a um posicionamento político firme. É definido enquanto uma das figuras mais influentes e carismáticas do mundo da música no País Basco. Durante este ano está em digressão internacional, na qual está incluída a passagem na Festa do Avante!, que decorre de 5 a 7 de setembro na Quinta da Atalaia, no Seixal.

A suspensão do concerto do artista basco, uma hora depois de ter começado, tem sido vista por alguns fãs do cantor como uma tentativa de censura. “O exército com espingardas para cancelar um concerto? Queriam um massacre?”, questionou também Fermin Muguruz através da sua página de Instagram.

Logo após o cancelamento do espetáculo, o artista basco reagendou um concerto gratuito na Ciudad Neza para o dia seguinte, sábado. Também no Instagram admitiu que tinha conseguido “vingar-se”, mas garantiu que ele e a sua equipa continuam a exigir saber a verdade sobre o que aconteceu no dia anterior. “Quem organizou a operação, quem deu a ordem, porquê, para quê?”, voltou a questionar.

Quem deu a ordem para cancelar o concerto? Autoridades e governo mexicano distanciam-se da ação

O governo mexicano já veio a público garantir que “não aprova estas ações“. “Em relação ao despejo do Fórum Alicia, na Cidade do México, ocorrido na sexta-feira reiteramos nosso respeito aos grupos culturais independentes”, afirmou o Ministério da Aministração Interna mexicano em comunicado, citado pela France 24.

O ministério também confirmou os detalhes que vieram a público sobre o modo como a operação foi realizada e garantiu que serão aplicadas “sanções correspondentes” a quem participou nesta operação “injustificável”. Pablo Vázquez Camacho, secretário de Segurança Cidadã, afirmou que os agentes responsáveis ​​pelo setor onde ocorreu o despejo “já foram exonerados” de suas funções, sem avançar mais pormenores.

“Estamos em contacto com as autoridades governamentais da Cidade do México para investigar quem solicitou a presença da polícia e das forças armadas naquele espaço cultural. A nossa história e as nossas ações sempre foram de defesa e promoção de espaços culturais”, garante-se na mesma nota.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]

No X, Clara Brugada Molina, chefe do governo da Cidade do México, garantiu que os responsáveis pela ação foram “exonerados das suas funções e que as investigações prosseguem”. “A cultura é um dos eixos de transformação do meu governo. Reitero que esta é uma cidade de liberdades e direitos”, garantiu.

“Repudiamos categoricamente qualquer ato que atente contra a cultura. O Fórum Alicia está aberto e garantiremos que os espaços culturais independentes sejam respeitados e acompanhados pelo vosso governo”, acrescentou Molina.