Antes de chegar ao traçado de MotorLand, em Aragão, Miguel Oliveira deixava sinais positivos. Sentia-se melhor, via a moto crescer entre as provas em Le Mans e Silverstone, começava a querer ambicionar a mais no caminho até à recuperação plena depois de dois meses de afastamento da competição pela queda sofrida na Argentina – que inicialmente aparentava não ser tão grave mas que fez com que falhasse não só essa prova mas também as três corridas seguintes. No entanto, o choque com a realidade foi grande, não apenas para si mas para toda a equipa. Pela primeira vez, a Yamaha parecia não ter grandes argumentos para ser melhor.

Um dia para rodar e pouco mais com uma moto que não sai do menos: Miguel Oliveira em 15.º na corrida sprint de Aragão

“A tarde foi muito difícil. A moto comportou-se de forma estranha durante o time attack, especialmente na parte eletrónica, que parecia estar a funcionar numa faixa diferente. Continuava a subir em todas as curvas para a esquerda, com derrapagens invulgares na entrada. Há algo importante que precisamos de alterar, principalmente na eletrónica, para que a moto funcione melhor no modo de ataque de tempo. Não consegui fazer uma volta limpa. Estamos a sofrer muito com a aderência traseira. Esta pista tem muitas curvas longas e, historicamente, o asfalto sempre teve pouca aderência, o que torna as coisas ainda mais difíceis para nós. Não é fácil contornar isso. Não sei até que ponto seremos competitivos mas com certeza que a moto estará melhor amanhã [sábado]”, explicava o piloto ainda antes da qualificação deste sábado.

Não foi além da 16.ª posição de manhã, não foi além do 15.º lugar na corrida sprint. Mais: pela segunda vez esta temporada, nenhuma das Yamaha chegou aos pontos, com Fabio Quartararo a andar mais de metade do tempo no top 9 antes de terminar em 11.º, com Jack Miller (que teve de cumprir uma long lap após a queda de Joan Mir) em 13.º e Álex Rins em 14.º. O “ensaio” para a corrida voltava a mostrar as fragilidades.

“Para mim, hoje [sábado] foi dado um passo em frente, apesar de a qualificação ter sido um desastre. Simplesmente não consegui fazer com que o pneu macio traseiro funcionasse em quaisquer condições, pelo que tive de tentar fazer o melhor sem cair. No geral, o pneu médio funcionou bem, exceto nas primeiras voltas porque demorou algum tempo a entrar no ritmo. Fizemos alguns progressos mas ainda precisamos de dar mais um passo em frente para a corrida de amanhã [domingo]. O facto de toda a gente optar de forma previsível pelo pneu médio atrás deverá nivelar as coisas. O grande objetivo é fazer um arranque limpo, ganhar algumas posições cedo e depois ver como as coisas se desenrolam”, referira antes da corrida.

Depois da desistência em França quando tinha todas as condições para fechar um top 10 numa corrida onde teve a estratégia certa desde início em relação aos pneus, o que lhe mais tarde vantagem na prova (e permitiu que Johann Zarco saísse vencedor), Miguel Oliveira terminou em 16.º na Grã-Bretanha. Agora, apesar das evidentes dificuldades que não só a Pramac mas a própria Yamaha estavam a sentir em Aragão, tinha como meta o regresso aos pontos, fazendo fé em melhorias que pudessem ser ainda preparadas na moto mas também na regularidade que ambicionava apresentar em pista e que também tem feito a diferença nestas últimas corridas. Para isso, a questão do arranque assumia outra importância, depois da má saída na véspera.

Ao contrário do que acontecera na véspera, Marc Márquez não falhou no arranque, segurando a liderança na primeira volta à frente de Álex Márquez e de Pecco Bagnaia, que aproveitou o mau início de Morbidelli e foi para a terceira posição entre os ataques das KTM de Pedro Acosta e Brad Binder. Mais atrás, Miguel Oliveira não saiu do 16.º posto no arranque, chegou a andar em 14.º na primeira volta mas, quando parecia estar a consolidar a 15.ª posição, desceu para 19.º com um pequeno erro que colocava tudo abaixo do esperado. Entre as outras Yamahas, Quartararo continuava a rodar em nono mas Jack Miller subia alguns lugares, de 14.º para décimo com novo despique com o espanhol Joan Mir como tinha ocorrido na corrida sprint.

O duelo entre Pecco e Acosta tinha todos os holofotes nas voltas iniciais, ao passo que Miguel Oliveira seguia em 19.º tentando ultrapassar Augusto Fernández o mais depressa possível para não deixar que Álex Rins ganhasse mais tempo. No entanto, com o passar das voltas, a distância para o espanhol ia aumentando, com o português em 16.º apenas pela queda de Johann Zarco na nona volta, de Brad Binder a meio da corrida e de Fabio Quartararo logo na volta seguinte. Ou seja, sem que conseguisse superar Fernández, o português estava a 0,2 segundos de entrar na zona dos pontos como há muito não conseguia neste Mundial de 2025, sendo que, sem o francês, o melhor piloto da Yamaha passava a ser Jack Miller… na 13.ª posição.

À exceção das quedas, o Grande Prémio do Aragão tinha muito menos história do que se pensava. Marc Márquez dominava por completo e continuava a bater recordes de pista, Pecco Bagnaia ainda tentou andar na roda de Álex Márquez mas sem conseguir mais do que isso, Pedro Acosta perdera força na luta pelo pódio, Morbidelli e Fermín Aldeguer estavam em picardia pela quinta posição e Marco Bezzecchi confirmava mais uma prova de trás para a frente com o décimo lugar depois de sair do 20.º posto. Mais atrás, com outro erro que voltou a ter peso na tentativa de chegar a Fernández, Oliveira passava a ter dois segundos de atraso para o espanhol. Ou seja, e a não ser que algo de estranho se passasse, dependia de outros para pontuar.

O “brinde” veio de Maverick Viñales, com o espanhol a sofrer uma queda a três voltas do final que permitiu ao português subir para a zona dos pontos como não acontecia desde a estreia pela Pramac Yamaha, na prova da Tailândia. Num fim de semana para esquecer na Yamaha, onde Jack Miller ainda desceu a 14.º (Rins foi 11.º), essa foi uma das poucas boas notícias para Miguel Oliveira numa corrida dominada por completo por Marc Márquez que terminou com Álex Márquez em segundo e Bagnaia a fechar o pódio da Ducati. Acosta, Morbidelli, Aldeguer, Joan Mir, Bezzecchi, Di Giannantonio e Raúl Fernández fecharam o top 10.