São cinco pequenos ensaios, originalmente pensados para rádio, que exploram a dinâmica da mudança de opinião. Em poucas páginas – que a edição da Quetzal aumenta com letra grande –, o autor enfrenta o assunto através da literatura, da memória, da linguagem e da política. Findo o livro, parece haver apenas uma única certeza – as certezas, por norma, duram pouco, até as que temos sobre nós.
Tem graça a forma como se alia certeza a memória. Numa das passagens mais notáveis, o autor reflete sobre a imagem que tinha de si em miúdo – e em como descobriu a posteriori que era tão diferente da que os outros tinham dele. A certeza da sua timidez e da sua insegurança fica em xeque: afinal, quem o vinha e conhecia – quem se lembra dele – via no pequeno Barnes outra coisa. Veja-se:
Recordo-me de que eras uma presença ruidosa e irritante no corredor do sexto ano (…) As minhas próprias recordações insistiam – e ainda o fazem – na ideia de que eu era um rapaz bem-comportado, inseguro e tímido, embora rebelde no íntimo.” (p. 23)
E, noutra passagem, o autor escreve sobre memórias falsas – histórias que aconteceram a outros e que alguém retém na memória como sua e, portanto, com uma dose considerável de certeza. Leia-se:
E não acredito que o estivesse a fazer conscientemente: de uma maneira ou de outra, lembrou-se da história como se tivesse acontecido a ela e ao marido. Foi um pedido de empréstimo desajeitado – ou uma peça de canibalismo mental, se se preferir.” (p. 22)
Se a certeza estava, afinal, errada, a memória também não será coisa de fiar, e é nisso que Barnes vai insistindo – na memória não como certeza, mas quase como possibilidade.
Título: “Mudar de ideias”
Autor: Julian Barnes
Editora: Quetzal
Tradução: Salvato Teles de Menezes
A escrita do autor é escorreita e a transição entre os capítulos é suave. Afinal, todos os temas andam ombro a ombro, e de forma ampla conseguem mostrar a natureza da identidade e da lembrança, isto embora não haja um fio narrativo estruturado de uma ponta à outra. Seja como for, o propósito do livro, que reúne ensaios, não era esse, sendo antes de ambição mais curta. O papel da memória no livro será o de maior destaque, já que Barnes parece mostrá-la mais como imaginação, pelo menos em parte, do que como um decalque do passado. Regra geral, as conclusões partem da sua própria vida e dos seus exemplos, no que funciona como um gancho funcional que agarra a atenção os leitores.
Num tempo de polarização e certezas, é refrescante que alguém se debruce sobre a certeza como coisa volátil, e que abra a cabeça ao invés de a fechar sobre uma verdade ou uma ideia como uma redoma intransponível. Se o formato não permite a dimensão ampla de um ensaio tradicional, também é verdade que as reflexões de Barnes são deixam de ser originais ou surpreendentes. Além disso, a sua elegância – essa que não vem das mãos de mais ninguém – está patente da primeira à última linha. Já nos tínhamos habituado a isto no romance – a prosa de Barnes faz-se sempre de frases enxutas, e em meia dúzia de pinceladas o autor consegue tecer um quadro. Ao mesmo tempo, e mesmo nos momentos em que se percebe que a semântica serpenteia, que serve para distorcer, mentir, manipular, o autor consegue fazer-lhes uma declaração de amor às palavras – essas que permitem veicular ideias e depois ideias antagónicas, mudança que é apresentada como percurso natural ou maturidade, e não como incongruência. Aliás, no entender de Barnes, isto estende-se até às leituras, ou melhor, às releituras, com o autor a advogar que a repetição de uma experiência de leitura é coisa infértil. No caso de Forster, que Barnes não apreciava e que passou a apreciar, é a mudança de gosto – portanto, de ideias – que traz algum encanto.
Reler seria uma coisa entediante e complacente se resultasse invariavelmente na pura e simples confirmação daquilo que já achávamos.” (p. 99)
Mudar de ideias não é brilhante, mas cogitá-lo ou pedi-lo seria pecar por excesso. O formato, afinal, não o permite. Mas, dentro dos seus parâmetros, o livro cumpre o seu propósito, e não só a leitura é agradável como aqui e ali o leitor é surpreendido por uma cabeça que pensa por si, sem amarras – uma cabeça que não só é artística, no sentido de ser original, como também é rigorosa, do sentido de ser intelectual. Tudo pesado, pelos momentos em que o fio condutor perde a rigidez, não deixa de ser claro para o leitor que estamos perante um caso de reciclagem de material.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.