Os pais precisam de errar para aprender e isso é saudável. Esta é a ideia central que percorre todo o novo livro do psicólogo Eduardo Sá. Em “Queridos Filhos” não se ensinam fórmulas ou regras infalíveis, que vão ao encontro de ideais de parentalidade estereotipados. O livro é uma súmula de anos e anos de experiência a lidar com pais e filhos e pode até ser visto como um grito de despertar para os pais. Sim, podem e devem falhar.
Os títulos de alguns dos capítulos são sugestivos e desafiadores. “As crianças estragam os pais!”; “As crianças são muito cruéis umas para as outras”; “Pais gentis, permissivos e obedientes” ou , “Como afastar o seu filho da saúde mental”. Os capítulos (curtos) organizam-se e sucedem-se à velocidade da reflexão de um profissional com décadas de experiência.
O Observador publica o 4º capítulo deste livro, agora editado pela Lua de Papel. Em “Melhores pais com menos tempo”, Eduardo Sá desconstrói a necessidade de ter horas e horas para os filhos. Aqui, como noutros aspetos da vida, a qualidade e a entrega são mais importantes do que a quantidade, na opinião do psicanalista.
Melhores pais com menos tempo
Precisamos de tempo para crescer. De tempo para nos conhecermos. De tempo para amarmos. E de tempo para aprendemos a ser pais. Tanto tempo quanto aquele que as crianças, elas próprias, precisam para aprenderem a ser crianças.
Seja como for, os pais saudáveis repartem‑se por muitos compromissos familiares e profissionais. Têm uma relação amorosa para gerir. E os seus amigos, os seus interesses e os pequenos‑nadas que dão sentido aos seus dias. E isso é bom! Mas tudo lhes ocupa tempo, atenção e engenho. Será que a primeira prioridade dos pais deverá ser o trabalho; a segunda, serão os filhos; e, só depois, a família? Ou, pelo contrário, a primeira prioridade deverá ser a sua relação amorosa, porque pais mal‑amados serão sempre piores pais? Depois virão os filhos. A seguir, a família e os amigos. E, só depois, o trabalho. Talvez esta última seja a solução correta.
Os pais nunca têm o tempo que imaginam indispensável para serem bons pais. Mas não necessitam dele! As crianças não precisam de muito tempo de mãe e de pai, todos os dias, para que se sintam amadas. Feitas as contas, uma boa meia hora de mãe ou de pai, duas vezes ao dia, é “vitamina do crescimento” e torna‑as saudáveis. Mas elas ganham se puderem brincar todos os dias. E, de preferência, que um bocadinho desse tempo se faça na companhia de um dos pais. E se o jantar se der em família, com algum tempo, sem televisão, sem tablets, sem brinquedos e sem que os pais se sintam, permanentemente, “chatos”. A resmungar e a repreender. E se, a seguir ao jantar, existir um pouco de “sala de estar”, para que a conversa fique “em dia”, e para que todos se sintam uns aos outros. E se, depois – hoje com a mãe e amanhã com o pai – existirem 15 ou 20 minutos de “namoro”, de histórias ou da sensação saborosa de se ser “filho único” de um dos pais, no escurinho do quarto. E a ter‑se direito a um deles, com o rigor de uma entrada de agenda como as outras, para um lanche, num dia (certo) por semana. E aos fins de semana. Sem outros compromissos que não seja o tempo livre para toda a família.
Pais apressados são crianças que passaram pela infância sem tempo para serem crianças. Mas que, por isso mesmo, correm o risco de chegar um bocadinho atrasados à infância dos filhos. De tanto quererem que ela valha por duas.
Eduardo Sá esta de segunda a sexta na Rádio Observador. É o autor do podcast “Porque Sim Não É Resposta”. Aqui encontra todos os episódios, que também estão disponíveis nas habituais plataformas de podcasts.