Aos 43 anos, Fernando Alonso é o piloto de Fórmula 1 mais velho no activo. Brad Pitt, que em F1: O Filme, de Joseph Kosinski, interpreta Sonny Hayes, um piloto que volta à Fórmula 1 após três décadas de ausência, tem 61 anos, embora pareça uns 50 e poucos. Kosinski e Ehren Kruger, o seu co-argumentista, são espertos. Para tornarem verosímil aos olhos dos espectadores mais céticos o implausível regresso às pistas de Hayes (que era uma grande esperança da Fórmula 1 nos anos 90 mas teve um terrível acidente no GP de Espanha de 1993, e por isso abandonou a modalidade), põem Ruben Cervantes (Javier Bardem), o seu antigo parceiro e agora dono da APX, uma equipa (fictícia) em dificuldades, e que o contrata, a referir Louis Chiron e Philippe Etancelin, que ainda corriam ambos na Fórmula 1 aos 55 anos, na década de 50.
[Veja o “trailer” de “F1: O Filme”:]
Esses espectadores mais céticos pensarão logo que entre a Fórmula 1 dos anos 50 e a de agora vai uma distância colossal em todos os aspetos. E que a presença de um condutor tão velho como Hayes, que no seu tempo guiava um Lotus (o acidente que sofreu é na verdade o do britânico Martin Donnely, no GP de Espanha de 1990, do qual vemos imagens na fita e que estão no YouTube), ao volante de um carro mecânica e tecnologicamente evoluidíssimo em relação aos de há três décadas, é muito forçada. Mas como Hayes é vivido por Brad Pitt, um dos últimos actores americanos que é também uma estrela de cinema e consegue levar um filme às costas, empurrá-lo sozinho ou fazer gato sapato dele, lá damos de bom que um piloto com o conta-quilómetros já muito adiantado e desabituado de guiar um Fórmula 1 há um ror de anos, pode reentrar no Grande Circo como se estivesse estado ausente apenas por seis meses.
[Veja uma entrevista com Brad Pitt e Damson Idris:]
Feito em associação com a FIA, o organismo que tutela a Fórmula 1, e com a colaboração de todas as equipas e pilotos, que se interpretam a si próprios, e decorrendo durante uma temporada da modalidade nos vários grandes prémios que a compõem e abrangem circuitos em todo o mundo, F1: O Filme, tem uma autenticidade inatacável (é igualmente uma enorme vitrina para a própria marca Fórmula 1, e toda a sorte de marcas e produtos associados e colaterais). E o APX em que Hayes e o seu parceiro Joshua Pearce (Damson Idris) correm passa perfeitamente por um dos bólides existentes (é, na realidade, um Fórmula 2 modificado, feito em colaboração com a equipa da Mercedes – Lewis Hamilton é um dos produtores da fita – e os neozelandeses da Carlin Motorsport).
[Veja uma entrevista com Joseph Kosinski:]
O realizador Joseph Kosinski faz aqui com os carros de Fórmula 1 aquilo que fez com os caças em Top Gun: Maverick, instalando câmaras em todos os sítios possíveis e imaginários nos carros, e recorrendo a drones e a helicópteros, para nos pôr no lugar do piloto e partilhar o seu ponto de vista, instalar-nos em cheio no miolo da acção ou dar-nos rasgadas panorâmicas aéreas de conjunto, fazendo-nos sentir o auge da emoção dentro e fora dos carros, e sobretudo a vertigem estonteante e entusiasmante da velocidade. Sob esta vistosa e sofisticada carroçaria técnico-cinematográfica, no entanto, o motor de F1: O Filme carbura a clichés do tempo da Maria Cachucha de Hollywood.
[Veja uma sequência do filme:]
O enredo do veterano individualista, experimentado, manhoso e disruptivo, que sofre de um trauma antigo e se sente frustrado por nunca ter conseguido chegar ao topo da sua especialidade, e vem ser o mentor de um jovem talentoso que tem de aprender a não ser arrogante e a explorar todas as suas potencialidades, resultando o encontro entre ambos num choque de egos, personalidades e métodos, tem barbas bíblicas, e já foi minerado até à exaustão em todos os géneros, do western até ao policial e ao filme de guerra e de ação. A história de F1: O Filme é, no essencial, a da animação Carros da Pixar, com pessoas e bólides de Fórmula 1, em vez de automóveis antropomorfizados e gerados digitalmente.
[Veja imagens da rodagem e declarações do elenco:]
Por mais entretidos e empolgados que estejamos com as sequências das corridas e com as táticas dos carrinhos de choque que Sonny Hayes aplica durante as mesmas (na vida real, quer piloto, quer equipa, seriam pesadamente castigados por tais comportamentos, mas pronto, é Brad Pitt que está ao volante e há que empolar a acção competitiva para fins dramáticos…), damos connosco a adivinhar com muita antecedência absolutamente tudo o que vai acontecer na história. Até mesmo a irrupção tardia, e algo desastrada, de um vilão maquiavélico, bem como a resposta de Hayes à suculenta tentação que ele lhe agita à frente dos olhos.
Em F1: O Filme, há mais lugares-comuns, situações feitas, personagens estereotipadas e emoções pré-fabricadas do que rotações no painel do habitáculo de um Fórmula 1. Claro que é um direito que lhe assiste recostar-se na cadeira, pôr o cérebro em ponto morto e desligar o espírito crítico durante duas horas e meia, e apreciar o filme. Eu cá prefiro ir rever a melhor fita de Fórmula 1 feita até hoje. Essa mesmo: Rush — Duelo de Rivais, de Ron Howard.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]