Se Timothee Chalamet e Harry Styles tivessem um filho nascido dentro do universo de Bridgerton, vestir-se-ia com a coleção primavera/verão 2026 masculina da Dior. Esta sexta-feira, 27 de junho, Jonathan Anderson fez a sua estreia como diretor criativo da maison francesa na Paris Men’s Fashion Week, misturando o luxo clássico da marca, as influências da França do século XVIII, um estilo jovem e descontraído e um toque de fluidez de género, como é seu apanágio.
O vídeo de abertura teve como estrela Sam Nivola, de 21 anos, que ganhou destaque recentemente nos papéis desempenhados nas séries virais The White Lotus e Perfect Couple. No filme para a Dior, o jovem ator assume um ar de príncipe rebelde numa aristocracia que quer romper com a estética perfeita, mas mantendo os elementos clássicos. Nos jardins e dentro do Palácio de Versailles, o protagonista e os outros manequins abraçam o estilo colegial, com as camisas por fora das calças e com as golas levantadas, as mangas despreocupadamente dobradas, as gravatas mal apertadas, e os cabelos desgrenhados. O lado unissexo habitualmente explorado nas criações de Anderson também está presente nas malhas cor de rosa ou com bordados delicados, combinadas com peças de joalharia da linha Diorette, como os anéis e colares com flores, além do corte mais justo e subido de algumas camisolas e das calças com cintura alta ou estilo boca de sino. Já um olhar lúdico e cool revela-se nas peças em xadrez, na ganga e no uso das cores, como as calças verdes.
O mesmo vídeo leva-nos à Paris moderna na presença de outras figuras bastante conhecidas e ícones de estilo nas mãos de Anderson, como Daniel Craig e Robert Pattinson. Atentos à atualidade, estrelas da K-Pop aparecem a usar peças básicas com o (renovado) logo Dior, visualmente sobrepostas a formar camadas de cores e texturas, bonés e as golas (sempre) assimetricamente levantadas. O estilo imprimido no vídeo inicial reproduz-se entre os convidados, com uma aura descontraída a tomar conta do evento. Pharrel Williams, Rihanna e Sabrina Carpenter são alguns nomes que se juntaram ao grupo de famosos entre a assistência.
Getty Images
Dior inovadora e clássica na passarelle
No museu dos Invalides, a passarelle foi montada numa sala criada especialmente para o evento, inspirada no Gemäldegalerie, museu em Berlim que expõe obras de antigos mestres. Os quadros estrategicamente posicionados são duas obras de Jean-Baptiste Siméon Chardin do século XVIII emprestadas do Louvre e da Galeria Nacional em Edimburgo. “Há modernidade na história e Dior amava Chardin”, disse Jonathan Anderson, sobre o espaço que representa o blend perfeito entre a opulência do século XVIII e a contemporaneidade.
Com as golas altas e o volume que foi buscar à moda da regência francesa, os looks trazem releituras informais de artigos já tão conhecidos e imortalizados pela maison francesa, como o blazer acinturado Bar, da coleção New Look de 1947, os calções com folhos inspirado no vestido Cyclone de 1948, a estrutura do icónico Cigale, de 1952, ou as peças com o padrão do tradicional logo.
O lado despreocupado traduz-se em gravatas colocadas ao contrário, muitas peças em ganga desbotada e cores como o verde e o azul em vários tons. Vê-se muito de Anderson nas misturas de padrões às riscas e xadrez assim como nas malhas bordadas e nos coletes estruturados, peças que inspiram a diversão e a descontração pelos quais o designer ficou conhecido nos últimos anos. Mesmo assim, o último coordenado é um fato cinza escuro bem cortado combinado com calças levemente mais largas mas que não chegam a ser flare — a imagem que traduz o respeito do novo diretor criativo pelo legado da Dior, e também a intenção de inovar e rejuvenescer a marca. “A espontaneidade juvenil gera uma ode à imaginação: uma maneira de reinventar a si mesmo e o momento, olhando para o que é antigo para moldar novas aparências, permitindo que a empatia defina a elegância”, explica o designer.
▲ Jonathan Anderson tem 40 anos e nos últimos 11 foi diretor criativo da Loewe
Gamma-Rapho via Getty Images
A nova era de Anderson
Ao longo da semana a Dior tem partilhado imagens que moldaram esta nova visão de Jonathan Anderson, como as duas fotografias de Andy Warhol: do artista Jean-Michel Basquiat, em 1982, e da sua musa, a socialite Lee Radziwill, em 1972. “Ao começar esta nova jornada, fico sempre a regressar a estas fotografias de Basquiat e Radziwill, que são, para mim, o epítome do estilo“, afirmou o designer. Entretanto, para além de revelar um pouco da inspiração, as imagens também recuperam o logotipo em que apenas a letra D é maiúscula. A marca alterou o logo em 2018, quando optou por uniformizar o estilo, tamanho e espaçamento entre as letras.
No começo da semana a marca também levantou a ponta do véu do que se pode esperar desta nova era, com três novos modelos da clássica book tote bag, releituras das capas de dois livros clássicos da literatura, além da autobiografia “Dior by Dior”. Um deles é o romance francês do século XVIII, Les Liaisons Dangereuses, de Pierre Choderlos de Laclos, que Jonathan Anderson reproduziu em rosa claro com letras verdes. Contudo, a que tem sido mais comentada é a amarela idêntica à capa original de Drácula, de Bram Stoker.
Em 2017, à revista AnOther, o designer citou o livro como um dos textos que mais marcou e inspirou a sua vida e carreira. “Quando consegui o emprego na Brown Thomas e mudei-me para Dublin, lembro-me de andar por uma casa de tijolos vermelhos com uma placa que dizia: ‘Bram Stoker, autor de Drácula, viveu aqui’. Tive que olhar duas vezes porque não sabia que um irlandês havia escrito Drácula. As pessoas tendem a pensar que era norte-americano. Quando percebi que Bram Stoker viveu na mesma rua, Kildare Steet, em que eu estava a viver em Dublin, demorei uns dias para processar… Drácula tornou-se uma das histórias mais icónicas do século XX, mais de 200 filmes foram feitos, e o seu lado irlandês é muitas vezes ignorado. O romance foi interpretado como uma brincadeira de Stoker sobre os medos da imigração no final da era vitoriana — principalmente da Europa Oriental na época — o que mostra como a história se repete”, disse Jonathan Anderson.
Já há dois dias Kylian Mbappé surgiu nas redes sociais da Dior a usar o que serão as primeiras peças com a assinatura do novo diretor criativo. O jogador de futebol francês já trabalha com a maison desde 2021, mas agora foi chamado para a importante tarefa de apresentar a coleção masculina. Num dos vídeos aparece com um fato cinzento combinado com uma camisa azul e gravata vermelha, ambas às riscas; noutro um smoking preto clássico, se não fosse pela pérola que substitui um dos botões da camisa. Quanto à escolha de Mbappé para a campanha, Jonathan Anderson explicou que “é a voz de uma geração e uma inspiração para muitas pessoas no mundo do desporto e não só”, afirmando que o jogador tem o charme e o carisma para ser o embaixador perfeito para a Dior.
Horas antes da estreia, veio o último vislumbre das inspirações: fotografias de itens no interior do palácio de Versailles. Nos jardins de Maria Antonieta foram fotografados um anel Diorette, uma fonte com uma cabeça de carneiro dourada e uma fita métrica. Também na publicação, uma fotografia de uma cadeira rebordada por Anderson para a Dior, um relógio de ouro presente no quarto da rainha e uma imagem que mostra sapatos masculinos deixados ligeiramente desalinhados em frente à lareira da sala de guarda da rainha.
A apresentação desta sexta-feira marca o arranque da nova era Dior sob o comando de Jonathan Anderson. Contudo, deve ser também o início de um período em que devemos ter notícias do designer praticamente todos os meses, já que deve assinar perto de 18 coleções por ano: 10 de homem, senhora, alta costura e resort para a maison francesa, além das da sua própria marca e das colaborações com a Uniqlo.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]