Vi este livro pela primeira vez — furtivamente — nas oficinas da Nova Gráfica, nos arredores de Ponta Delgada (São Miguel, Açores), onde foi impresso, e logo de imediato entendi — com um espanto que alegra e fortalece — que o prodigioso trabalho do fotógrafo Martinho Mendes e da designer Ana Antunes mereceria muito mais do que a tiragem de apenas 100 exemplares a cargo do Município do Funchal, a que se devem amplos elogios pelo desígnio e empenho neste projecto editorial. Pessoas com Flores participa em todos os aspectos — incluindo a qualidade da impressão — de uma excelência discreta, que nos resguarda da brutalidade recorrente que domina ou busca dominar o nosso modo de vida, atraindo-o para um patamar de tolerância ao intolerável, para o convívio rotineiro e complacente com a perfídia, o cinismo, a mentira e a destruição. Este livro, diria, é um antídoto ao veneno dos dias de hoje.

Parece-me incalculável o dano causado por essa insensibilidade à beleza do mundo, que a biodiversidade tão em risco ainda exibe como pode, e é por isso que este portefólio fotográfico que no Funchal surpreendeu gente transportando ou vendendo flores (todo um espectro de situações de quotidiano que podiam dar gatilho para outras tantas fantasias literárias…), a par e passo colocado em diálogo com um extenso inventário de velhos postais ilustrados que testemunham como a floricultura foi um importantíssimo valor económico da ilha da Madeira (e será a intensa pirotecnica dos grandes momentos festivos um símile a considerar?!…), serve na perfeição o elogio daquela região atlântica, tão privilegiada pelo clima. Arranjos em jarras ou molhos com atilho de espadana, por exemplo, “composições botânicas” (sic) magnificamente preparadas, de resto, ou grandes planos sobre esta ou aquela flor em dupla página — que a planificação do livro geriu com especial sabedoria rítmica — levam os leitores a um folhear em que um tal zénite de cores em desfile parece querer romper os limites do imaginável.


Título: “Pessoas com Flores”
Fotografias: Martinho Mendes
Prefácio: Luís Mendonça de Carvalho
Editor: Câmara Municipal do Funchal
Design: Ana Antunes
Páginas: 298, capa dura

A construção deste livro é claramente um trabalho de grandes mestres, que talvez não tenham consciência de que o são (e até é melhor assim). Aliás, a homenagem à artista madeirense Lurdes Castro, a autora do fantástico Grand Herbier d’Ombres (2002), discretamente realizada com o uso da sua jarra em porcelana Vista Alegre na p. 95, não pode passar despercebida neste contexto.

No final, a secção “Legendas” esclarece-nos sobre cada uma das fotografias e há de seguida um índice alfabético das plantas, seus nomes científicos e respetivos ciclos de floração, o que não se estranha porquanto Martinho Mendes é também um etnobotânico com larga experiência no serviço educativo dum museu do Funchal. O convite para o justíssimo prefácio de Luís Mendonça de Carvalho não pode deixar de ser considerado, além duma abonação qualificada (tratando-se de titular da cátedra UNESCO em etnobotânica), um desafio a uma mais ampla consciência patrimonial madeirense, em particular no que diz respeito à diferente sazonalidade floral, que marca o calendário e os ciclos públicos e privados da vida naquela ilha (“um tema aparentemente efémero, mas rico em significados intemporais”, p. 8).

As teresinhas das pp. 34-35 receberam este nome vernacular pois o pico da sua floração coincide com a festividade dedicada a Santa Teresa de Jesus, a cada 15 de Outubro, depois de as teresinhas-gradas surgirem em esplendor máximo por ocasião do dia de São Miguel, a 29 de Setembro. As abundantes coroas-de-henrique são vendidas entre Julho e Setembro, logo depois dos torrões-de-acúcar, em plena floração de Abril a Julho. O perfumadíssimo junquilho, a alegre-campo e a árvore-da-prata são indispensáveis plantas ornamentais de Natal, tanto quanto as orquídeas-de-haste e as não-me-deixes não podem faltar aos tapetes florais da Festa do Santíssimo Sacramento na Páscoa, como as babaianas, de resto, e as saudades (Chrysanthemum moriflolium) tipificam o Dia de Todos os Santos, e as belas-donas se destacam em celebrações marianas. O Gladiolus cardinalis tem o pico de floração por altura da festa de São João Baptista, a 23-24 de Junho, pelo que é conhecido como haste-de-São-João.

Um livro para guardar como relíquia — ou para oferecer a quem nos mereça muito especial consideração…