Na passada quarta-feira, 16 de julho, Donald Trump anunciou no Truth Social que terá negociado com a Coca-Cola uma mudança na receita centenária. “Estive a conversar com a Coca-Cola sobre usar açúcar de cana verdadeiro na cola nos Estados Unidos da América e eles concordaram. Gostava de agradecer aos responsáveis da Coca-Cola”, escreveu o Presidente norte-americano, destacando que “este será um ótimo passo para eles — Vocês vão ver, é muito melhor!”
"I have been speaking to @CocaCola about using REAL Cane Sugar in Coke in the United States, and they have agreed to do so. I’d like to thank all of those in authority at Coca-Cola. This will be a very good move by them — You’ll see. It’s just better!" –President Donald J. Trump pic.twitter.com/9L27oxlYUj
— The White House (@WhiteHouse) July 16, 2025
Entretanto, depois de uma reação pouco elucidativa à imprensa, agradecendo o “entusiasmo do Presidente Trump pela nossa marca icónica” e afirmando que a empresa divulgaria “detalhes das ofertas inovadoras de produtos” em breve, a Coca-Cola decidiu defender a utilização do xarope de milho na receita, num texto publicado pelo The Guardian. “O nome pode parecer complexo, mas o xarope de milho de alta frutose que usamos para adoçar algumas das nossas bebidas é apenas um adoçante feito de milho. É seguro, tem praticamente a mesma quantidade de calorias que o açúcar de mesa e é metabolizado de uma forma similar pelo corpo”, diz a empresa, destacando que a Associação Médica Americana “confirma que o xarope de milho não é mais propenso a desenvolver obesidade que o açúcar de mesa ou outros adoçantes com calorias”. “Por favor, tenham a certeza de que os refrigerantes da marca Coca-Cola não contêm substâncias danosas”, termina o comunicado.
Uma reação a reafirmar a receita centenária de sucesso que há 40 anos quase foi comprometida numa ação de marketing que se revelou um verdadeiro desastre. Em novembro de 1984 tanto a Coca-Cola quanto a Pepsi anunciaram que iriam aumentar a quantidade de xarope de milho nas composições das suas bebidas, uma manobra que de acordo com um artigo do New York Times da época teria a ver com os preços mais baixos deste tipo de adoçante. A cola passaria a ser produzida com “até 100% de xarope de milho”, deixando aberta a “flexibilidade” de se usar açúcar ou até um misto de ambos. Já a rede de televisão CBS especulava que a mudança poderia ter relação com o crescimento da popularidade da Pepsi no mesmo período, além do aumento da preferência pela versão da cola diet. Especialistas consideravam uma ação ousada, mas poucos previam o fracasso que seria.
No dia 23 de abril de 1985 a Coca-Cola lançou a “new coke”, uma versão com um sabor mais suave e adoçicado. A seguir, a empresa investiu em campanhas de marketing, com anúncios de televisão apelativos com líderes de claques e atletas. Contudo, o sucesso não chegou. Pesquisas de mercado revelaram que apenas 13% dos consumidores aprovavam o novo sabor. Até a Pepsi fez troça da concorrente, com um comercial no qual perguntava: “Alguém me explica por que é que a Coca-Cola fez isso? Por que mudaram?” Segundo o Economic Times, até Fidel Castro reagiu à alteração, afirmando que era “um sinal da decadência do capitalismo norte-americano”.
Num artigo do New York Times de junho de 1985, as pessoas queixavam-se do gosto “demasiado doce” e da falta de “efervescência”, chamando o novo sabor de “tragédia”. Os escritórios da Coca-Cola estavam a receber 1500 chamadas por dia de consumidores insatisfeitos. Houve até quem afirmasse que havia trocado a coca-cola pela cerveja depois de experimentar a “new coke”, como o reformado Gay Mullins, que disse ao jornal na altura que havia reunido um grupo chamado “Old Cola Drinkers of America”, ou os “antigos bebedores de coca-cola da América”, e que recebia 60 mil chamadas por dia de pessoas a reclamar da nova versão. Mullins afirmou que queria levar a empresa de refrigerantes a tribunal para a forçar a recuperar a receita antiga.
À revista Time, um psiquiatra de Nova Iorque analisou as reações dos consumidores. “Certas coisas no nosso ambiente psicológico precisam de permanecer constantes porque estamos num mundo sempre a mudar”, afirmou o médico Bert Pepper. “As pessoas sentem-se ultrajadas e roubadas porque sentiam que havia um contrato implícito e explícito entre os que bebem cola e a empresa. Foi como uma revogação unilateral do contrato”.
Entretanto, não foi preciso um juiz determinar o regresso da coca-cola original. 79 dias depois do lançamento da “new coke”, a empresa levou novamente ao mercado a receita antiga, chamando-a “Coca-Cola Classic”. “Queríamos mudar a dinâmica das bebidas de cola açucaradas nos EUA, e fizemos exatamente isso — apesar de não ter corrido como planeámos”, confessou o CEO Roberto Gouzueta, num evento interno em 1995. A própria marca reconhece que a mudança na receita foi “o mais memorável erro de marketing da história”. A nova fórmula permaneceu à venda sob o nome “Coke II”, sendo descontinuada em 2002. Trump é um fã assumido de Coca-Cola, na versão diet: tem até um botão vermelho perto da sua secretária em que carrega sempre que quer que lhe levem uma das suas bebidas favoritas.