O trabalho começa cedo, logo pelas 7h da manhã. As duas aves da espécie Águia de Harris, “Anémona” e a “MM”, dois nomes muito ligados ao município, chegam à praia de Matosinhos numa altura em que o areal está coberto por um manto de gaivotas. Mas não será por muito tempo.
Imperiais no porte, as águias vêm pela mão dos técnicos, que as mantêm pousadas sobre uma luva e as levam até próximo do mar onde se concentram várias dezenas de gaivotas. Mal avistam a “Anémona” e a “MM” acontece uma espécie de espetáculo de natureza. Os madrugadores, que estão àquela hora na praia, ficam parados a admirar a debandada. Ao avistar as aves de rapina, as gaivotas levantam voo e abandonam o areal, que retoma o tom dourado e perde o salpicado de cinzento, branco e amarelo do bico das aves.
As águias impõem-se pela simples presença. Em nenhum momento os dois animais abandonam a luva dos técnicos. Não é necessário agir, apenas ser. As gaivotas automaticamente são afastadas ao avistarem o predador. Luís Lopes é técnico de controlo de pragas e trabalha diariamente com águias. Ao Observador explica que o objetivo é só afugentar as gaivotas. “Tentamos introduzir o predador natural, para tentar equilibrar o ecossistema. Mas este predador não as vai caçar, não as vai matar, é só para afastá-las”, esclarece.
Na praia são vários os olhares de admiração perante as duas aves. Muitas pessoas abordam os técnicos, mas há quem mostre algum receio. Luís Lopes tranquiliza os frequentadores da praia e lembra que “as águias não atacam ninguém, nenhum humano” e que mesmo nas gaivotas existe um trabalho vasto para conseguirem acompanhá-las. “Controlamos o peso da ave, sabemos ler e interpretar esses pormenores. E caso existam dúvidas não lançamos a águia. Fazemos o trabalho dessa forma para que não haja capturas nem acidentes”, sublinha ao Observador.
Câmara de Matosinhos contrata águias para afugentar gaivotas
O serviço de “Anémona” e “MM” continua da parte da manhã até às 9h. Tornam depois ao serviço já ao final do dia, entre as 17h e as 21h. O técnico explica que os horários apanham “o amanhecer quando estão na areia mais gaivotas”. Durante o dia, como “a praia vai enchendo de banhistas, as gaivotas já não param no areal”. Já ao final da tarde, as aves regressam em bando à praia e, por isso, voltam também as águias para as afugentar. A ideia é “não entrar em conflito de espaço com os banhistas”.
Pode até parecer uma decisão fora do comum, mas Luís Lopes salienta que a utilização de águias é mais habitual do que parece. “É pouco visível para as pessoas mas é uma prática já efetuada pelo país inteiro, Europa e por aí fora”, conta. Só na cidade do Porto os McDonalds nas Antas, Aliados e Ribeira também contam com Águias de Harris para afastarem as gaivotas, bem como alguns estabelecimentos hoteleiros.
Lúcifer, a águia-de-Harris que expulsou as gaivotas num hotel de luxo de Gaia
As populações de gaivotas estão a afetar a qualidade balnear
São cerca de 14 mil gaivotas que sobrevoam diariamente a praia de Matosinhos e que têm impacto na qualidade balnear. De acordo com a vereadora do ambiente da Câmara Municipal da cidade, Manuela Álvares, as gaivotas tornaram-se “praga”. “Os E.colis (bactérias) encontrados quando a praia de Matosinhos não está de acordo com as regras de uso balnear são em mais de metade de origem animal”, adianta ao Observador.
A E.coli é uma bactéria presente no intestino humano e animal. Quer isto dizer que aquelas gaivotas e outras aves como os pombos, que também frequentam a zona, acabam por defecar naquelas áreas e, assim, contaminar a praia – que se encontra, até ao momento, com interdição a banhos.
A vereadora do ambiente garante que a autarquia está a “avaliar” e “monitorizar” os dados e não há planos para estender a estratégia das águias a outras zonas da cidade. “É uma ação piloto durante a época balnear. Vamos avaliar com a área metropolitana do Porto”, que lançou a ideia da utilização das aves de rapina, a manutenção da estratégia anti-gaivota e anti-pombo.
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