A maioria dos professores gosta do que faz e sente-se realizado, mas não considera a carreira atrativa, entende que os salários são baixos e, por isso, não incentivaria um jovem a escolher a profissão, de acordo com a consulta nacional promovida pela Federação Nacional da Educação (FNE) e pela Associação para a Formação e Investigação em Educação e Trabalho (AFIET). O documento conclui ainda que a maior parte dos docentes é contra a utilização de smartphones no recreio em todos os ciclos de ensino e, no caso do básico, mais de metade discorda que os dispositivos entrem nas salas de aula, mesmo que para fins pedagógicos.

A consulta foi realizada entre 13 e 27 de julho, o inquérito foi feito a 4.638 professores, do pré-escolar ao secundário, e há opiniões quase unânimes, desde logo o gosto pela profissão.

De acordo com os resultados, 94,4% gostam de ser professor e perto de oito em cada 10 dizem sentir-se realizados no exercício profissional. Os sentimentos positivos não têm, no entanto, reflexo naquilo que pensam sobre as condições de trabalho e as queixas partilhadas na consulta nacional são semelhantes às registadas nos anos anteriores pela FNE.

Mais de 90% dos inquiridos consideram trabalhar muito para aquilo que recebem e entendem que os salários não estão ao nível das qualificações e competências exigidas. Por outro lado, mais de 70% dizem que a profissão não é globalmente reconhecida, a carreira não é atrativa, e sentem-se constantemente avaliados e julgados.

Por isso, e apesar de gostarem do que fazem, a maioria dos professores (73,2%) não incentivaria um jovem a escolher a carreira docente. São, ainda assim, menos do que os que responderam no mesmo sentido na consulta realizada há um ano (menos 10,9 pontos percentuais).

Numa espécie de balanço do último ano letivo, o ranking dos maiores desafios enfrentados pelos docentes é liderado pelo trabalho administrativo, seguindo-se a necessidade de responder à diversidade das necessidades específicas de cada aluno, a conciliação entre o trabalho e vida pessoal e a indisciplina em sala de aula. Para mais de metade (55,7%) faltaram recursos e apoios para trabalhar com os alunos e 44,8% gastaram mais tempo, face ao ano anterior, em tarefas burocráticas que a maioria considera pouco úteis ou inúteis.

Questionados sobre as prioridades de investimento na sua escola, o apoio a alunos com necessidades especificas é a resposta mais frequente (19,2%), seguida do reforço de pessoal de apoio educativo (18,8%) e de pessoal docente (16,7%). Cerca de 11% referiram também o reforço de recursos materiais e de técnicos especializados e 8% apontam a melhoria da climatização das salas de aula.

O inquérito abordou outras questões, como a indisciplina nas escolas que, para metade dos inquiridos, aumentou em relação ao ano anterior. Neste âmbito, é sobretudo a incapacidade de os alunos seguirem regras que preocupa os docentes, mas também as conversas em sala de aula, a não realização de trabalhos, a distração com telemóveis, a violência entre alunos, a assiduidade irregular e o abuso verbal.

Só um quarto dos docentes não teve dificuldades em lidar com a indisciplina em sala de aula. Os principais desafios referidos são a falta de apoio dos pais, a sensação de stress devido à gestão constante de situações de indisciplina, limitações administrativas decorrentes do estatuto do aluno e falta de apoio da direção.

Maioria dos professores contra telemóveis no recreio até ao 12.º ano

Entre os docentes inquiridos, a maioria discorda que os alunos até ao 9.º ano possam utilizar telemóveis nos espaços escolares, mas muitos vão mais longe. Perto de sete em cada 10 professores consideram que nem os mais velhos deveriam poder usar smartphones no recreio, uma restrição que nunca chegou sequer a ser recomendada pelo governo.

No ano passado, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) recomendou a proibição de smartphones do 1.º ao 6.º ano de escolaridade, ou seja, até aos 12 anos, mas a partir de setembro a recomendação vai passar a regra. Para o 3.º ciclo, a ideia do Governo é promover o uso limitado, responsável e adaptado, mas a partir do 10.º desaparecem as limitações, estando apenas previsto o “uso responsável e adaptado”.

Por outro lado, a FNE procurou também saber o que os professores pensam sobre o recurso aos telemóveis como ferramentas de trabalho e, apesar de haver uma maior aceitação dos equipamentos para esse fim, mais de metade (52,8%) discorda da utilização pedagógica no ensino básico.

Nesse âmbito, a posição dos docentes é diferente quando estão em causa os alunos mais velhos e 63,3% concordam que os smartphones possam ser usados no âmbito das aulas.

Mais de 90% dos docentes tenta acompanhar e aplicar tecnologias digitais

Quanto aos manuais escolares digitais, regista-se uma minoria favorável, sendo que 65,8% preferem o papel. No próximo ano letivo, as escolas a partir do 2.º ciclo vão poder optar pelos dois formatos, mas terão de justificar a decisão se escolherem o formato digital.

A decisão do MECI baseou-se nas conclusões de um estudo da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), que concluiu que não existem efeitos significativos nos resultados dos alunos. Relativamente à digitalização, a esmagadora maioria (94,3%) dos professores procura acompanhar as transformações e aplicá-las na sala de aula e sete em cada 10 considera até que poderão alterar positivamente as condições de aprendizagem.

Ainda assim, cerca de metade acha que também vão dificultar o trabalho em sala de aula e, no que diz respeito à Inteligência Artificial (IA), por exemplo, 64,7% afirma que não tem conhecimentos suficientes que permitam avaliar se os trabalhos dos alunos são realizados com recurso a IA generativa.

Alguns professores já recorrem a ferramentas de IA na preparação das aulas ou em atividades desenvolvidas nas aulas, mas são uma minoria e, sobretudo, os mais jovens. Apesar da crescente digitalização do ensino, os resultados revelam que 34,2% não frequentaram nenhuma ação de formação de capacitação digital, percentagem que a FNE considera ainda elevada.