O movimento acelerado na aldeia de Entre Ambos-os-Rios, em Ponte da Barca, mostra que a população está unida com um objetivo em mente: acabar com o incêndio que já dura desde a noite do passado sábado.
O fogo continua a alastrar a várias aldeias vizinhas, mas ali, naquela região há uma sensação de ordem. Isto, porque, há uma operação montada por locais que está a assegurar a logística dos vários profissionais que combatem as chamas.
A Câmara de Entre Ambos-os-Rios servia, a meio do dia, de posto de comando. Dali saem as ordens, as equipas para o terreno e são feitas as refeições. O espaço pintado de verde — que contrasta com o cenário cinzento da restante aldeia — tem várias mesas e algumas carrinhas que servem de zona de reuniões no terreno.
Um pouco mais acima está o Pavilhão Gimnodesportivo. Está aberto de manhã à noite, para que os profissionais consigam descansar. Ainda assim, e entre alguma preocupação ouve-se que “não deve haver ninguém a descansar lá”. O dia já vai a meio e sem perspectivas de acabar.
Está a chegar a hora do almoço e é perceptível um alvoroço de uma equipa vinda de uma garagem naquele recinto. São pouco mais de 10 pessoas, desde crianças e adultos, que reúnem esforços pelo bem comum. Luísa Fernandes é uma destas pessoas. “Nascida e criada” em Entre Ambos-os-Rios, tal como os que por ali ajudam, explica que era inevitável ir até ali. “Eles estão a contribuir lá em cima, nós temos de contribuir cá em baixo”, conta com um sorriso emocionado ao Observador.
A organização do pequeno espaço implicou “pôr mesas de apoio, para atrás e para a frente, ajustar tudo” para conseguirem de forma eficaz servir os mais de 300 operacionais que vão passando pela cantina ambulante montada no espaço. Esta segunda-feira o almoço é rancho. Mas, não vem só. “Vamos ter rancho, mas também bebidas e fruta que é para mantê-los sempre cheios de energia, porque se não comerem, não têm forças para combater o incêndio”, conclui a ajudante.
Os horários dos almoços são geridos em função dos operacionais. “Às vezes quando uma equipa está a terminar o turno vem a equipa completa para depois poderem ir descansar. Mas há também equipas em que vem um membro do grupo buscar a comida. Eles dizem-nos o número de operacionais e nós organizamos e enviamos tudo para eles”, explica.
De acordo com Luísa Fernandes, “cerca de 250 operacionais consomem a comida” onde estão a combater os incêndios, enquanto que os restantes 70 comem ali. Os vários mantimentos que vão chegando ao espaço provêm de uma gestão entre a Proteção Civil e a Câmara Municipal. Ainda assim, a ajuda tem chegado de todos os lados “desde o município até à população, às lojas e supermercados”.
A força de vontade da região sobrepõe qualquer cansaço. Luísa Fernandes revela mesmo não arredar pé do espaço desde domingo. “Ainda não dormi. Estou desde as sete da manhã do dia de ontem sem dormir”, confessa com a certeza de que só vai conseguir descansar quando o cenário de terror terminar. Ali, é notório e essencial o compromisso e o “contributo de todos”.
Saindo do recinto da Câmara Municipal há espaço para uma outra pessoa que faz a ação acontecer. Emanuel Armada faz parte de uma empresa de distribuição de gás, que faz entregas ao domicílio. É ele que abastece todos os carros que circulam pela região. Vai fazendo a gestão e apontando meticulosamente a cada abastecimento.
Têm sido dias “complicados”, mas é essencial que este serviço esteja assegurado, mesmo que com poucas horas de sono. “Ontem fui para o Lindoso, eram oito da noite. Saí de lá eram 3 da manhã. Depois vim hoje (segunda-feira) para aqui às seis da manhã para abastecer os auto-tanques que estão a chegar”, conta ao Observador.
A razão para toda a correria está no facto de existirem “muitos meios do país que tinham de ser abastecidos”, uma vez que, estão vários operacionais de outras regiões a ajudar no combate a este incêndio. No total foram requisitados “à volta de 3 mil litros” de combustível. Dependendo do estado do fogo, pode, ainda assim, ser preciso dirigir-se até a um dos dois postos de abastecimento de Ponte da Barca ou de Arcos de Valdevez.