O homem que esta quinta-feira entregou no Hospital de São José a cabeça do homem assassinado na madrugada de quarta-feira, em Lisboa, apresentou aos inspetores da Judiciária uma linha cronológica do que terá acontecido antes de ter cometido o crime. O suspeito, natural de um país africano, é um estudante de estudos pós-graduados em engenharia numa universidade de Lisboa, tem 29 anos e terá decapitado a vítima (natural de um outro país africano, este de língua oficial portuguesa) e mutilado o corpo, com uma faca de cozinha. Já foi detido e será presente a primeiro interrogatório judicial.

Segundo a Polícia Judiciária, o suspeito está “fortemente indiciado pela prática dos crimes de homicídio qualificado, profanação de cadáver e posse de arma proibida, ocorridos em Lisboa, na noite de 29 para 30 de julho”. Este apresentou-se de forma voluntária no Hospital de São José, com a intenção de entregar a cabeça.

Não é certo se se conheceram imediatamente antes do crime

Os inspetores estão neste momento a tentar responder a muitas questões em aberto e a confirmar a tese apresentada pelo suspeito durante o interrogatório para poderem montar o puzzle do que aconteceu desde que ambos se conheceram — e se isso aconteceu efetivamente pouco antes do crime, como terá sido relatado pelo suspeito — até que o crime teve lugar num beco sem saída junto ao Rossio.

Para já, “não há sombra de dúvida que a causa de morte” foi um esfaqueamento e degolação e que tanto o assassinato como o corte da cabeça aconteceram no local onde o corpo foi encontrado, confirma ao Observador fonte ligada à investigação. O cenário, nomeadamente a grande mancha de sangue na rua, foi suficiente para que os inspetores descartassem numa fase inicial qualquer hipótese de o crime ter sido cometido em qualquer outro local e o corpo depositado ali numa fase posterior.

Apesar de estar a poucos metros de uma das praças mais movimentadas de Lisboa, o Pátio Salema, palco do crime, tem menos movimento que as artérias adjacentes, sendo um beco conhecido das autoridades pela associação ao tráfico e consumo de droga. Contudo, fonte ligada à investigação garante ao Observador que a vítima “conhecia” aquela zona, mas não a associa a qualquer atividade criminosa.

A mancha de sangue no coração de Lisboa. “Abriu a porta e viu” o homem decapitado, numa “casa de banho ao ar livre”

Quando o suspeito se deslocou ao hospital de São José, que fica próximo do local do crime, revelou logo que se tratava da cabeça do homem encontrado junto ao Rossio, nunca tendo tentado ocultar o seu envolvimento no caso, apurou o Observador junto da investigação, que terá encontrado um homem num “estado psicológico especial”.

“Estado psicológico especial”. Inspetores admitem perícia psicológica ao suspeito

Uma fonte conhecedora da investigação sublinha, no entanto, que o facto de não estar aparentemente bem não significa, à partida, que haja inimputabilidade. Mas os investigadores veem como ajustado que tenha de ser submetido posteriormente a uma perícia para avaliação psicológica.

As autoridades estão ainda a confirmar vários detalhes fornecidos, sendo para já praticamente certo que frequentava estudos pós-graduados numa reconhecida universidade portuguesa, na área de engenharia. Ainda assim, fonte consultada pelo Observador descreve o detido como “uma pessoa num estado psicológico abalado” e que apresentou “um discurso muito peculiar”.

Quanto à vítima, cuja identidade era até esta quinta-feira desconhecida, foi identificada e trata-se de “um cidadão estrangeiro, de 34 anos”, refere um comunicado da Judiciária, adiantando que estava “em situação regular no país”. E os inspetores estão convencidos de que a cabeça humana entregue “pertence à vítima” deste crime.

PJ descarta que crime tenha sido cometido por tráfico de droga

Na tarde desta quinta-feira, a Polícia Judiciária “submeteu o suspeito a um conjunto de diligências de prova, cujas conclusões indiciavam-no como sendo o autor material dos factos”. E tudo aponta para que não conhecia a vítima antes do dia do crime.

A vítima e o suspeito são ambos de nacionalidade estrangeira e ter-se-ão conhecido só na noite do crime, que terá ocorrido umas horas depois em plena rua, na sequência de um desentendimento entre ambos. Não há testemunhas. Às autoridades, o homem terá descrito todos os momentos do crime assim como os procedimentos seguintes, que levaram depois à entrega da cabeça — que levava na mochila — ao Hospital de São José, em Lisboa.

Segundo a PJ, em causa terão estado estarão “razões de índole pessoal, apesar do conhecimento entre ambos ser temporalmente muito próximo da ocorrência”. “Não foi recolhido qualquer indício que relacionasse o crime com o tráfico ou o consumo de estupefacientes”, esclarece ainda esta polícia.

Faca do crime e outros objetos foram apreendidos

Durante a tarde de ontem foram, ainda, apreendidos diversos objetos “com interesse probatório, entre eles a faca que se presume tenha sido utilizada na consumação do crime”.

O suspeito só deverá conhecer as medidas de coação este sábado e a PJ prossegue com diligências.

Esta quarta-feira foi encontrado no Pátio Salema um homem decapitado, sem identificação e sem a presença da cabeça no local. Essa foi depois encontrada esta quinta-feira, quando o alegado homicida se deslocou àquela unidade hospitalar referindo que a cabeça “estava relacionada com esta situação”, como avançou ao Observador fonte oficial do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP.

[Horas depois do crime, a polícia vai encontrar o assassino de Issam Sartawi, o dirigente palestiniano morto no átrio de um hotel de Albufeira. Mas, também vai descobrir que ele não é quem diz ser. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o segundo episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro aqui]

Texto atualizado às 13h desta sexta-feira, dia 1 de agosto de 2025, com detalhes sobre o suspeito.