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Pátio Salema, perto do Teatro D. Maria II, foi palco de uma descoberta que chocou Lisboa: um homem apareceu decapitado num beco muito frequentado por sem-abrigo
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▲Pátio Salema, perto do Teatro D. Maria II, foi palco de uma descoberta que chocou Lisboa: um homem apareceu decapitado num beco muito frequentado por sem-abrigo

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Pátio Salema, perto do Teatro D. Maria II, foi palco de uma descoberta que chocou Lisboa: um homem apareceu decapitado num beco muito frequentado por sem-abrigo

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A mancha de sangue no coração de Lisboa. "Abriu a porta e viu" o homem decapitado, numa "casa de banho ao ar livre"

Há indícios de que a decapitação ocorreu no local, a escassos metros de uma das zonas mais turísticas de Lisboa. Zona é frequentada por sem-abrigo e toxicodependentes. Cabeça entregue no hospital.

Fábio (nome fictício) ainda se vestia, em casa, às 6h desta quarta-feira, quando recebeu uma chamada. Do outro lado, ofegante, um colega relatava-lhe o impensável: “Estava a lavar-me e a preparar-me para vir à obra e o segurança liga-me, em pânico. Diz que abriu a porta e viu um corpo decapitado. Acalmei-o, mandei-o acalmar-se para chamar a polícia”, contou ao Observador o trabalhador de uma obra no Pátio Salema, em pleno coração de Lisboa.

Homem encontrado decapitado no centro de Lisboa

A apenas 100 metros da praça do Rossio, onde com o arranque da manhã já circulavam centenas de turistas numa das mais movimentadas zonas da cidade, um homem, que a PJ acredita ter “origem africana”, vestido e sem documentos, estava deitado sem sinais de vida. Além do segurança, outra mulher que estava no local apercebeu-se do corpo e tirou um chapéu que cobria a parte superior do pescoço. Ao levantá-lo, percebeu que o cadáver não tinha cabeça. Rapidamente foi acionada a PSP. Atendendo às características do caso, a Polícia Judiciária (PJ) foi chamada e já está a investigar o caso. O objetivo principal, nas primeiras horas, era claro: apurar a identidade da vítima, para depois chegar à identidade do assassino.

Essa tarefa seria facilitada por desenvolvimentos no caso, já esta quinta-feira. Ao início da tarde, um homem entrou no Hospital de S. José, a uns 350 metros de distância do local onde o corpo foi encontrado. Disse que tinha chegado ali levando consigo uma cabeça humana. E que a mesma “estava relacionada com a situação” descoberta na madrugada do dia anterior: o homicídio de um homem no centro da cidade. A PSP foi a primeira força a intervir, ainda no hospital, retendo o homem que passaria a ser o principal suspeito do crime. Logo a seguir, a PJ entrava em campo, assumindo a condução do primeiro depoimento.

▲ Foi entre esta casa de banho portátil e o saco de entulho que apareceu o cadáver decapitado. Homem estava vestido e não tinha documentos

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Mas essa evolução deixava ainda várias questões em aberto sobre o caso. Desde logo, onde é que a vítima foi morta. Ao contrário do que é habitual neste tipo de situações, fonte ligada à investigação garante ao Observador que há indícios fortes que apontam para que a degolação tenha ocorrido no local, ainda que essa atuação “comporte riscos”. O mais comum, assegura a mesma fonte, é o crime ser cometido noutro local para depois o cadáver ser despejado numa zona escolhida, o que não se parece verificar nesta ocasião atendendo a um dado: há grandes manchas de sangue no local onde a vítima apareceu.

Homem que entregou cabeça no Hospital de São José confessa crime

Apesar de ficar perto do Coliseu dos Recreios, do Teatro D. Maria II e da Igreja de S. Domingos de Lisboa, o pequeno beco que começa depois das Escadinhas da Barroca, coladas ao Largo de S. Domingos, não é recomendado pelos vizinhos. “Costumo passar ali, mas não à noite, porque é um antro de droga e prostituição”, desabafa Gilberto, de 73 anos, a viver ali há pelo menos 15.

▲ A única entrada para carros do beco onde apareceu o corpo. Ao lado esquerdo, o Palácio da Independência e à direita o edifício da Ordem dos Advogados

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Fortes indícios de que a decapitação tenha ocorrido no local onde foi encontrado o corpo

Quando os agentes da PSP constataram o estado do cadáver, apressaram-se a acionar a PJ, que recebeu o alerta pelas 7h15. Em simultâneo, a polícia cortou os acessos ao local para impedir a circulação de pessoas num local de crime, colocando uma faixa de segurança nas duas entradas: uma, na única entrada acessível aos carros, junto à sede do Conselho-Geral da Ordem dos Advogados, e outra no topo de umas escadas.

Impedido de passar ficou Fábio, que, como outros colegas, acabaram por ter folga do trabalho nas obras de um prédio. Ainda assim, dirigiu-se ao local. “Quando cheguei, já não me deixaram ir à obra. Agora ninguém pode ir”, explicou, minutos antes de a rua ser reaberta.

Enquanto o Rossio se enchia, cada vez mais, de turistas, a PJ ia realizando perícias no local para tentar chegar a uma conclusão. Reconhecendo que esta zona é “conotada com o consumo de droga, tráfico e pequena recetação”, os investigadores admitem que o crime possa estar relacionado com conflitos por droga. E essa é outra das dúvidas ainda por esclarecer — para já, nenhuma hipótese foi descartada. Todavia, fonte consultada pelo Observador explica que não é comum haver agressões bárbaras desta natureza entre sem-abrigo, que constituem a maioria das pessoas que circulam naquele beco.

▲ Sapadores estiveram no local a limpar sangue

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Mais plausível é que haja conhecimento” entre vítima e agressor (ou agressores) e que a decapitação tenha ocorrido para o suspeito ganhar tempo. “Se houver morosidade” na identificação, o homicida ganha tempo para fugir, explica a mesma fonte. Cabe agora ao Instituto de Medicina de Legal de Lisboa apurar a identidade do corpo encontrado.

Como referido, e ao contrário do que é comum nestes casos, a PJ admite que o corpo possa ter sido mutilado no local, atendendo à grande mancha de sangue encontrada. Ao Observador, Fábio, trabalhador das obras que, alertado pelo colega, foi uma das primeiras pessoas a saber do decapitado, garante que aquela mancha de sangue não estava ali antes. “Passo aqui todos os dias. Já a teria visto.”

PJ tenta identificar cadáver para perceber o que levou à morte deste homem. Ao contrário do que é habitual nestes casos, é provável, atendendo à mancha de sangue no local, que o corpo tenha sido decapitado no local onde o corpo foi encontrado.

Para tentar decifrar o que aconteceu, a PJ falou com o homem que viu o cadáver quando saiu da obra para ir às casas de banho descartáveis que a empresa de construção colocou na rua, junto ao edifício onde os trabalhos decorrem. Ao lado de um desses contentores portáteis estava o corpo, encostado a um monte de entulho da construção. “A Judiciária fez-lhe perguntas: se viu, como foi, como é que o corpo estava. Ele viu o corpo, mas não sabia se estava a cabeça, quando tiraram o chapéu é que viram. A PJ esteve lá na obra, perguntaram-me se dormia alguém [na rua]. Disse: ‘Epá, quando chego à obra vejo sempre uns sujeitos a dormir. Até peço licença para entrar’”, relata Fábio, já à porta do prédio que está a ser reabilitado, enquanto divide o olhar entre o chão e o relógio, à espera do colega que o deverá render.

O colega, o mesmo que viu o cadáver na manhã de quarta-feira, acabaria dispensado de ir trabalhar por “não estar em condições”, depois de ter visto um corpo decapitado. “Ainda bem que não fui eu a ver”, acrescenta Fábio, que não se mostra surpreendido com este caso: “Para mim, não foi surpresa nenhuma”, diz, apontando ao movimento daquela rua e aos confrontos frequentes.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Moradores e turistas relatam insegurança em zona conhecida pelas autoridades

Mesmo em frente à entrada do Conselho Geral da Ordem dos Advogados, no Largo São Domingos, todos os dias dezenas de pessoas sentam-se em bancos com os mais variados produtos aos seus pés, tentando convencer turistas e não só a comprar os produtos. Há de tudo nesta feira ambulante: desde roupa interior a aparelhos eletrónicos (foi neste local que foram vendidos os dez portáteis furtados em agosto de 2024 da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna).

Assaltante da secretaria-geral do MAI condenado a cinco anos e três meses de prisão

Esta quarta-feira, porém, o movimento dissipou-se “desde que chegaram os polícias”, relatam algumas pessoas. Os feirantes permanecem sentados no local, mas não há produtos expostos. O negócio só se ressentiu umas horas. Pelas 15h, nove horas depois de a PSP se ter dirigido ao local, voltaram a abandonar a cena do crime. Sem demoras, já estavam novamente a vender e a regatear preços.

São necessários poucos passos no beco entre o Palácio da Independência e o edifício da Ordem dos Advogados para o olfato constatar uma das finalidades apontadas pelos populares para aquela rua escondida. “O Pátio Salema serve de casa de banho ao ar livre”, descreve Pedro (nome fictício), dono de um Alojamento Local, que também prefere manter o anonimato.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Mesmo depois da limpeza efetuada pelos Sapadores — normalmente acionados quando, como neste caso, há sangue na rua —, que estiveram vários minutos a apontar a mangueira contra os resíduos à volta de um caixote do lixo, é impossível não notar o cheiro que se faz sentir. Ao longo do beco, o chão diante dos edifícios — muitos devolutos, alguns Airbnb e poucas habitações — está repleto de lixo. Pedro diz que, recentemente, tem recebido muitas queixas de clientes que dizem não estar habituados àquele cenário.

“Num prazo de dez dias, fui assaltado duas vezes. Esta zona está um perigo, cada vez está pior. Não digo que sejam só desalojados, mas é muito inseguro, especialmente durante a noite. Recentemente, mal se podia passar por aqui: lixo, colchões, tudo e mais alguma coisa. É um perigo de higiene”, conta o dono de um Alojamento Local ali perto.

[Horas depois do crime, a polícia vai encontrar o assassino de Issam Sartawi, o dirigente palestiniano morto no átrio de um hotel de Albufeira. Mas, também vai descobrir que ele não é quem diz ser. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o segundo episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro aqui]

Questionado sobre se o movimento que descreve naquela rua sempre foi assim, o dono de um outro AL, na rua paralela ao local onde foi encontrado o cadáver, suspira profundamente, recordando tempos em que aquela zona “era mais sossegadinha”. “Não tem nada a ver. A vizinhança era muito melhor, agora é raro as pessoas que vivem cá constantemente”, desabafa, de braços cruzados e óculos pousados na testa.

Nas plataformas de arrendamento destes alojamentos, os anunciantes usam a localização como trunfo. “Estes apartamentos estão muito bem localizados no Rossio. Quer estejas interessado em história, cultura ou apenas queiras absorver a atmosfera desta maravilhosa cidade, não há melhor local para estar”, lê-se num do anúncios.

À porta de um desses apartamentos, dois turistas sul-americanos parecem não concordar com a descrição. “Definitivamente”, este sítio parece pior que o resto de Lisboa, diz Alfredo. Ainda assim, o cubano a viver no Canadá diz que o cenário que encontrou em Lisboa não o choca: “Venho de Toronto…”

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Na noite anterior ao crime chegaram ao alojamento pouco depois da meia-noite e viram “umas pessoas que pareciam drogados nas escadas”. “Sentia-se o cheiro a droga queimada, não sei se era crack”, prossegue. De manhã, quando saíram, já sentiram o “ambiente pesado” e viram a polícia praticamente à porta, mas não chegaram a ver o corpo.

Em frente ao alojamento estão as casas de banho onde o cadáver apareceu. Junto a eles está novamente Fábio, que continua a deambular pelo local a lamentar a morte. Desabafa a tristeza por um colega ter assistido àquela cena.

Turistas e trabalhadores descrevem local inseguro que não se assemelha à restante cidade lisboeta. "Confusões, há todos os dias. Se vier aqui à noite, é conhecido por toda a gente, até pela polícia, que é só pessoal da droga", relata também uma moradora.

“Quando vim para aqui trabalhar assustei-me. Estou nesta obra há um ano e qualquer coisa. É o piorio, eu quando vim para aqui assustei-me. O engenheiro que me trouxe disse: ‘Tens que te habituar porque é assim’, e acabei por habituar-me”, descreve o guineense há “vários anos” em Lisboa. Diz que “é de longe” o pior sítio onde já trabalhou.

“Antigamente, tinha andaimes e era um corrupio de drogados. Passaportes, malas, carteiras, seringas. Eles roubam os turistas e levam para ali, escondem-se ali. Até me conhecem, vão lá pedir para beber água de uma torneira.”

Lu, como prefere ser chamada, está há 23 anos a viver na zona e diz que, com ela, nunca houve problemas, mas já viu muitos desacatos: “Confusões há todos os dias. Se vier aqui à noite, é conhecido por toda a gente, até pela polícia, que é só pessoal da droga. Há muitos [furtos por] esticões. A semana passada [aponta para uma casa], foi assaltada duas vezes.”

Outro jovem, que passa quase todos os dias naquela rua, diz que na noite anterior ao corpo ter sido encontrado ouviu duas pessoas a discutir muito alto. “Pensei: ‘ainda se vão matar”, conta, concordando que os desacatos na rua são constantes.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Câmaras não ajudam PJ em zona onde faltam polícias

Nas primeiras horas, a maior dificuldade passava por chegar à identidade do corpo encontrado decepado. A PJ depositava esperanças na videovigilância das redondezas, a maioria afetas a espaços de AL. Como é procedimento habitual, começou de imediato a ser feito “o varrimento da zona” para encontrar câmaras.

Mas o Observador sabe que os equipamentos mais próximos, que poderiam ter captado algumas das imagens com movimentos suspeitos na madrugada de terça-feira, não seriam considerados úteis para a investigação.

A freguesia de Arroios, à qual já pertence este beco, pediu, em fevereiro, mais câmaras nas ruas, pedido que foi reiterado pela autarquia lisboeta. Depois de a presidente da Junta de Freguesia de Arroios, Madalena Natividade (independente eleita pelo CDS-PP), ter emitido um comunicado onde escrevia que “a videovigilância é uma ferramenta essencial para melhorar a segurança pública e prevenir a criminalidade”, Carlos Moedas endereçou ao Governo um pedido para a implementação, “com caráter urgente”, de um sistema de videovigilância na freguesia.

Câmara de Lisboa pede ao Governo videovigilância na freguesia de Arroios

“Vão apanhar [o suspeito] com as câmaras”, diz, esperançosa, Rita, que vive perto do local. As pessoas que passam por ali, ouvidas pelo Observador, concordam que os problemas de insegurança poderiam ser resolvidos com mais videovigilância, mas pedem, também, a presença de mais agentes da PSP pelas ruas.

Dizem que é habitual ver a polícia no Largo São Domingos e no Rossio, “mas raramente sobe estas ruelas”. A PSP conhece a natureza dos movimentos que se verificam nestas ruas. Recentemente, em março, “tendo conhecimento prévio de locais de recetação de material furtado/roubado”, onde não encontraram o objeto subtraído, os agentes acabaram por deparar-se “com uma transação de estupefacientes”, tendo apreendido 37 doses de cocaína.

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