As perguntas foram insistentes, a intenção de manter o tabu não ficou atrás. Quando Luís Filipe Vieira foi ao Now no primeiro dia de agosto, a seguir à vitória do Benfica frente ao Sporting na Supertaça, todos pensavam que haveria o anúncio de uma decisão sobre a possibilidade de ser candidato às eleições. Resistiu até onde foi conseguindo, acabou por confidenciar que estava dependente apenas de uma resposta nos dias que se iriam seguir para saber se tinha ou não condições para agarrar no clube “como está hoje”. Pouco mais de duas semanas depois surgia nova oportunidade por essa resposta pela qual todos esperavam – incluindo os cinco candidatos já confirmados na corrida, que faziam depender parte da estratégia desta última carta.
Antes, em mais uma aparição pública, Vieira tinha difundido o raio dos ataques. Rui Costa não deixou de ser visado como já tinha acontecido antes (a começar quando pediu desculpa a todos os benfiquistas por apelidar o antigo número 10 de “delfim” após a sua saída), Pedro Proença acabou por tornar-se no maior alvo ao longo de toda a entrevista no Now, ainda houve tempo para deixar várias vezes nas entrelinhas que sabia tudo o que se passava nos corredores da Luz. E foram essas ideias que acabaram por ter mais impacto junto do universo benfiquista nas últimas semanas, que mesmo depois do arranque oficial da temporada continua a viver muito à luz daquilo que está a ser a corrida eleitoral numa fase prematura ainda de pré-campanha.
“Só estou à espera de uma resposta, que para a semana já tenho. Falta isso e avanço, é uma resposta. Penso que vamos ter alguns problemas e tenho de estar preparado para tudo, para ter todas as soluções. É só essa resposta e digo que vamos avançar, para marcarem uma entrevista na TV para anunciar que vou ser candidato às eleições do Benfica”, referira. “Na próxima semana devo ter essa resposta. Falarei com todas essas pessoas e digo ‘Está caminho livre para avançar’. Depois para a outra anunciaremos. Reunidas aquelas condições que penso que vou ter, vamos avançar”, assegurara. Faltava apenas o tal “sim” entre os “recados”.
“A avaliação a Rui Costa já está feita. A minha avaliação, logicamente, é negativa. É uma pessoa que não é líder. Uma pessoa muito fraca emocionalmente não pode ser presidente do Benfica. Uma pessoa que se veste dos princípios em que são os outros que dão opiniões não pode ser presidente. Se tenho toupeiras na Luz? Eu? Não tenho toupeiras… Tenho o número de telefone e falam comigo, não ando à procura de ninguém. Posso falar com uma ou outra pessoa porque gosto. A informação chega. Imagine que anda aqui tudo aos encontrões e fica a pensar se um dia vai deixar de receber [o salário]. É isso que está a acontecer no Benfica. A mensagem que transmitem é ‘Isto está uma bandalheira’. Se tiver um presidente que é líder e que delega, todos sabem quem manda e dirige. Hoje é um pesadelo estar dentro do Benfica. Só 20 ou 30 pessoas têm alegria. São os muchachos, os boys“, tinha apontado na entrevista ao Now.
“O Rui Costa teve tempo suficiente para aprender. Disse que poderia ser um bom substituto, nunca pensei estar tanto tempo. Quis ser fiel à palavra mas disse para não perder a estrutura profissional. Queriam mudar o modelo do Benfica e agora está aí a resposta. O mais importante é o Benfica. Não tenho nada contra o Rui Costa pessoalmente, não lhe desejo mal algum, não posso é ver 20 anos do meu trabalho e de outras pessoas desmantelado. Para mim é importante olhar para o Estádio da Luz. Fui há dias no Estádio da Luz falar com o presidente da Mesa da Assembleia Geral. Nunca pensei ver lá aranhas no estacionamento… A pintura branca já parece cinzenta…. No Seixal, até a relva cresce no cimento. É falta de manutenção. Quando amolecemos, acordamos tarde. Esta direção é amolecida e incompetente”, frisara.
Agora, num modelo diferente de entrevista entre TVI e CNN, surgia aquele que seria um dos momentos mais importantes na antecâmara da “verdadeira” corrida eleitoral, com a hipótese de haver a presença de um Luís Filipe Vieira que, tendencialmente, poderia dividir mais votos com Rui Costa do que com os quatro restantes candidatos. Para isso, era preciso a tal “resposta”. E a “resposta” foi afirmativa: vai mesmo a jogo.
“Eu tinha milhões depositados quando entrei no Benfica, quando saí vim com muito menos“: Vieira é candidato, diz que não está “rico“ mas que o Benfica comporta-se como se fosse – “há petróleo?“ https://t.co/wwJX6vLzQY
— CNN Portugal (@cnnportugal) August 19, 2025
“As circunstâncias mudaram todas, é verdade que vou ser candidato. Tem a ver com o legado que deixei. Deixei o Benfica com um património como nunca teve, uma estrutura elogiada em termos europeus. Acho que deixei um clube organizado, deixei uma casa como nunca ninguém deixou. Ao longo destes quatros anos tudo foi destruído, menos o património que está deteriorado. Falo com muitas pessoas, sou como um pai de alguns, que me dizem o que se sente lá dentro. Vemos que aquilo se está a deteriorar. O Benfica deixou de inovar, deixou de ter estratégia, perdeu também a corrida nos direitos de centralização. É bastante complicado ver o que aconteceu ao clube neste período”, começou por dizer o antigo presidente, numa primeira explicação sobre as razões que levaram a desfazer o tabu e anunciar uma nova candidatura.
“A situação não é assim brilhante como as pessoas querem passar. Sou das poucas pessoas que tem o direito de dizer a verdade. Deixei o Benfica com uma dívida de 80 ou 90 milhões de euros mas tudo liquidado. O que eu deixei para fazer foi no Seixal, que era o Colégio, o Hotel e a Estação do Seixal. O investimento tem de ser feito. O que fez o Benfica desde então?”, questionou, antes de voltar ao ataque ao sucessor. “Rui Costa? Não teve caráter comigo, tentou ignorar-me este tempo todo. Não tenho de me candidatar contra o Rui Costa, candidato-me pelo Benfica. Não estou de relações cortadas com o Rui Costa mas não, não falou comigo desde que foi eleito”, admitiu de seguida Luís Filipe Vieira, antes de fazer uma radiografia do clube.
[Governo decide que é preciso invadir a embaixada para pôr fim ao sequestro. É chamada uma nova força de elite: o Grupo de Operações Especiais. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. Ouça no site do Observador o quinto episódiodeste podcastplus narrado pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Também o pode escutar na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]
“Tive informações bastante preocupantes do Benfica, vai passar por problemas gravíssimos. Gastou-se mais do que demasiado [neste mercado]. Basta ver quantos candidatos há. É um sinal de que aquilo está bom, não é… É um sinal de vitalidade mas é também um sinal de que não estão satisfeitos. O Benfica não tem projeto. Este projeto megalómano [Benfica District] foi apresentado e nós já tínhamos… Tenho 76 anos e tenho mais saúde do que aqueles que têm 50 e 60 anos, ainda treino todos os dias. Dei 21 anos da minha vida ao Benfica. Achei que tinha terminado, toda a gente sabia que era o meu último mandato, estive quatro anos parado a olhar para aquilo tudo. O Benfica está numa situação, está mesmo numa situação… Como é que os principais quadros abandonaram o Benfica, como é que o Seixal está abandonado….”, lamentou.
Em junho não me pensava candidatar à presidência do Benfica. Tive informações bastante preocupantes do Benfica, financeiramente sei que o Benfica vai passar problemas gravíssimos, basta ver o que se fez agora sem planeamento. O Benfica não tem estrutura. Disse ao Rui Costa, não mexas na estrutura profissional. O problema do Benfica é um todo… O que é que se vê no futuro? Contratar, contratar, contratar. E quem vier atrás que feche a porta”, apontou.
“Os resultados desportivos podem mascarar muito. Estou preocupado com a forma como este planeamento foi feito, como de um momento para o outro o Benfica encontrou petróleo na Luz para pagar 25 e 30 milhões. Antes com o scouting era o primeiro a chegar e depois criava mais-valia e vendia. Hoje está a portar-se como um clube rico. É um investimento eleitoral, fora o que vai investir mais. Ouvi dizer que vai comprar mais, por 35 milhões… Ninguém está a falar de talento, quem me dera a mim que o Benfica ganhe os jogos todos. No passado trabalhávamos de uma forma diferenciada. O Benfica tinha um departamento de scouting, que recolhia jogadores jovens e com crescimento. Hoje não é assim”, criticou Luís Filipe Vieira, que voltou a admitir ter o sonho do penta deixando de lado qualquer ambição de chegar a um título europeu.
Quando entrei com milhões depositados, quando saí vim com muito menos. Pensei mais no Benfica do que em mim próprio. Não fui beneficiado nunca. Processos em tribunal? Neste momento sou cidadão como outro qualquer, posso candidatar-me, sou inocente. Vamos aguardar. Ninguém me vai julgar publicamente. Vai ter a resposta nas urnas”, vincou.
“O trabalho que foi feito no Benfica, neste momento tudo mudou. Se voltar ao Benfica, prometo que volto a comprar jogadores de quatro ou cinco milhões de euros. Se calhar há dinheiro a mais. Primeira medida caso seja eleito? Não posso dizer mas de certeza que há pessoas que têm de abandonar o Benfica. Não estou a falar do Bruno Lage, estou a falar de pessoas que estão no Estádio da Luz e no Seixal. Eu nunca admiti ninguém que era meu amigo no Benfica. Hoje, o Benfica é um clube de amigos, puseram lá mais um amigo do Pedro Proença… Também já não sei se é partidário, já não sei se é virado para o PSD… E não tenho nada contra o PSD. Até o presidente da Câmara teve a disponibilidade para fazer todo aquele cenário, um projeto que nem estava aprovado. Comigo não apresentava, claro”, prosseguiu o antigo líder das águias.
“Processo de Pedro Proença? O presidente da Federação não faz nada a ninguém. Confirmo tudo o que disse e ainda há mais, confirmo. Há muitos presidentes que querem que volte porque há muitos com medo. Ele [Proença] interiorizou o medo. É como se tivesse feito um milagre no futebol português mas há clubes à beira da falência, históricos falidos como o Belenenses… Tudo por vícios que existem no licenciamento. Se estamos a falar do Pedro Proença vamos até ao fim, a mim não me incomoda nada. Ele dá a entender, junto de outros presidentes, que controla a arbitragem. A primeira coisa que vou fazer é liderar os direitos televisivos. Quem paga a fatura depois sou eu e outros como eu que abrimos a boca… Se me tornar presidente mais ninguém volta a brincar com o Benfica. Nunca paguei a ninguém para dizer bem de mim. Vejam nas contas da Liga ver como se pagava. Não são insinuações, a Liga pagava a jornais”, salientou, antes de contar os bastidores das eleições da Liga de 2015 onde Pedro Proença conseguiu ganhar a Luís Duque.
Já com perguntas abertas a um painel com Rui Santos, Jorge Batista, Abel Xavier e Luís Vilar, Vieira voltou a falar de Rui Costa. “Ele trabalhou ao meu lado, tinha defeitos que não quero aqui estar a falar. Disseram-me três vezes para o pôr na rua. Era o meu protegido, andava comigo. Teve tempo suficiente para aprender e fazer um bom papel. A minha divergência com ele? Há coisas que quem não sente não é filho de boa gente. Trabalhei por ele. Todos sabem a que horas chegava e saia. No último ano disse-lhe ‘Rui isto vai mudar, tens de me acompanhar a tempo inteiro, podes ser presidente’. O que fez foi, rapidamente, afastar o Miguel Moreira, que era fundamental. No dia em que lhe puseram aquele papel para ler, não lia. Se leu é porque quis ler. Fui detido, não tenho vergonha nenhuma, para prestar declarações…”, comentou. “Se é incompetente para ser presidente? O Rui Costa não tem qualidade para ser o presidente do Benfica”.
“Se sinto que falhei na temporada do penta? Deixei o Benfica a lutar pelo título até ao último minuto nessa época… Desmantelar a equipa? Fui eu que liderei a segunda melhor década da história do Benfica, com seis campeonatos e cerca de 20 títulos. E escusam de vir com a conversa da venda do Bernardo Silva, o Bernardo Silva não jogava, foi uma estratégia. O Rui Costa é um simples jogador de futebol, não é gestor. Nunca tive relaxamento na minha vida e fui o único presidente que fez um tetra. Tivemos condições do penta, sofremos um golo aos 90+5′. Pinto da Costa sabia que aquele título era nosso. E ainda dizem que éramos nós que controlávamos tudo, andaram à procura de tudo e afinal não encontraram nada…”, disse também Vieira.
“Reverter a tendência dos jogadores da formação é importante. O Benfica no futuro poderia constituir o plantel do Benfica à volta de três figuras, António Silva, Tomás Araújo e Florentino. São as três referências que há porque o João Neves teve de sair, era a outra bandeira. Há todas as condições para um projeto. Quando saí compraram-se oito ou nove jogadores de seguida e por aí fora. Foi com um treinador alemão, se não nem esses apareciam. Quando o fui buscar usou nove da formação e diziam que era maluco. Porque se deixou de apostar? Não sei. O Benfica tem lá um lateral direito fantástico, por exemplo. O Benfica não pode trilhar o caminho da ruína, não há estrutura financeira para aguentar”, respondeu o antigo líder.
“O Benfica ou apresenta resultados de 20 ou 30 milhões ou se apresenta negativo algo está mal. O passivo nunca assusta porque tem ativo. No meu tempo a rubrica clientes esteve sempre acima de fornecedores. Quando se investe, é um problema”, prosseguiu, antes de falar na aposta em João Neves e na “promoção” de Renato Sanches em 2015/16. “É preciso vir um treinador alemão para descobrir um jogador no Benfica B e hoje ser titularíssimo no PSG? Chegou, não ouviu bocas, disse que o ia pôr a jogar. Diziam lá que era pequenino… Quem? Não sei, disseram”, apontou. “O Rui chegou a dizer ‘Estás no Benfica, onde é que o Renato Sanches vai jogar?’, depois de ter apresentado três argentinos para reforçarmos a posição número 8, que o Rui Vitória tinha pedido. Do João Neves não sei quem disse, vieram-me contar”, recordou.
Os assuntos iam variando entre a parte do futebol e a vertente mais económica e financeira, sendo que a BTV e a manutenção dos direitos no próprio canal também foi falada. “Para chegar ao número que chegámos tivemos de investir. Foi na BTV, testámos a força do Benfica na MEO. Ninguém acreditava que conseguia 400 milhões de euros, eu sabia o que tinha de fazer, tal como hoje tenho argumentos para chegar a mais dinheiro. Negociámos tudo num banco, depois à noite a Altice veio dar 500 milhões mas já tinha dado a minha palavra. Ajudámos o futebol português a capitalizar-se, muitos presidentes agradecem. Uns souberam investir o dinheiro, outros andaram a comprar jogadores como um saco roto. Fomos nós que inovámos e vamos inovar novamente. Centralização dos direitos televisivos? Vão ter uma surpresa… Estive com dois advogados que me dizem que a lei de centralização é inconstitucional…”, anunciou Vieira.
“Se já me preveni para pagar as dívidas? Acha que o Benfica tem petróleo com as compras e as vendas que está a fazer? Está a vender para o mercado turco, o Vasco da Gama já meteu um PER… O Benfica está a ser gerido à vista. O que fui garantir foi que se ganhasse estavam dispostos a financiar porque tenho receio, a cobrança dos mercados para onde o Benfica está a vender é muito duvidosa. Tenho dinheiro para pagar as dívidas e tenho dinheiro para os projetos que levo, como o Colégio, o Hotel e a expansão do Seixal. Em relação à equipa A do futebol, até janeiro não me vou intrometer em nada. Expetativas pela conquista do título? Quem me surpreendeu foi o FC Porto, o Benfica não me surpreendeu…”, concluiu o agora candidato confirmado às eleições antes de mais um “choque” tenso com o comentador Rui Santos.