A presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves, Isabel Pires de Lima, renunciou ao cargo por falta de “condições de confiança e solidariedade institucional” para o exercer e fá-lo “com efeitos imediatos”, como a própria avançou ao jornal Público. O Conselho de Administração da instituição terá então de reunir-se para eleger um sucessor.

“Decorrido mais de meio ano de atividade, e após profunda reflexão, tomo esta decisão por entender que não estão reunidas, ao nível do presente Conselho de Administração, condições de confiança e solidariedade institucional que me permitam exercer o cargo em plenitude”, declara, no comunicado citado pela agência Lusa.

O Observador contactou a Fundação de Serralves para obter mais esclarecimentos, tendo esta recusado para já comentar o caso. Já o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto confirma em comunicado enviado ao fim da tarde que tomou “conhecimento, através da comunicação social, da decisão da Professora Isabel Pires de Lima de cessar funções como Presidente do Conselho de Administração da Fundação de Serralves”.

Na mesma nota, o gabinete de Margarida Balseiro Lopes diz respeitar a decisão de Isabel Pires de Lima, considerando-a “uma opção pessoal, cuja justificação cabe apenas à própria”, e agradece “o trabalho desenvolvido”.

Ao início da noite, o conselho de administração revelou que Fernando Guedes, até agora vice-presidente da fundação, ocupará o lugar de Isabel Pires de Lima de maneira interina. “Nos termos dos estatutos, este órgão reunirá oportunamente para a eleição de um novo elemento e de um novo presidente, por cooptação”, lê-se no comunicado, onde se “agradece todo o empenho e dedicação demonstrados pela Sra. Professora Isabel Pires de Lima a Serralves, ao longo dos últimos anos”.

Nomeada para a presidência da fundação sediada no Porto no final do ano passado em substituição de Ana Pinho, Isabel Pires de Lima renuncia ao cargo apenas oito meses após iniciar funções, adiantando que esta decisão “tem efeitos imediatos, evitando prolongar uma situação desconfortável para todos mas, sobretudo, prejudicial ao saudável funcionamento da Fundação”.

A ligação de Isabel Pires de Lima — académica, professora catedrática emérita, ex-deputada do PS e ex-ministra da Cultura de José Sócrates — à Fundação de Serralves manteve-se em contínuo desde 2015, quando foi nomeada para a administração por João Soares como um dos dois representantes do Estado neste órgão.

No entanto, a própria afirma ao Público que, se ao longo dos nove anos em que esteve ligada à instituição existiram “condições de confiança mútua” e “consensos” criados entre os seus membros, tal deixou de acontecer desde que lidera a Fundação.

“Há, agora, uma tendência para a criação de uma certa desconfiança, um pedido permanente de contas relativas a qualquer afirmação da presidente. Não há uma solidariedade dentro do próprio conselho no sentido de encontrar condições de concretização do trabalho. Sinto, muitas vezes, que os aportes que alguns membros trazem são previamente combinados fora do conselho e, portanto, sujeitos a pressões externas ao conselho, a nível institucional“, atira em declarações ao mesmo jornal, sem esclarecer, no entanto, a natureza dessas “pressões externas”.

No comunicado, Isabel Pires de Lima considera ainda que “um espaço de produção de arte como é Serralves tem, a todo o momento, de incomodar, desestabilizar, interrogar ou então será apenas um lugar de [pessoas] demasiado contentes consigo próprias, naquela felicidade potencialmente castradora que o sucesso traz”.

O atual conselho de administração da Fundação de Serralves tem como vice-presidentes Fernando Cunha Guedes, Luís Silva Santos, Paula Paz Ferreira, para além dos vogais Manuel Sobrinho Simões, Tomás Jervell, Armando Cabral, Maria do Carmo Oliveira e Luís Menezes.

Na sua nota, o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto ressalva ainda que “Serralves é uma fundação sólida, com uma programação cultural de referência nacional e internacional, e que mantém plena confiança na instituição que, como sempre assegurará, com estabilidade e continuidade, a prossecução da sua missão cultural”.

De resto, recorde-se que as últimas duas nomeações do Estado para o conselho de administração Fundação de Serralves, de Paula Paz Ferreira e de Luís Menezes, feitas em abril deste ano, causaram alguma estranheza, quer pela natureza das nomeações — foi adiantado ao Observador que seriam feitas pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, mas a ordem partiu do gabinete da, à época, ministra da Cultura, Dalila Rodrigues — quer pelo currículo dos nomeados.

Distantes da cultura, próximos das empresas e da política: quem são Paula Ferreira e Luís Menezes, os representantes do Estado em Serralves?

A primeira, juíza de formação, é casada com o empresário Mário Ferreira, e exerce funções de administradora em parte do seu património empresarial, que inclui a Media Capital, a Pluris Investments, a MysticInvest Holding e a DouroAzul. Já o segundo, filho de Luís Filipe Menezes, é CEO do Grupo Ageas e ex-deputado do PSD.

Na altura, a oposição acusou tanto Paula Paz Ferreira como Luís Menezes de serem nomeações saídas da “esfera pessoal de Montenegro”, feitas apenas um mês antes das eleições legislativas. Ambos os visados rejeitaram as críticas, apontando para o seu percurso de gestão e para o facto do cargo não ser remunerado.

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