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Alvo de boicote e protestos, festival de música eletrónica organizado por israelitas em São Pedro do Sul foi cancelado por risco de incêndio

Este artigo tem mais de 1 ano

A autorização para o Anta Gathering foi vetada por motivos de segurança. Antes, já havia apelos contra o festival devido à ligação de um dos organizadores ao exército israelita.

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Unsplash

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Prometendo “cinco dias de música, arte e conteúdos que expandem a alma no coração selvagem da natureza”, o festival Anta Gathering deveria ter início esta quinta-feira e estender-se até 1 de setembro num terreno em Anta de Baixo, na freguesia de Manhouce, concelho de São Pedro do Sul. No entanto, já não deverá acontecer: alvo de uma campanha de boicote devido à acusação dos organizadores estarem ligados ao exército israelita, o evento foi sujeito a um veto pelo município por outro motivo, o risco de incêndio.

A Câmara Municipal de São Pedro do Sul vetou a autorização para este certame de trance e outros géneros de música eletrónica, avançou inicialmente a Antena 1 esta quarta-feira, devido aos riscos de incêndio e à falta de condições de segurança proporcionadas pelo festival. Tal aconteceu apesar da organização anunciar numa publicação no mesmo dia que o evento foi “aprovado por todas as autoridades — com segurança durante 24 horas e uma unidade policial no local”.

Entretanto, o próprio autarca do concelho, Vítor Figueiredo, confirmou esta decisão ao Jornal do Centro e ao Público. “Trata-se de um local onde existe uma grande quantidade de matéria combustível. Eu próprio fui lá e vi tendas no meio do matagal. Se alguma coisa corresse mal podia ser uma catástrofe porque só há uma estrada de saída”, afirmou ao primeiro dos dois órgãos de comunicação.

Apesar de ainda ser possível comprar bilhetes através do website oficial do Anta Gathering, a organização já recorreu novamente às suas redes sociais para confirmar que “devido à situação atual, neste momento, o evento encontra-se cancelado”, adiantando todavia estar a “trabalhar com as autoridades e os parceiros para obter todas as aprovações e medidas de segurança”.

Ligações de organizador às IDF geraram polémica

O festival já vinha a merecer forte oposição de vários grupos de apoio à Palestina. Em causa está o facto de um principais organizadores do evento, Shahar Pierre Bickel — que tinha uma atuação marcada como DJ sob o nome Fat Cat — ser um cidadão israelita acusado de ter regressado ao país para integrar as reservas das IDF (Forças de Defesa de Israel) em outubro de 2023, já depois do início da operação na Faixa de Gaza. Além de Bicker, fazem também parte da organização o seu irmão Dean e Yotam Ittah, proprietário do terreno.

Grupos como o Comité de Solidariedade com a Palestina e o Occupy for Gaza, alguns dos principais oponentes à realização do festival, têm prosseguido uma campanha de boicote e de pressão para que o Anta Gathering não aconteça, justificando que “a cultura psicadélica em Portugal não pode ser um porto seguro para quem cometeu crimes de guerra e contra a humanidade”.

Estes coletivos justificam a acusação com base em publicações efetuadas por Bickel onde parece dar conta da sua integração nas IDF. Numa delas, feita no Facebook e datada de 13 de outubro de 2023, o israelita dá conta do dilema moral em que se encontra, num texto acompanhado de uma fotografia onde surge em farda militar com outros homens. “Talvez a decisão mais difícil que tive de tomar ao longo da minha vida, seja escolher a mim e à minha liberdade ou escolher voltar e proteger os meus entes queridos”, lê-se. Na publicação seguinte, a 2 de novembro do mesmo ano, pede um carro emprestado para desfrutar de uma licença de 24 horas para ausentar-se do exército.

Não foi adiantada, para já, qualquer prova de que Bickel tenha estado presente na própria operação na Faixa de Gaza ou em qualquer outro conflito em que Israel está envolvido, mas, segundo um dos comunicados dos grupos, “o facto de não ter estado em Gaza não o torna menos genocida”. “Alguém no seu perfeito juízo afirmaria que membros das SS que não estiveram destacados em Auschwitz eram menos nazis por isso?”, indagam.

Face às críticas e aos apelos à sua proibição, a organização do festival reagiu esta quarta-feira, rejeitando todas as acusações, inclusive as ligações às IDF, considerando estar a ser alvo de uma “campanha de difamação e ódio” com recurso a “informação falsa”. “Não somos soldados. Nenhum dos membros da nossa equipa alguma vez esteve em Gaza ou participou na matança de seres humanos”, lê-se, lamentando os organizadores que “muitas forças movidas pelo ódio e pela ignorância estão a tentar impedir que este evento aconteça simplesmente por causa do local onde nascemos”.

“Não somos o nosso país, não somos o nosso Governo. Somos seres humanos que querem espalhar uma mensagem de conexão, paz e amor”, lê-se ainda.

Mesmo antes do cancelamento fruto do veto da autarquia de São Pedro do Sul, alguns artistas já tinham anunciado que já não iam participar no evento, aparentemente devido à campanha de boicote ao Anta Gathering. O português Yellow Mellow e o brasileiro Soulid anunciaram a desistência sem explicitar as causas, com o segundo a aludir apenas às “últimas notícias e também aos ataques de ódio” que diz ter sido alvo.

O artista luso Renato Oliveira, cujo nome artístico é Til Sunday Pirate, porém, explicitou na sua página de Instagram a razão para ter decidido cancelar a sua presença: “Não quero que a minha arte seja associada a contextos políticos ou militares que não representam os meus princípios”.

Ao Público, o artista diz ter sabido das supostas ligações dos organizadores ao exército israelita esta segunda-feira, altura em que lhes pediu uma clarificação. “Como a resposta foi muito vaga e não houve nenhuma afirmação concreta sobre esta matéria, mas sim um discurso de vitimização, percebi que não era possível continuar a fazer parte da programação”, afirmou ao jornal.

Além do contexto político em que decorre este festival, o Público noticia que foram também apontadas várias irregularidades na sua organização, a começar pelo ausência de uma comunicação prévia à Inspeção-Geral das Actividades Culturais, que diz ao diário que “não foi possível apurar, até à presente data, qualquer submissão para evento na área geográfica” nem o registo prévio do promotor, também obrigatório para realizar um evento como um festival de música.

Outro dos problemas é apontado por Joana Tomás, uma consultora jurídica do Comité de Solidariedade com a Palestina, que disse ao diário que a organização do Anta Gathering viola “deveres de informação ao consumidor” ao não apresentar publicamente o seu número de contribuinte nem os termos da venda de bilhetes. Além disso, devido ao facto dos ingressos estarem a ser vendidos através de uma plataforma de bilhética israelita, a Vibes, a mesma consultora acusa o evento de “fraude fiscal por violação das normas do Código do IVA”, já que “a bilheteira e todas as transações financeiras estão a ser geridas e feitas fora de Portugal sem cobrança de IVA”.

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