Na abertura da cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), que reúne dez Estados membros liderados pela China e pela Rússia, o Presidente russo, Vladimir Putin, considerou que os “entendimentos” a que chegou durante a reunião que teve com Donald Trump no Alasca, em 15 de agosto, poderão “contribuir” para a resolução do conflito na Ucrânia. Numa declaração conjunta, os países reunidos denunciaram as operações militares israelitas em Gaza e no Irão, apelando a um cessar-fogo imediato.
“Apreciamos muito os esforços e propostas da China e da Índia destinadas a facilitar a resolução da crise ucraniana”, disse Putin na cimeira que decorre na cidade chinesa de Tianjin, citado pela Reuters. “Os entendimentos alcançados na recente reunião Rússia-EUA no Alasca, espero eu, também contribuem para este objetivo.”
Putin explicou que, no domingo, colocou o Presidente chinês, Xi Jinping, a par do conteúdo da conversa que teve com Trump na base militar norte-americana — e garantiu que o trabalho no sentido de alcançar uma resolução para a guerra já está “em curso”.
O líder russo assinalou ainda que um acordo “sustentável e de longo prazo” na Ucrânia exige que sejam abordadas “as causas que estão na raiz da crise”. Uma delas, disse, são “as tentativas do Ocidente de trazer a Ucrânia para a NATO”.
Putin acusou ainda o Ocidente de ter desencadeado o conflito com a Ucrânia.”Esta crise não foi desencadeada pelo ataque da Rússia à Ucrânia. É o resultado de um golpe de Estado na Ucrânia, que foi apoiado e provocado pelo Ocidente”, afirmou Putin, durante a reunião da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês).
A declaração refere-se aos protestos pró-Ocidente do Maidan, que em 2014 forçaram a queda do então Presidente ucraniano pró-russo, Viktor Yanukovych. Na sequência, Moscovo anexou a península da Crimeia e passou a apoiar grupos separatistas no leste da Ucrânia, desencadeando um conflito civil.
“A segunda causa da crise são as constantes tentativas do Ocidente de atrair a Ucrânia para a NATO”, acrescentou o chefe de Estado russo.
A cobrir o encontro presencialmente estão apenas os órgãos de comunicação dos países membros da SCO, sendo que todos os restantes jornalistas foram colocados numa sala noutro edifício, onde o discurso do Presidente chinês, Xi Jinping, foi transmitido apenas em áudio.
A primeira intervenção do líder chinês, que é anfitrião da cimeira, denunciou a “mentalidade da Guerra Fria e atos de intimidação” nas relações internacionais. Xi Jinping defendeu “uma ordem mundial justa e ordenada” e um sistema “mais justo e razoável” de governação global, durante aquela que foi a 25ª cimeira de líderes dos países-membros da SCO.
“Devemos promover uma perspetiva histórica sobre a Segunda Guerra Mundial e opormo-nos à mentalidade da Guerra Fria e ao confronto entre blocos, bem como à intimidação”, disse.
O Presidente chinês instou a SCO a defender a “globalização inclusiva” e o “sistema multilateral de comércio”, tendo a Organização Mundial do Comércio (OMC) como o seu “eixo central”, um apelo que tem como contexto a guerra comercial desencadeada pelos Estados Unidos.
Presidente iraniano denúncia “continuação do massacre em Gaza”
O Presidente do Irão, Masud Pezeshkian, interveio na cimeira da SCO para denunciar “a continuação do massacre em Gaza“. Durante a sua intervenção, o líder iraniano classificou como ilegal a agressão militar contra o seu país por Israel e Estados Unidos.
Pezeshkian defendeu que a SCO deve “dar passos operacionais, específicos e claros para criar um mundo mais pacífico e um sistema mais preparado para a cooperação económica”, segundo a agência estatal iraniana IRNA.
O chefe do Governo iraniano propôs a criação de um comité de ministros dos Negócios Estrangeiros para elaborar “propostas práticas de gestão de crises” e reagir “de imediato” perante ameaças à soberania de um Estado membro. “Esse mecanismo deve tornar-se num braço operacional da organização”, sublinhou.
Pezeshkian sugeriu também o estabelecimento de “contas e sistemas de liquidação especiais da SCO” para reforçar a cooperação financeira entre os membros e reduzir a dependência do dólar norte-americano.
“Estamos convencidos de que aplicar esta iniciativa não só aumentará a resiliência económica dos membros, como tornará a SCO num modelo bem-sucedido de ordem financeira multipolar, justa e resistente à pressão externa”, afirmou.
O líder iraniano, que chegou no domingo à China, apoiou ainda a criação de centros especializados para fazer frente a ameaças de segurança, de um centro contra o tráfico de drogas e de mecanismos de resposta rápida. Pezeshkian reiterou também a disposição do Irão para aproveitar a sua posição geopolítica como ponte para a cooperação regional.
Lukashenko apoia a expansão da aliança aos países que partilham incondicionalmente os valores do “espírito de Xangai”
O Presidente bielorrusso, Aleksandr Lukashenko, disse esta segunda-feira que fazer parte da SCO é uma “escolha estratégica” para o país, ao intervir na 25ª cimeira do bloco.
“A Bielorrússia orgulha-se de ter-se tornado membro de pleno direito da SCO há um ano. Isto está em consonância com os nossos interesses fundamentais a longo prazo e abre oportunidades adicionais e amplas áreas de cooperação”, afirmou o líder, na reunião dos líderes dos países membros da OCS, no nordeste da China.
De acordo com a agência estatal bielorrussa Belta, Lukashenko destacou que a SCO “é justamente considerada uma das organizações internacionais mais representativas e influentes da Eurásia” e afirmou que “é natural que novos Estados procurem aderir à organização”.
A Bielorrússia “apoia a expansão da SCO com novos membros e parceiros, aqueles que partilham incondicionalmente os valores e fundamentos do ‘espírito de Xangai’: respeito e confiança mútua, igualdade, diálogo e um compromisso com o desenvolvimento comum”, referiu
Lukashenko interveio na reunião após ter mantido no domingo um encontro bilateral com o Presidente chinês, Xi Jinping.
Nessa reunião, Lukashenko afirmou que a Bielorrússia “é um parceiro firme e um amigo sempre fiável para a China” e sustentou que “nenhuma força pode deter o desenvolvimento e a revitalização” do país asiático.
O líder bielorrusso assegurou que Pequim “mantém uma posição imparcial nas questões internacionais e regionais” e “dá importantes contribuições para a paz e a estabilidade no mundo”.
A viagem de Lukashenko ocorre num contexto de negociações para o fim do conflito na Ucrânia, uma guerra na qual Minsk foi acusada por Kiev de ser cúmplice de Moscovo e em relação à qual Pequim tem mantido uma posição ambígua. O Presidente bielorrusso assistirá, na quarta-feira, em Pequim, ao desfile pelo 80.º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial no Pacífico, no qual a China exibirá o seu poderio militar.
Modi saúda “esforços recentes para alcançar paz” na Ucrânia
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, afirmou esta segunda-feira que o estabelecimento da paz na Ucrânia é um “clamor de toda a humanidade”, ao reunir-se com o Presidente russo, Vladimir Putin, na cimeira que decorre na China.
“Saudamos os esforços recentes para alcançar a paz e confiamos que todas as partes terão uma postura construtiva nesse sentido”, disse Modi, referindo-se à guerra na Ucrânia, de acordo com imagens do encontro transmitidas pela televisão estatal russa.
O líder indiano insistiu que “é necessário encontrar vias para pôr fim ao conflito o mais depressa possível e restabelecer a paz”, no final de um encontro à margem da cimeira da Organização de Cooperação de Xangai.
“Esse é, precisamente, o clamor de toda a humanidade”, resumiu, acrescentando que a Índia e a Rússia trocam regularmente opiniões sobre o conflito.
Modi sublinhou ainda que a Índia e a Rússia “sempre avançaram lado a lado”, mesmo nos momentos mais difíceis.
“A nossa estreita cooperação é importante não só para os povos dos nossos países, mas também para garantir a paz global, a estabilidade e o bem-estar”, afirmou, acrescentando que Nova Deli aguarda com expectativa a visita de Putin à Índia para a 23.ª cimeira bilateral, agendada para dezembro.
Os países da SCO – China, Rússia, Índia, Paquistão, Irão, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão – representam cerca de 40% da população do planeta e 23,5% da economia mundial, com territórios que contêm reservas significativas de energia.
A organização é frequentemente apresentada como um contrapeso à NATO, apesar de, ao contrário do bloco atlântico, não ter cláusulas de defesa mútua.
A SCO, fundada em 2001, é composta por China, Rússia, Índia, Paquistão, Irão, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, e abrange aproximadamente 40% da população mundial.
O grupo não possui cláusulas de defesa mútua, ao contrário da NATO, e apresenta-se como um fórum para a cooperação política, económica e de segurança.