“Nunca vi tantas pessoas mortas juntas”. O relato de quem viu é suficientemente explícito para traduzir um final de tarde trágico para Lisboa. Pouco passava das 18h quando, na íngreme Calçada da Glória — que liga os Restauradores ao Miradouro de São Pedro de Alcântara —, o Elevador da Glória começou a descer de forma desenfreada.
“O elevador que estava cá mais em baixo, já quase a estacionar, sofreu um pequeno solavanco. As pessoas lá dentro assustaram-se, obviamente, e nós prontificámo-nos a ajudar. Logo a seguir vimos o elevador de cima desenfreado, sem travões e começámos todos a fugir porque pensámos que fosse bater no debaixo. Mas ele na curva caiu e embateu no prédio”, explicou Teresa d’Avó, testemunha do acidente.
Também no local, Carlos Moedas foi taxativo: “Lisboa está de luto”. “Aquilo que se passou aqui é um acidente que não deveria ter acontecido”, prosseguiu o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
O que se sabe?
Onde aconteceu?
O Elevador da Glória é, além de um símbolo de Lisboa, usado por moradores que optam pelo ascensor para evitar a subida a pé entre o Bairro Alto e a Praça dos Restauradores. Contudo, os turistas são a presença mais comum no elevador gerido pela Carris que opera com o número 51E num percurso de 265 metros com uma ligeira curva.
Com dois carris (um para o trajeto de subida e outro para a descida), tem, no horário mais movimentado, uma frequência de dez minutos. Foi precisamente o ascensor que fazia a viagem de descida que teve o acidente trágico, segundo os relatos feitos ao Observador.
Ao fazer o trajeto, deu-se um problema que fez com que um cabo se soltasse, de acordo com os Bombeiros Sapadores de Lisboa, e o ascensor perdesse o controlo e saísse dos carris. Quando fazia a curva, o ascensor descarrilou e embateu, pouco depois das 18h, contra o muro de um hotel naquela zona histórica.
Número de vítimas?
As primeiras notícias davam conta de muitos feridos, mas o número foi ganhando maiores dimensões de imediato. De pelo três mortos, numa primeira fase, rapidamente se avançou a hipótese de serem ainda mais, o que seria confirmado por volta das 20h30 pelo INEM: 15 mortos e 18 feridos — cinco graves e 13 ligeiros, transportados para vários hospitais da capital portuguesa (Amadora Sintra, São José, São Francisco Xavier e Santa Maria). Na manhã de quinta-feira, o serviço municipal da Proteção Civil revelou que dois dos feridos morreram durante a noite, subindo para 17 o número de mortos e baixando para 21 o número de feridos.
Ao Observador, fonte do Hospital de Santa Maria revelou que recebeu, até ao momento, oito feridos — um deles em estado crítico. Entre os feridos, encontra-se uma criança, que não está ferida com gravidade. O Hospital de São José recebeu nove feridos — cinco em estado grave e quatro ligeiros, entre os quais está “uma criança, de três anos, estável, que por uma questão de precaução será transferida com o pai para o Hospital Dona Estefânia”. A mãe, grávida, foi levada para a Maternidade Alfredo da Costa. O Hospital Amadora-Sintra recebeu dois feridos, tendo um deles chegado por meios próprios, mas nenhum apresenta ferimentos graves e ambos terão alta brevemente. O Hospital de São Francisco Xavier recebeu três feridos. Os números avançados pelos hospitais ao Observador elevam para 22 o número de feridos, mais do que os indicados pelo INEM.
O Elevador da Glória descarrilou e tombou esta quarta-feira, junto à Avenida da Liberdade, em Lisboa. Segundo os bombeiros sapadores, o acidente provocou “muitas vítimas”, incluindo feridos graves. pic.twitter.com/ADWpR5c8oe
— Mundo Vivo (@mundo__vivo) September 3, 2025
Que autoridades foram mobilizadas ao local?
Com o alerta dado às 18h04, rapidamente foram mobilizados para o local vários meios e muitos operacionais com diferentes propósitos. “A Polícia passados cinco minutos já estava aqui, passados dez minutos já tínhamos aqui um carro de bombeiros”, contou Teresa D’Avó ao Observador.
No total, foram ao local 111 operacionais e 37 veículos. Estiveram no teatro de operações improvisado os Sapadores Bombeiros, a Proteção Civil, o INEM, a PSP, a PJ (foi acionada a Brigada de Homicídios) e o Instituto de Medicina Legal.
Este é o primeiro acidente do género?
Sendo um acidente sem precedentes no que à quantidade de vítimas diz respeito, esta não foi a primeira vez em que ocorreu um descarrilamento no Elevador da Glória. A 7 de maio de 2018, o jornal Público relatou que o veículo descarrilou e, sem tombar e sem provocar feridos, ficou nas pedras da calçada.
Na altura, em declarações à revista Time Out, Inês Andrade, responsável da comunicação da Carris, justificou o acidente com uma “anomalia técnica” que provocou uma paragem superior a um mês — entre 7 de maio e 11 de junho — com os ascensores a ficarem “em perfeitas condições de segurança e funcionamento”, após esse interregno, “para os próximos dois anos”.
Peritos consultados pelo Público, na altura, denunciavam uma “incúria” evidente na manutenção das rodas, que fazia com que circulassem parcialmente fora dos carris. Questionada pelo mesmo jornal, a Câmara de Lisboa não esclareceu se tinha conhecimento do acidente.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Que inquéritos foram abertos?
Com questões ainda por responder, na certeza de que ainda falta saber muito sobre o que permitiu que acontecesse esta tragédia, o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) foi das primeiras entidades a anunciar a abertura de uma investigação ao descarrilamento. “O GPIAAF irá abrir uma investigação [ao acidente], mas devido à limitação de meios [humanos] na área ferroviária, apenas amanhã de manhã [quinta-feira] iniciará a recolha de evidências no local”, disse à agência Lusa fonte do organismo público que apenas dispõe de um investigador para este setor.
Também a Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT) assegurou que vai realizar uma ação de supervisão à tragédia, prometendo a divulgação “com a maior celeridade possível” dos resultados.
Por último, até ao momento, foi vez do Ministério Público adiantar também à Lusa a abertura de um inquérito, “à semelhança do que acontece neste tipo de situações, e tal como determina a lei”. A PGR disse que o Ministério Público está “a realizar os procedimentos necessários, no âmbito das suas competências, nomeadamente para efeitos de preservação da prova, com orientação e em articulação com os órgãos de polícia criminal”.
Antes, a Carris tinha enviado uma nota às redações na qual admitiu a abertura imediata de “um inquérito em conjunto com as autoridades para apurar as reais causa deste acidente”.
Quando foi feita a última inspeção?
Já depois de a Carris se ter pronunciado sobre o acidente, o presidente da empresa esteve no local onde decorriam as operações das autoridades e defendeu que a manutenção do elétrico tem sido cumprida “escrupulosamente” — sendo que é realizada há 14 anos por uma empresa externa, de momento é responsável por esse serviço a Main Energy.
“O protocolo de manutenção foi escrupulosamente respeitado”, afirmou Brito Bogas, sublinhando que a última manutenção geral do Elevador da Glória foi feita em 2022.
“Foram realizados e respeitados todos os protocolos de manutenção, nomeadamente a manutenção geral que ocorre a cada quatro anos e que ocorreu em 2022, a reparação intercalar que é concretizada de dois em dois anos, tendo neste caso a última sido realizada em 2024, e têm sido escrupulosamente cumpridos os programas de manutenção mensal, semanal e a inspeção diária”, anunciou a Carris em comunicado.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O que falta saber?
Qual foi a causa da tragédia?
Poucas horas depois do acidente, ainda não é claro como foi possível acontecer esta tragédia num ascensor tão movimentado numa das zonas que recebe mais turistas de Lisboa. Num primeiro momento, fonte dos Bombeiros Sapadores de Lisboa adiantou à Rádio Observador que o acidente foi causado por “um cabo que se soltou” na estrutura do ascensor.
À Lusa, fonte da Proteção Civil sustentou esta tese, dizendo que o acidente estará relacionado com “cabos e com a forma de funcionamento dos elétricos porque eles funcionam de forma compensada”.
No entanto, pelas 21h30, o presidente da Carris falou aos jornalistas no local e admitiu que o protocolo de manutenção foi “escrupulosamente cumprido” e que “neste momento nem sabemos se foi um problema de segurança”.
No entanto, os trabalhadores da empresa municipal da Carris, segundo o dirigente sindical da Fectrans – Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores dos Transportes e Comunicações e do Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos de Portugal (STRUP), já apresentaram “queixas sucessivas” quanto à necessidade de manutenção dos ascensores, incluindo o da Glória.
“Fundamentalmente, aquilo que nos parece sobre este acidente é que deve haver um inquérito rigoroso às suas causas […], deve haver este inquérito às causas profundas deste acidente, até porque os trabalhadores já vêm reportando de há muito tempo questões da necessidade da manutenção destes elevadores voltar à responsabilidade dos trabalhadores da Carris e não ser entregue a empresas exteriores, como é o caso concreto do elevador da Glória”, disse Manuel Leal à agência Lusa.
Quais as nacionalidades das vítimas?
Com o acidente a ocorrer num local bastante frequentado por turistas, a tragédia que levou o Governo a decretar luto nacional ganhou ainda mais repercussão internacional. Inclusive, o vice-primeiro ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros de Itália, uma das muitas figuras internacionais a lamentar o acidente, assumiu estar a conversar com a Embaixada em Lisboa para perceber se há italianos entre as vítimas.
Entre os feridos, foram identificadas duas pessoas de nacionalidade espanhola.
Além disso, as nacionalidades das vítimas “englobam também portugueses”, explicou fonte do INEM aos jornalistas sem, no entanto, adiantar se esses cidadãos nacionais são vítimas mortais ou feridos.
Notícia atualizada às 9h18 de quinta-feira com o número atualizado de mortos e feridos