Couros estabilizados com extratos da casca de pinheiro, de café ou de folha de oliveira. Têxteis revestidos com caroço de azeitona moída ou pele de castanha. Solas formadas com materiais entre 80% e 94% biológicos. Componentes feitos a partir de cascas de mexilhão trituradas. Estas são algumas das soluções em sustentabilidade portuguesas que ainda não estavam disponíveis no mercado e foram apresentadas no encerramento da MICAM, uma das mais importantes feiras de calçado internacionais, que decorreu em Milão entre 7 e 9 de setembro. Produtos desenvolvidos depois de um levantamento intensivo de cinco anos para identificar o que era prioritário no setor, no âmbito do projeto BioShoes4All.
▲ O espaço do projeto dentro da MICAM, onde foram expostos materiais e produtos finais desenvolvidos ao longo dos últimos cinco anos
“Identificámos os subprodutos da área alimentar ou da área florestal que são nacionais ou europeus e que não eram utilizados, por exemplo, casca de pinheiro, caroço de azeitona, folha de oliveira, cereais misturados que não podem ser usados na alimentação humana nem animal, restos de tomate, de laranja”, explica a coordenadora do projeto, Maria José Ferreira. “Por outro lado, desenvolver polímeros bio e, com tudo isto, desenvolver também couros o mais biológicos possível“, diz a também diretora do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP).
Mas o projeto não atua apenas no desenvolvimento de materiais, mas a repensar processos “de maneira a reduzir o impacto ambiental, o consumo de recursos naturais, das matérias-primas, o consumo de energia, de água, minimizar a produção de resíduos, eliminar a utilização de substâncias químicas perigosas, portanto é algo holístico, algo abrangente, para que não seja uma sustentabilidade num ponto e num outro que não há”.
▲ Maria José Ferreira, diretora do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal, é também a coordenadora do projeto
Produto sustentável, mas mais caro
Manuela Rodrigues, do grupo Carité, mostra-nos a coleção da marca COM desenvolvida dentro do projeto, com solas vulcanizadas. “É uma nova coleção que integra o projeto através dos materiais. Continua sempre com a nossa vertente do design, mas com materiais sustentáveis e uma produção mais sustentável”, explica a representante comercial, que diz que o mercado abre-se cada vez mais para alternativas sustentáveis, mas que o preço e a qualidade ainda são fatores que pesam na decisão final. “A sustentabilidade é mais dispendiosa que artigos que não tenham esta componente. Os materiais reciclados são sempre mais dispendiosos. Então é sempre difícil encontrar parceiros que queiram reverter os materiais. Às vezes há muitas amostras mas depois o negócio concretiza-se pela metade, não é uma área fácil”, pondera.
A Lemon Jelly, marca de calçados de plástico reciclável, também lançou um produto em parceria com o BioShoes4All, a carteira Nyssa, feita com um material termoplástico de base orgânica que é totalmente compostável e reciclável, não deixando resíduo. “É muito interessante o projeto. A Lemon orgulha-se muito da sustentabilidade que está alocada à marca. A Nyssa foi só mais um projeto que reforçou a ideia da sustentabilidade”, diz Margarida Tavares, que está a representar a marca na MICAM. A gerente de marketing explica que cerca de 90% da produção é para exportação, principalmente mercados como o norte-americano, a Espanha e a França. Apesar de reconhecer que produzir de forma sustentável reflete no preço do produto final, destaca que a sustentabilidade está no core da marca. “Hoje em dia temos um público muito mais atento ao que é sustentável e disposto a pagar mais para garantir que estão a comprar artigos com consciência.”
Tiago Brandão Rodrigues, CEO da Kyaia — grupo fundado pelo empresário Fortunato Frederico, que anunciou a escolha do seu sucessor há cerca de três meses — também reconhece as dificuldades de apostar nesta componente. “O consumidor pede sustentabilidade e quem produz tem também essa preocupação”, considera, destacando que “só a investigação e o desenvolvimento podem ajudar a encontrar novos produtos que sejam mais sustentáveis, que sejam ambientalmente amigos, conseguir fazer de forma sustentável, que não tenha uma implicação no produto final e no preço do produto final“. O antigo ministro da Educação destaca ainda uma das marcas adquiridas pelo grupo recentemente, a AsPortuguesas, que pertencia à Amorim Cork Ventures, e é especializada em sandálias de cortiça. “Sabemos que a cortiça por si só, ao longo da sua vida, está a fazer um trabalho ambientalmente importante, ao reter dióxido de carbono durante toda a sua vida. E isso depois também tem implicações naquilo que é o produto final”.
▲ Alguns dos produtos desenvolvidos no projeto BioShoes4All
Frederico Martins
Contudo, o novo CEO da Kyaia aponta para alguns desafios. “Tem que ser uma composição de todos os setores. Tem que ser bom design, que responda à variação daquilo que são as tendências de consumo, que vão se alterando mais rapidamente do que acontecia, e implica que as marcas tenham um portfólio maior de produtos para poderem responder. E isso tem custos associados”, assinala. “É preciso entender quais são as novas tendências inovadoras, se é possível produzir melhor, mais fiável, mais rapidamente, de forma mais barata e mais ambientalmente sustentável. Mas isso tem custos e as empresas têm que ter a capacidade de serem apoiadas para isso.” Por fim, Tiago Brandão Rodrigues afirma-se confiante no futuro do setor, apostando na resposta “às incertezas” do cenário económico atual com inovação. “O imobilismo leva a que, de certa forma, não se consiga dar resposta.”
No caso do BioShoes4All, os fatores preço e qualidade também foram preocupações. “Em certo momento da investigação definimos targets, logo à cabeça, de custos. Se sabemos que não é possível atingir esses targets, não continuamos e embargamos por novas vias. Do ponto de vista económico, parece-nos que há aqui um equilíbrio entre a diferenciação, a inovação, o valor que pode trazer ao produto e que são soluções viáveis para o mercado economicamente”, considera a coordenadora do projeto, que defende a qualidade dos materiais desenvolvidos. “Uma grande parte das intervenções são do couro, e estes couros apresentam uma durabilidade muito elevada, idêntica aos couros que têm outras substâncias químicas de origem fóssil. Por exemplo, aplicados a calçados de moda, casuais, estes materiais são perfeitamente adequados. Têm uma boa qualidade e uma excelente durabilidade”.
62 milhões de euros para o desenvolvimento de novas soluções
Durante os três dias da feira, muitos visitantes passaram pelo espaço onde os produtos e materiais estiveram expostos. “Queriam perceber como é que se faziam estes desenvolvimentos e participar em projetos connosco, por um lado, mas por outro lado apareceram muitas pessoas que gostaram de comprar estes novos materiais, estes couros, estes têxteis revestidos, queriam perceber como é que se fazia o calçado mais sustentável, não só tendo em conta os materiais que são mais sustentáveis por si mesmos, mas como é que o produto em si pode ser concebido para ser mais leve, mais durável e como é que nós medimos essa durabilidade, como é que nós medimos o impacto ambiental”, diz Maria José Ferreira.
▲ O projeto foi tema de uma conferência com a participação de João Maia, diretor da APICCAPS, Joana Vaz Teixeira, coordenadora do World Footwear Yearbook, Maria José Ferreira e Matteo di Pasca, diretor da Arsutoria, escola italiana de design de sapatos e carteiras
O projeto iniciou em meados de 2021, prolonga-se até o final de 2025, com 10% da execução a prosseguir em 2026, e pressupõe um investimento de 62 milhões de euros no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), parte dos 100 milhões de euros que está a ser investido em sustentabilidade e inovação este ano. Estão envolvidos 70 parceiros, entre os quais 20 entidades de investigação e desenvolvimento e 50 empresas. “Uma grande mais-valia do projeto é ter sido possível mobilizar estas 50 empresas, que 12 são de couro, 12 são de calçado, 20 são de matérias-primas, produtos químicos, solas, e 6 são de tecnologias de produção, para trabalharem harmoniosamente em conjunto e num curto espaço de tempo, para desenvolverem esta panóplia de resultados, em conjunto entre as empresas e com estas universidades. São soluções que não estão disponíveis no mercado“, destaca Maria José.
O valor investido foi em sua maioria aplicado em recursos humanos, mas há também equipamentos com o objetivo de implementar os novos processos à uma escala industrial e preparar a futura comercialização. “Estamos a apostar em tecnologias completamente inovadoras na Europa. Há muitas espumas nas solas que têm a particularidade de serem difíceis de reciclar. Então trouxemos para Portugal os dois primeiros equipamentos que permitem ter uma espuma por expansão física, o que permite que, depois de utilizado o calçado, haja menos desperdício e possa ser reciclado o calçado pós-consumo”, exemplifica a coordenadora do projeto.
▲ Portugal levou 42 empresas à MICAM, a maior feira de calçados internacional, realizada em Milão
APICCAPS
Além de investir em sustentabilidade e inovação, a internacionalização também é uma componente forte na estratégia para tentar alavancar o setor dos calçados. Este ano espera-se que 10 desfiles de designers internacionais em Semanas da Moda como Paris ou Nova Iorque tenham sapatos portugueses na passarelle. Além disso, a presença em feiras como a MICAM é essencial, principalmente este ano, em que o evento chega à sua 100ª edição.
A feira começou em Vigevano, uma das principais cidades italianas produtoras de calçados, em 1931. Entretanto, o evento passou para as mãos da ANCI, a associação italiana de calçados, em 1974, transformando a MICAM numa das maiores e mais importantes montras para o mercado mundial. Desde o início dos anos 2000 que o evento realiza-se em Milão, alcançando um público ainda mais internacional. Nesta edição, Portugal foi o sexto país que mais expositores levou à feira, atrás apenas de Itália, Espanha, Turquia, Brasil e Alemanha. Cerca de 870 marcas estiveram presentes a mostrar produtos para os mais de 30 mil visitantes que passaram pelos pavilhões ao longo de três dias.
O Observador está em Milão a convite da APICCAPS.