A etapa final da Volta a Espanha foi cancelada depois de manifestantes pró-Palestina terem conseguido bloquear o pelotão de ciclistas, esta tarde em Madrid. Seguiram-se confrontos com polícia que resultaram em dois manifestantes detidos e 22 agentes feridos (não havendo informação sobre o número de manifestantes feridos), de acordo com o governo espanhol. Ainda assim, o delegado em Madrid do executivo de Sánchez disse que o dia decorreu “sem incidentes graves” e que os cerca 100 mil manifestantes pró-Palestina deram um “exemplo de dignidade“.
O pelotão foi travado quando estavam a 43 quilómetros da meta, junto ao Palácio Real, na capital espanhola. Num comunicado oficial, a organização da Volta a Espanha explica que a etapa foi cancelada “por motivos de segurança” e esclareceu que “não haverá cerimónia do pódio”, na qual o ciclista João Almeida ia receber a medalha de prata.
Por volta das 18h00 locais (17h00 em Lisboa), os manifestantes invadiram a rota dos ciclistas perto das ruas Atocha e Gran Vía levando à intervenção da polícia. Em Cíbeles, a 200 metros da meta, uma centena de manifestantes derrubou as barreiras de proteção da rua por onde chegariam os ciclistas. A polícia de intervenção respondeu com carga, de acordo com o El País.
Estava mobilizada uma equipa de cerca de 1.500 polícias para garantir a segurança da rota, depois de estarem já previstas várias manifestações que visavam sobretudo a participação na prova da equipa israelita Israel-Premier Tech. Ao início da tarde, antes de os ciclistas entrarem na cidade, já muitos manifestantes gritavam que o que se passa em Gaza “não é uma guerra, é um genocídio”.
Antes de os manifestantes invadirem ruas e de a polícia ser chamada a intervir, o primeiro-ministro espanhol mostrou o seu apoio a quem se manifestava em Espanha pela Palestina. Durante uma iniciativa do PSOE em Málaga, Pedro Sánchez expressou “reconhecimento e respeito absoluto pelos desportistas, mas também por um povo como o espanhol que se mobiliza por causas justas como a da Palestina”.
Essas afirmações estão a servir de argumento pela oposição para imputar culpas ao chefe do governo espanhol pelo sucedido. O líder da oposição, Alberto Núñez Feijóo, acusa o Governo de “ter permitido e ter induzido a não finalização da Volta a Espanha e, desse modo, [ter causado] um momento ridículo transmitido nas televisões de todo o mundo”. O presidente do PP disse que defende a liberdade de expressão “sempre que não implique violência nem altercações” e acrescenta: “Não apoio o Hamas. Muito menos quero os seus aplausos.”
A presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Ayuso, responsabilizou Sánchez pelo “incentivo” dado ao “boicote à Vuelta”. O presidente do ajuntamento de Madrid José Luíz Martínez-Almeida disse que os desacatos deram “uma imagem vergonhosa” de Espanha. “A violência venceu o desporto e responsabilizo o primeiro-ministro por isso”, disse.
A polémica ganhou uma dimensão internacional e o ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel disse que Pedro Sánchez e o seu governo são “uma vergonha para Espanha”. “Há alguns dias, o primeiro-ministro espanhol lamentou não ter uma bomba atómica para dissuadir Israel. Hoje, encorajou os manifestantes a irem para as ruas. A multidão pró-Palestina ouviu as mensagens de incitação e explodiu com a Volta a Espanha”, escreveu Gideon Saar no X.
E também o sindicato de polícias JUPOL emitiu um comunicado sobre a suspensão da prova, em que diz que “uns são culpados pela violência”, mas acrescentam que há “responsáveis políticos que fizeram um apelo aos protestos”. O porta-voz Ibón Domínguez disse que o sindicato tinha avisado na sexta-feira passada que era “impossível garantir a segurança do percurso”.
Por outro lado, já depois dos confrontos, a vice-primeira-ministra Yolanda Díaz publicou nas redes sociais uma mensagem de “apoio às mobilizações pelo povo palestiniano”. Sem lamentar o ocorrido, a ministra do Trabalho e da Economia, ex-líder do partido Sumar, disse que “a sociedade espanhola não tolera que o genocídio em Gaza seja normalizado em eventos desportivos e culturais” e defendeu que “Israel não pode participar em nenhum evento” no país.
* Artigo corrigido às 23h00 de 14/09/25. A manifestação provocou 22 polícias feridos e não 26