A melhor forma de reconhecer um grande resultado, mesmo que não seja o tão desejado primeiro pelo qual todos lutam, é olhar para o lado, perceber que alguém foi melhor e encarar isso como motivação para chegar a outro epílogo na tentativa seguinte. Em resumo, foi isso que aconteceu com João Almeida na penúltima etapa da Volta a Espanha. Bem ou mal, não colocando homens na fuga como alguns apontavam mas tendo um ritmo forte que partiu o pelotão desde o início das subidas, a UAE Team Emirates tinha uma estratégia para arriscar um milagre e colocar o português a ganhar 44 segundos a Jonas Vingegaard na Bola del Mundo. Não conseguiu. Na fase mais inclinada da ascensão diabólica, até foi o dinamarquês que arriscou o ataque e ganhou a etapa, batendo o Bota Lume por 22 segundos. O duelo que apaixonou os amantes de ciclismo nas últimas três semanas caiu para o extraterrestre, o corredor nacional foi o melhor entre os “humanos”.

A Bola ficou para Jonas, o Mundo conheceu João: Vingegaard ganha etapa e vence Vuelta, Almeida faz história com segundo lugar

O abraço emotivo que ambos trocaram no final da etapa, quando se cruzaram nos bastidores da chegada com os protocolos à mistura, acabou por ficar como última imagem entre dois corredores que se respeitam, que tentaram de tudo para assegurar a vitória e que deixaram o que tinham e o que não tinham para chegar a essa coroação. Perante o antigo vencedor do Tour por duas ocasiões, que nesta altura perde apenas para um outro ET chamado Tadel Pogacar, o português valorizou aquele que foi o melhor resultado de sempre de um português numa grande volta a par do segundo lugar de Joaquim Agostinho na Vuelta de 1974 e assumiu que a concorrência foi melhor num dia em que Emirates e Visma apostaram tudo.

“Não tenho qualquer arrependimento, fizemos tudo o que pudemos. Parabéns ao Jonas, que foi super forte. E, afinal, acho que não é assim tão mau acabar atrás dele. Esta etapa da Bola del Mundo foi super difícil, já vinha no limite ao longo da etapa. Mas tínhamos de tentar, não tinha nada a perder. A estratégia passava por fazer a etapa o mais rápido e com a maior intensidade possível. Infelizmente também estive doente esta semana, por isso a sensação não foi a melhor. Mas ainda assim tentámos e acho que é isso que importa. Foi uma luta com respeito e muito agradável, sempre com surpresas a cada dia. Tentei vencer mas não foi possível bater o Jonas. Vinha no limite, ele foi o melhor corredor hoje [sábado]”, assumiu Almeida.

“Foi uma Vuelta muito dura, ficámos em segundo e podemos ficar satisfeitos. Demos o nosso melhor. Igualar o melhor resultado de um português numa grande volta? É um orgulho terminar a Volta a Espanha em segundo, ainda por cima atrás do Vingegaard, que é muito bom. Demos o nosso melhor. Era darmos tudo hoje. Esta semana não me senti no meu melhor, tenho estado doente, mas são circunstâncias que acontecem. É o que temos e há que lidar com o que temos. Sinto sempre o apoio de todos os portugueses e estou muito agradecido por tal. Fizemos o que era possível. Considerámos um ataque mas simplesmente não tinha pernas para tal. Ainda tentámos colocar um ritmo mais forte mas não consegui o suficiente. Cada corrida é uma hipótese. Foi uma de muitas, haverá mais no futuro”, acrescentou mais tarde à CMTV.

Também Jonas Vingegaard, que ganhou a Vuelta com a vantagem de 1.16 sobre o português, valorizou toda a luta que teve para alcançar pela primeira vez o triunfo na Volta a Espanha. “Queria ganhar em Bilbau e também no Angliru mas a Bola del Mundo também é muito especial. Para ser sincero, começo a sentir-me um pouco melhor. Hoje [Sábado], senti-me melhor do que nas anteriores chegadas em alto, por isso estou contente pela forma como as coisas me saíram e como a equipa se comportou nas últimas três semanas. Não diria que me sentia confortável no ritmo que o João [Almeida] e o Jay [Vine] impuseram mas percebi que ainda não estava no meu limite e que tinha uma boa oportunidade de ganhar a etapa. Houve um momento em que decidi que ia tentar e imediatamente consegui uma diferença. Os últimos metros foram incrivelmente difíceis, quase bati nas barreiras”, comentou também o dinamarquês, primeiro do país a ganhar a Vuelta.

Mais tarde, Sepp Kuss, norte-americano da Visma que ganhou a Vuelta em 2023 num ano de sonho para a equipa, explicou os problemas que Vingegaard tinha enfrentado. “É um dia especial. Foi a subida que me deu a primeira vitória numa grande volta, foi também a subida onde ganhei a primeira grande volta numa equipa com o Primoz [Roglic]. Ganhar aqui com o Jonas é algo especial, ainda para mais em dia de aniversário. Ele andou doente, a tossir imenso, a lutar imenso para ter a respiração própria. Quando estamos no final de uma grande volta, precisamos estar a 100% e ele sofria todos os dias. Nesta terceira semana melhorou e agora vimos esse resultado”, contou o corredor da Visma, que acabou em segundo a etapa.

Agora chegava a etapa da coroação, que seria quase um pro forma para a festa de Vingegaard e da Visma apesar das sete vitórias alcançadas em etapas pela Emirates, que ganhou também por equipas. Aliás, mais até do que quem conseguiria ganhar a chegada a Madrid, as atenções estavam centradas na forma como se iria chegar a Madrid, tendo em conta as muitas manifestações pró-Palestina contra a Israel Premier Tech que voltavam a estar marcadas (e que, antes da subida à Bola del Mundo, voltaram a condicionar a etapa). Para isso, além das habituais medidas de segurança na chegada e nos locais com mais público, havia um reforço estratégico com tanques de água, polícia a cavalo e um dispositivo humano reforçado entre alguns planos alternativos que estavam estudados. “Devemos ter reconhecimento e respeito absoluto pelos corredores. Ao mesmo tempo, admiramos um povo que de mobiliza em defesa de causas justas como a da Palestina”, tinha comentado Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol, na antecâmara do início da etapa.

Primeiros quilómetros, primeiros números típicos de uma última etapa de consagração: muitos sorrisos, a habitual fotografia da equipa do vencedor com os números dos dois corredores que acabaram por desistir na edição deste ano (Alex Zingle e Victor Campenaerts), ambiente descontraído de quem só tinha de seguir em frente sem grandes andamentos depois de três semanas duríssimas que pareciam não ter fim. Dava para tudo até à chegada ao circuito de Madrid, com 50 quilómetros finais que já eram levados mais “a sério”. Contudo, e mais uma vez, fatores externos acabaram por travar outra vez a corrida com carga policial à mistura.

A pouco menos de 60 quilómetros do final, uma das manifestações pró-Palestina conseguiu mesmo furar as baias e impedir que o pelotão seguisse a sua marcha, o que levou mesmo à intervenção da polícia presente para acalmar os ânimos. Os corredores foram depois encaminhados por outra estrada num plano alternativo que já estava preparado caso acontecesse o que se veio mesmo a confirmar mas começava a perceber-se que a Volta a Espanha teria mesmo o final que ninguém queria, com a última etapa a ser neutralizada ainda a quase 60 quilómetros da meta perante a incapacidade de garantir condições de segurança para que a tirada fosse concluída perante a autêntica invasão feita à zona do circuito onde deveria acabar a Vuelta.

A classificação geral não sofreu qualquer alteração, com Jonas Vingegaard (Visma) a ganhar com 1.16 de vantagem em relação a João Almeida (Emirates) e 3.11 de Thomas Pidcock (Q36.5), que fechou o pódio de forma surpreendente. Jai Hindley (Red Bull-Bora) acabou em quarto a 3.41, ao passo que Matthew Riccitello (Israel Premier Tech) ficou em quinto a 5.55 e ganhou a camisola branca da juventude. Giulio Pellizzari (Red Bull-Bora, 7.23), Sepp Kuss (Visma, 7.45), Felix Gall (7.50), Torstein Taaen (Bahrain, 9.48) e Matteo Jorgensen (Visma, 12.16) fecharam o top 10, com vitórias para Jay Vine (Emirates) na montanha, para Mads Pedersen (Lidl-Trek) nos pontos e para a UAE Team Emirates na classificação por equipas.

Já João Almeida, que atravessa o melhor ano de sempre na carreira, irá agora descansar e depois estará no Campeonato do Mundo de estrada, que se vai realizar no Ruanda. O português começou 2025 com um segundo lugar na Volta à Comunidade Valenciana (fazendo três top 3 em etapas), teve depois outro segundo lugar na Volta ao Algarve (com uma segunda posição no Alto da Fóia), um sexto posto no Paris-Nice a ganhar a etapa de La Loge des Gardes e três vitórias consecutivas no País Basco, na Romandia e na Suíça antes da queda que levou à desistência na Volta à França na nona etapa e a este segundo lugar na Volta a Espanha.