Com o atual presidente fora da corrida por atingir o limite de mandatos, a Câmara de Évora é um “troféu” cobiçado nas autárquicas de 12 de outubro, com a luta a mobilizar um recorde de sete candidaturas.

Desde as primeiras eleições autárquicas em 1976, nunca tinha havido tantas candidaturas a esta câmara municipal, segundo dados consultados pela agência Lusa nas páginas de Internet da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e da plataforma estatística Pordata.

A “batalha” coloca em confronto as candidaturas da CDU, que atualmente gere o município, PS, PSD/CDS-PP/PPM, Movimento Cuidar de Évora (MCE), Chega, Bloco de Esquerda (BE) e Iniciativa Liberal (IL), que concorre pela primeira vez no concelho.

Sem poder recandidatar o ainda presidente Carlos Pinto de Sá, que atinge o limite de mandatos, a CDU escolheu para cabeça de lista o eurodeputado João Oliveira, de 46 anos, advogado, antigo deputado e ex-líder parlamentar do partido.

“Évora fez um caminho que não deve ser interrompido e a CDU tem soluções exequíveis, não apenas de resposta às necessidades, mas que permitem projetar o concelho para um novo ciclo de desenvolvimento”, afirmou à agência Lusa João Oliveira.

Tal como a CDU, para estas eleições, também o PS optou por um antigo líder parlamentar do partido, Carlos Zorrinho, de 66 anos, professor catedrático, que já teve vários cargos, como deputado, eurodeputado e secretário de Estado.

“Entre os eborenses há um grande sentimento de desânimo, até de algum descontentamento”, e “é necessário um novo impulso”, afirmou à Lusa Carlos Zorrinho, quando a sua candidatura foi aprovada pela Concelhia de Évora do PS.

A candidatura de Henrique Sim-Sim, de 52 anos, vereador, líder da concelhia do PSD e funcionário da Fundação Eugénio de Almeida, pela coligação PSD/CDS-PP/PPM é uma das duas repetentes (foi a terceira mais votada em 2021) e procura intrometer-se na luta.

Acreditando que, desta vez, terá a “confiança” da população para liderar os destinos da câmara, o candidato prometeu, em declarações à Lusa, “resolver os problemas da cidade e dar um futuro mais ambicioso” ao concelho.

A outra candidatura repetente e que quer igualmente ter uma palavra a dizer é a da também vereadora Florbela Fernandes, de 53 anos, que trabalha na Câmara de Beja. Cabeça de lista do MCE, que nas eleições de 2021 ficou em 4.º lugar, esta é a única candidatura a Évora liderada por uma mulher.

“O que nos distingue das outras candidaturas é que somos a única que só serve os eborenses e Évora, não temos mais ninguém a quem obedecer”, afirmou Florbela Fernandes, em março deste ano, numa conferência de imprensa de apresentação da candidatura.

Já o Chega volta a apresentar-se a sufrágio em Évora, depois de, há quatro anos, ter conseguido eleger um deputado municipal, apostando agora na lista à câmara no empresário dos setores imobiliário e agrícola Ruben Miguéis, de 41 anos.

“Évora é uma cidade que tem tudo para ser melhor do que é”, considerou Ruben Miguéis à Lusa, aquando do anúncio da sua candidatura, definindo como prioridade a área da habitação.

Igualmente com um deputado municipal eleito em 2021, o Bloco de Esquerda, após a desistência do anterior candidato anunciado (Bruno Martins, devido a doença), decidiu apostar em Pedro Ferreira, de 47 anos, engenheiro informático na Câmara de Portel, neste distrito.

“O BE é a verdadeira candidatura de esquerda, fraturante e diferenciadora. Assume o compromisso de intervir e pugnar pela habitação justa, pela mobilidade, por melhores condições de vida, pela cultura e pelo futuro”, realçou à Lusa o candidato.

A Iniciativa Liberal concorre pela primeira vez a este município e estreia-se com uma lista encabeçada por Fábio Cabaço, de 39 anos, diretor comercial de uma multinacional na área dos seguros.

“Pretendemos adotar, nestas eleições, uma postura positiva e evitar os pequenos conflitos” políticos, realçou o candidato da IL, elegendo como pilares da candidatura as áreas da habitação, mobilidade e emprego.

Hegemonia comunista interrompida durante 12 anos pelo PS

Em quase 50 anos, a Câmara de Évora foi quase sempre governada por coligações lideradas pelo PCP, com a exceção do período entre 2001 e 2013, em que foi o PS que dirigiu os destinos do concelho.

O histórico autarca Abílio Fernandes foi o primeiro presidente deste município alentejano e manteve-se no cargo durante 25 anos, entre as primeiras eleições autárquicas, em 1976, e até 2001, sempre eleito em listas lideradas pelo PCP.

O PS interrompeu esta hegemonia comunista nas autárquicas de 2001, com José Ernesto Oliveira a conquistar o município com maioria absoluta e a repetir a vitória nas duas eleições seguintes, realizadas em 2005 e 2009, mas com maioria relativa.

José Ernesto Oliveira, que foi militante do PCP, do qual se desvinculou em 1992, e, mais tarde, do PS, governou a autarquia durante quase 12 anos, renunciando ao cargo por razões pessoais e de saúde antes de terminar o terceiro mandato.

Com esta saída concretizada no dia 1 de maio de 2013, o então vice-presidente, Manuel Melgão, também eleito pelo PS, assumiu a presidência e foi o candidato socialista nas autárquicas de 29 de setembro desse ano, perdendo as eleições para a CDU.

Vindo do concelho vizinho de Montemor-o-Novo, onde foi presidente da câmara durante cinco mandatos consecutivos, o comunista Carlos Pinto de Sá foi o “rosto” da reconquista da CDU, conseguindo a maioria absoluta nas eleições de 2013 e 2017.

Mas, há quatro anos, a CDU perdeu a maioria absoluta e o executivo municipal passou a ser constituído por dois eleitos da coligação, dois do PS, outros dois do PSD e um do Movimento Cuidar de Évora, enquanto a mesa da assembleia municipal ficou nas “mãos” dos socialistas.

A gestão CDU da autarquia, com maioria relativa, ficou então resumida a dois elementos, presidente e vice-presidente, e, após as eleições, ainda decorreram negociações com os outros partidos eleitos para uma governação estável, mas terminaram sem acordo.

Carlos Pinto de Sá está a cumprir o seu terceiro e último mandato em Évora e volta a candidatar-se pela CDU à Câmara de Montemor-o-Novo, atualmente nas “mãos” do PS.

Um dos principais temas deste mandato foi a conquista do título de Capital Europeia da Cultura (CEC) em 2027 pela cidade, cuja candidatura foi liderada pela câmara municipal.

A preparação da CEC Évora 2027 não esteve isenta de polémicas, como a escolha de Maria do Céu Ramos para presidir à associação gestora, a demissão da ex-coordenadora da Equipa de Missão, Paula Mota Garcia, ou divergências relacionadas com o financiamento, ficando o próximo executivo camarário com a concretização da iniciativa no centro das preocupações.

Situado no coração do Alentejo, o concelho de Évora tem como principais alicerces económicos a agricultura, serviços, turismo e indústria, sobretudo de componente eletrónicos e aeronáutica, e como “joia da coroa” o centro histórico, classificado Património da Humanidade pela UNESCO.

Segundo dados da plataforma estatística Pordata, este concelho, com 1.307,08 quilómetros quadrados de área, tinha, em 2024, uma população de 53.908 pessoas.

Apesar de ser um dos concelhos mais desenvolvidos da região, Évora não foge ao envelhecimento da população, com 187,7 idosos por cada 100 jovens, em 2024, de acordo com a Pordata.

A mesma plataforma estatística indica que o salário bruto médio mensal neste concelho era, em 2023, de 1.369,7 euros, inferior ao valor nacional (1.460,8 euros), no mesmo ano.