Mais um dia, mais uma final, mais um desafio à superação pessoal mesmo sabendo que essa dificilmente iria valer uma presença no pódio a não ser que o nível de superação chegasse a um impensável patamar. Depois da medalha de bronze nos Campeonatos da Europa em Pista Coberta, em março, Issac Nader regressava a mais uma decisão nos Mundiais de Tóquio em busca de um resultado que pudesse deixar marca num ano em ascensão onde bateu o recorde nacional em junho no Meeting Golden Spike, em Ostrava. “Tive erros mas o importante é que o segundo objetivo foi cumprido, estar na final”, apontara. Mas havia mais por escrever, caso existisse uma conjugação cósmica. Surgiu. E Isaac Nader teve um dia histórico no Japão.
“Coloco menos pressão em mim, menos peso emocional, mas vai ser um dia difícil”, tinha referido depois da meia-final, em que terminou na quarta posição da segunda série. “Não estava à espera de que a corrida fosse rápida, faltaram aqui atletas que poderiam lançar as meias-finais para bases mais rápidas. O campeão olímpico meteu o ritmo um pouco mais rápido mas não foi tão rápido como eles poderiam colocar. Cometi um erro aos 250 metros mas quando estamos num bom estado de forma podemos responder de todas as formas. Eu fui quarto, não valia a pena forçar, mas não desfiz a corrida, pois se desfaço ficava de fora. Acredito muito nas minhas características, tanto em corridas mais rápidas como nas mais lentas, em que também tenho de estar forte”, destacara o atleta português de 26 anos ainda na análise à meia-final.
“Digo muitas vezes ao meu treinador que me serve de pouco ser forte em corridas menos rápidas se não for também forte em corridas rápidas. Agora só posso dar o melhor numa final em que todos podemos ser últimos ou primeiros. Só tenho de acreditar no trabalho que fazemos e acredito que não é um trabalho de um ano, demora um pouco mais para estarmos bem”, acrescentara antes de uma decisão onde partia com a marca de 3.29,37, novo recorde nacional. Mais do que uma reflexão, foi quase uma profecia.
Numa final marcada por alguns toques, que deixaram por exemplo o britânico Josh Kerr em dificuldades na cauda do pelotão, Isaac Nader entrou na última volta em sétimo lugar e por dentro junto à corda tentando controlar o ritmo que estava a ser marcado pelo queniano Timothy Cheruiyot, passou os 1.300 metros ainda em sétimo mas com o britânico Jake Wightman a liderar a corrida, subiu a quinto nos derradeiros 100 metros já a começar a fazer a corrida por fora e teve uma ponta final verdadeiramente assombrosa que deixou tudo e todos para trás, ganhando com o tempo de 3.34,10 à frente de Wightman (3.34,12) e de Reynold Cheruiyot (3.34,25), que ultrapassou mesmo o compatriota Timothy Cheruiyot (3.34,50).
Isaac Nader bateu por larga margem a marca com que tinha garantido acesso à final (3.36,86), ficando ainda longe daquele que é ainda o seu recorde nacional também pelo ritmo que a decisão foi tendo. O atleta do Benfica venceu antigos campeões como Wightman, que foi campeão mundial em 2022, Reynold Cheruiyot, que se sagrou campeão mundial Sub-20 em 2022, Timothy Cheruiyot, que ganhou o título mundial em 2019, ou o escocês Josh Kerr, que chegava como campeão em título e prata nos Jogos de Paris.
Desta forma, e numa fase em que Portugal tinha apenas duas presenças em final com Agate de Sousa em sexto no salto em comprimento e Salomé Afonso na 12.ª posição nos 1.500 metros, Isaac Nader conseguiu a 24.ª medalha nacional na competição, apenas a oitava de ouro. Antes tinham sido campeões mundiais Rosa Mota (maratona, 1987), Fernanda Ribeiro (10.000, 1995), Manuela Machado (maratona, 1995), Carla Sacramento (1.500, 1997), Nelson Évora (triplo, 2007), Inês Henriques (50km marcha, 2017) e Pedro Pablo Pichardo (triplo, 2023). Mais: com a qualificação de Pichardo para a final do triplo salto, a Seleção pode apenas pela segunda vez aspirar a ter dois campeões do Mundo na mesma edição, algo que aconteceu apenas por uma ocasião em 1995, em Gotemburgo, quando além dos ouros de Fernanda Ribeiro e Manuela Machado houve ainda mais uma prata de Fernanda Ribeiro nos 5.000 e um bronze de Carla Sacramento nos 1.500.