O duelo entre os irmãos Alberto e Luís, da família Souto Miranda, um pelo PS e outro pela coligação PSD/CDS-PP/PPM, está a dominar a corrida autárquica no município de Aveiro, que é liderado há 20 anos por uma maioria de direita.
Luís Souto (PSD/CDS-PP/PPM), Alberto Souto (PS), João Moniz (BE), Miguel Gomes (IL), Cristina Tavares (CDU), Diogo Machado (Chega), Bruno Fonseca (Livre), Paulo Alves (Nós, Cidadãos!) e Ana Rita Moreira (PAN) são os nove candidatos à presidência da Câmara de Aveiro nas eleições de 12 de outubro.
Alberto Souto, antigo presidente da câmara e ex-secretário de Estado Adjunto e das Comunicações, foi o primeiro a entrar na corrida, em janeiro, cerca de um mês depois de ter lançado um livro com 101 propostas para Aveiro, onde se incluem mais zonas verdes, maior oferta habitacional pública, melhores transportes e mais creches e lares.
O candidato socialista tem sido um crítico da gestão de Ribau Esteves (PSD/CDS/PPM), que governa o município há 12 anos, tendo prometido anular várias decisões do atual executivo, incluindo a adjudicação da construção de um pavilhão-oficina, que representa um investimento de 22 milhões de euros, e a construção de um hotel de 12 pisos, que está previsto na cidade.
Nestas eleições, Alberto Souto tem como principal opositor o seu irmão Luís Souto Miranda, atual presidente da Assembleia Municipal, eleito pelo PSD, que foi escolhido pelo presidente do partido, Luís Montenegro, para encabeçar a lista Aliança Com Aveiro (que junta PSD, CDS e PPM), numa decisão que não foi bem acolhida localmente e que levou à demissão do presidente da concelhia ‘laranja’.
O professor na Universidade de Aveiro, que aposta numa linha de continuidade com inovação, tem como principal prioridade a habitação, propondo a criação de uma estrutura dedicada para gerir o problema e a criação de uma bolsa de terrenos “que estão prontos a construir” com licenciamento pré-aprovado, apostando ainda num alívio fiscal com a devolução de 0,25% do IRS aos munícipes.
O empresário Miguel Gomes, que repete a candidatura à presidência da Câmara pela Iniciativa Liberal, depois de em 2021 também ter sido cabeça de lista pelo partido, propõe menos impostos, uma burocracia mais ágil e seguro de saúde municipal para os habitantes do concelho.
Outro repetente nestas eleições é o gestor Paulo Alves que volta a ser a escolha do Nós, Cidadãos! para concorrer à Câmara de Aveiro. O candidato diz que tem como objetivo integrar o executivo municipal para “fiscalizar todas as atividades políticas”, assumindo como um dos pilares da sua candidatura uma agenda política tendo o mar como denominador comum.
O BE aposta em João Moniz, deputado na Assembleia Municipal e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que promete combater a escalada dos preços da habitação, através do aumento da oferta pública a custos controlados, de forma a travar o afastamento dos residentes do centro urbano, e defende a criação de uma taxa municipal turística.
Cristina Tavares aceitou também o desafio de entrar na corrida à câmara local pela CDU, depois de ter encabeçado a lista da coligação PCP/PEV pelo círculo eleitoral de Aveiro, nas legislativas de maio. A operária têxtil elegeu como uma das bandeiras da CDU o fim do pagamento das portagens nas autoestradas A17, A19 e A25, reivindicando ainda mais habitação social e um regime de licenças de alojamento local, que impeça a construção de unidades hoteleiras em zonas de pressão residencial.
O Chega candidata o antigo deputado municipal do CDS-PP Diogo Machado, que diz apresentar “uma alternativa séria, transparente e rigorosa aos mesmos protagonistas de sempre”, referindo-se às candidaturas da coligação PSD/CDS/PPM e do PS. Um dos principais projetos da sua candidatura é a construção de um novo hospital de raiz, em parceria com a Universidade de Aveiro e entidades privadas, na zona do Parque Desportivo de Aveiro, que deverá estar pronto a funcionar no final do mandato.
O PAN, que nas últimas autárquicas concorreu à Câmara de Aveiro coligado com o PS, vai agora a votos com uma lista própria encabeçada pela socióloga Ana Rita Moreira. A candidata anunciou como prioridades garantir soluções de habitação acessível à população, melhorar a mobilidade no território, reforçar a proteção animal e valorizar os espaços verdes como base de qualidade de vida para todos.
Finalmente, o Livre estreia-se na corrida à Câmara de Aveiro com uma lista encabeçada pelo investigador em relações internacionais Bruno Santos Fonseca. As suas prioridades são garantir habitação digna e acessível para todas as pessoas, promover uma mobilidade urbana sustentável, justa e eficiente, valorizar a participação do cidadão com proximidade e escuta ativa e tornar Aveiro num exemplo de coesão, inclusão e justiça social.
Domínio de centro/direita só foi interrompido duas vezes pelo PS
O município de Aveiro foi gerido desde 1976 por partidos do centro e direita, exceto entre 1997 a 2005, quando a autarquia foi liderada pelo socialista Alberto Souto que vai novamente a votos para tentar cumprir um terceiro mandato.
Girão Pereira foi o primeiro presidente da Câmara de Aveiro eleito democraticamente, tendo ganhado sucessivas eleições autárquicas pelo CDS de 1976 a 1993.
Em 1994, Girão Pereira foi eleito para o Parlamento Europeu, deixando a autarquia nas mãos do seu então vice-presidente Celso Santos, que, nas eleições de 1997, viria a perder a câmara para o socialista Alberto Souto, após duas décadas de maioria centrista.
O socialista governou a câmara durante dois mandatos (1997 e 2001) até que, em 2005, a coligação PSD/CDS-PP conquistou a autarquia e, desde então, nunca mais a perdeu.
Atualmente, a Câmara de Aveiro é liderada pelo social-democrata Ribau Esteves, que está a completar o seu terceiro mandato e, por esse motivo, não pode recandidatar-se.
O autarca deixa como principal legado a recuperação financeira do município, com o alcançar da sua plena autonomia em 2021 e a saída do Programa de Ajustamento Municipal.
O último mandato ficou, no entanto, marcado por várias obras polémicas, como o monumento evocativo da Muralha de Aveiro, projetado por Álvaro Siza Vieira, e a requalificação do Rossio, com a construção de um novo parque de estacionamento subterrâneo, uma obra que custou 20,5 milhões de euros, quase o dobro do valor da adjudicação (12,4 milhões de euros).
Mas o que gerou mais controvérsia foi a aprovação, já na parte final do mandato, de um plano de pormenor para uma zona nobre da cidade que irá permitir a construção de um hotel com 12 pisos, e que quase todos os candidatos à presidência da câmara admitem revogar, com exceção do candidato da “Aliança com Aveiro”, que junta PSD, CDS-PP e PPM.
Com 197,58 quilómetros quadrados, o município de Aveiro viu aumentar a sua população, entre 2021 e 2024, para 88.154 habitantes, segundo dados da Pordata, o que representa um aumento de 6,7%, mais do dobro da média nacional (3,2%).
Entre 2022 e 2024, foram construídas 856 novas casas, um valor insuficiente para acompanhar o crescimento da população residente, o que faz com que a falta de habitação seja um dos principais problemas no município.
Ao todo, o concelho contabilizava 42.699 alojamentos familiares concluídos em 2022, de acordo com as Estatísticas das Obras Concluídas do Instituto Nacional de Estatística (INE). O preço mediano de venda das casas para habitação familiar atingiu, em 2024, os 2.800 euros por metro quadrado para habitações novas.
Em julho de 2025, havia 2.244 pessoas desempregadas inscritas no centro de emprego em Aveiro, mais 59 do que no mesmo mês do ano anterior, segundo dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional. Destes, 642 estavam inscritas há mais de um ano.
O concelho tem no turismo uma das suas principais atividades económicas, apresentando nos últimos anos um crescimento notável neste setor, com recordes no número de visitantes e dormidas.
Com 453.431 dormidas em 2024, mais 21,7% que em 2019, o município de Aveiro está no grupo dos que tiveram um crescimento acima da média nacional (14,5%) neste indicador turístico.
Nas últimas eleições autárquicas, em 2021, a coligação PSD/CDS-PP/PPM obteve uma maioria absoluta com 51,26% da votação e seis mandatos. A segunda força mais votada foi a coligação PS/PAN, com 26% dos votos e três mandatos, e a terceira foi o Bloco de Esquerda, com 6,4%, mas sem qualquer eleito, seguindo-se o Chega (4,04%), CDU (3,34%), IL (2,31%), Nós, Cidadãos! (1,05%) e PCTP/MRPP (0,27%).
A coligação de centro direita tem também a maioria na Assembleia Municipal com 25 deputados, incluindo 10 presidentes de junta que são membros por inerência, havendo ainda oito deputados do PS/PAN, dois do Bloco de Esquerda, um do Chega e um da CDU
As eleições autárquicas vão realizar-se em 12 de outubro.