Independente, sem partidos, sem fações, sem condicionamentos. Mais fórmulas para garantir independência houvesse e mais teria Henrique Gouveia e Melo usado: o candidato à Presidência da República chegou a uma da das suas primeiras entrevistas nesta qualidade apostado em apresentar-se como o candidato “verdadeiramente independente”, atacando todos os outros por dependerem dos seus partidos — André Ventura à cabeça.
A entrevista à SIC aconteceu no rescaldo da apresentação do líder do Chega para Belém, que se focou, em boa parte, em atacar o adversário Gouveia e Melo. Ora o almirante vinha preparado para contra-atacar, começando desde logo por dizer que estas presidenciais já parecem uma “segunda volta das legislativas”, com tantos candidatos “partidários” e de “fação” a concorrerem.
E essa “dependência muito grande dos partidos” irá, carregou, “criar problemas no futuro” — ao contrário do que acontecia com Presidentes anteriores, como Mário Soares, “muito superiores ao seu espaço partidário”.
Depois, foco em Ventura, o alvo maior a que queria chegar: primeiro, lembrou que o próprio disse que tinha “muitas hesitações e queria era ser Governo”; depois atacou de frente: “Não percebi bem porque é que ele entrou nestas presidenciais. Não estou preocupado porque não pertencemos ao mesmo espaço político”.
Mesmo que tenham almoçado juntos em agosto, numa propriedade do seu apoiante Mário Ferreira, como foi noticiado — num dos tópicos que provocaram uma maior irritação em Gouveia e Melo. Não querendo comentar o assunto, acabou, por uma questão de “transparência”, de confirmar que o almoço aconteceu, que o seu objetivo foi “esclarecer as posições mútuas” — até porque não quer “queimar pontes” com ninguém — e que o resultado é claro: “Chegámos à conclusão óbvia de que não tínhamos interceções”.
Quanto à ideia de que poderia haver uma estratégia concertada entre os dois, serviu-se dos ataques de Ventura, no dia anterior, para provar que não: “Vamos ser adversários políticos. Essa candidatura a primeira coisa que fez foi atacar a minha. Não há nenhum acordo”. E como não é pessoa para “enrolar” ninguém, assegurou: “Eu não minto. Disse que almocei, não fingi, disse o que fui fazer. Para mim, os portugueses estão esclarecidos”.
Almirante vota PS ou PSD e não quer ser líder de “fação”
Quanto ao próprio Gouveia e Melo, e apesar de não ter querido o apoio do Chega — nem de partido nenhum –, quis deixar claro que não rejeita “nenhum voto, nem de extrema-direita nem de extrema-esquerda, desde que sejam votos portugueses” e que é de centro. Ou seja, como “a maior parte dos portugueses”, já votou PS e PSD. E é esses portugueses, do centro, sem extremos, que quer representar — e acha que poderá assim ser o candidato mais “equidistante” para o fazer. Mais um ataque aos rivais pelo caminho: “Não quero representar só uma fação de portugueses. Isso são os outros candidatos”.
Assim, as respostas foram também equidistantes em muitos assuntos, deixando algumas respostas para depois e citando vários artigos da Constituição — mostrando que a estudou — pelo caminho. Houve vários momentos em que acusou a imprensa de deturpar as suas opiniões e de criar assim “bichos papões”, como no caso da defesa que faz sobre o investimento em Defesa, uma vez que nem sequer é a favor dos 5% de investimento do PIB (essa tomada de posição europeia deve servir sobretudo “de aviso” à Rússia, explicou).
Quanto às dissoluções da Assembleia da República, depende: se houver uma maioria estável na Assembleia da República e um primeiro-ministro com algum “problema”, o Parlamento não tem “obrigatoriamente” de cair; se não houver Orçamento, idem aspas. A palavra chave é “obrigatoriamente”, o que lhe deixa uma margem de interpretação de acordo com as “circunstâncias” e com o “bom senso”.
Já quanto à hipótese de dar posse a um primeiro-ministro que não seja do partido mais votado — por exemplo, se o Chega ficar em primeiro lugar mas o bloco central se unir numa coligação de Governo — Gouveia e Melo admite fazê-lo se houver uma solução mais estável. Por isso mesmo, considerou que a geringonça foi apenas uma demonstração da “democracia a funcionar”.
Já sobre temas atuais, também tentou mostrar-se a meio da ponte: é a favor do fim das “portas escancaradas” à imigração, mas considera errado deixar que haja quem “compre” a nacionalidade enquanto quem trabalha e vive em Portugal tem dificuldades nesse sentido, por exemplo: “Se não tivermos imigrantes podemos acabar sós, pobres e abandonados”. E defendeu em termos relativos Carlos Moedas, no incidente do elevador da Glória, dizendo que tem “tanta culpa” como os presidentes anteriores — porque o problema é antigo, sistémico e mostra porque é que o país acaba por estar “imobilizado”.
Disse-se a favor do reconhecimento do Estado da Palestina e mostrou reservas quanto à flotilha que vai para Gaza: uma embarcação com bandeira portuguesa não deve ser atacada, nem tão pouco criar um incidente internacional de propósito. Considerou que no que toca à segurança Portugal não tem um problema “gravíssimo”: “Habituei-me a decidir com base em dados e não em perceções“. E classificou uma revisão constitucional como uma iniciativa que não é “importante nem urgente” (citando, de caminho, os artigos de inspiração marxista — 54 e 96, sobre comissões de trabalhadores e reforma agrária).
Ao longo da entrevista, o militar foi defendendo que quer ser o homem que põe o país a andar, que o “motiva” e que ajuda a que haja ciclos de governação mais longos, para que possa haver reformas estruturais. O crescimento deve andar pelos 3%, o Presidente deve ajudar à governação e não ser um “opositor”. São as bases e o início de um caminho que quer trilhar como político, e já aprendeu uma das respostas-tipo: confrontado com a sua queda nas sondagens, respondeu com um clássico — “a sondagem que importa é a das urnas, a 18 de janeiro”.